Leonardo de Moraes, irmão de ministro do STF, fala abertamente sobre sua militância de esquerda e visões políticas

O advogado, escritor e tabelião Leonardo de Moraes, irmão do ministro Alexandre de Moraes do Supremo Tribunal Federal (STF), tem ganhado notoriedade ao expressar publicamente suas convicções políticas de esquerda. Em diversas entrevistas recentes, ele defende a democracia brasileira e critica o que denomina de “ciclo de retorno do pensamento de ultradireita”, abordando temas que vão desde a negação da ditadura militar até os riscos autoritários no Brasil pós-Bolsonaro.

Com uma trajetória multifacetada que inclui atuação como professor de Direitos Humanos, artista plástico e roteirista, Leonardo de Moraes também compartilha um histórico profissional e familiar próximo ao do irmão mais famoso. Essa proximidade, que já foi apenas um dado biográfico, tornou-se um ponto de interesse para o público e a mídia, especialmente após sua ascensão como dono de um cartório em Santos, no litoral paulista.

As declarações de Leonardo vêm à tona em um momento de intensos debates políticos no Brasil, onde as discussões sobre a polarização ideológica e a saúde das instituições democráticas estão em evidência. A fala do tabelião, ecoando em canais de política e literatura, oferece uma perspectiva singular sobre o cenário atual, conectando suas vivências pessoais e profissionais com uma análise crítica do contexto político brasileiro. As informações foram divulgadas por diversas fontes, incluindo reportagens do portal Gazeta do Povo.

Trajetória profissional e familiar: uma conexão com o poder

A relação entre Leonardo de Moraes e seu irmão, o ministro Alexandre de Moraes, transcende o vínculo familiar, estendendo-se por décadas de trajetórias profissionais que, em diversos momentos, se cruzaram. Leonardo, que hoje se define como um “recruta tardio” da democracia, movido pela necessidade de combater o avanço da ultradireita, trilhou um caminho que, de certa forma, espelha e se complementa ao do irmão.

Desde o início dos anos 2000, Leonardo ocupou cargos em instituições públicas ligadas ao Estado de São Paulo. Em janeiro de 2003, ingressou como assessor jurídico na Febem/SP (atual Fundação CASA), período em que Alexandre de Moraes exercia a função de Secretário da Justiça e da Defesa da Cidadania do estado, nomeado pelo então governador Geraldo Alckmin. Leonardo permaneceu na Fundação CASA até junho de 2004.

No ano seguinte, em agosto de 2004, Alexandre de Moraes assumiu a presidência da própria Fundação CASA, com a incumbência de promover uma reforma administrativa que incluiu demissões de funcionários acusados de tortura. Embora não tenham atuado lado a lado no organograma, os irmãos compartilhavam o mesmo ambiente institucional.

Vínculos em gabinetes estaduais e sociedade em escritório de advocacia

Entre julho de 2004 e dezembro de 2006, Leonardo de Moraes atuou como assessor jurídico nos gabinetes do governador Geraldo Alckmin e do vice-governador Cláudio Lembo. Paralelamente, Alexandre de Moraes continuava à frente da Secretaria da Justiça e da Defesa da Cidadania, cargo que lhe proporcionou significativa projeção nacional.

Posteriormente, de 2007 a 2008, Leonardo ocupou o cargo de Superintendente de Patrimônio na COHAB-SP, companhia metropolitana de habitação do governo estadual. Alexandre, por sua vez, já havia deixado o governo Alckmin e ingressado na gestão de Gilberto Kassab na prefeitura de São Paulo, onde ocupou as secretarias de Transportes e de Serviços.

A rede de relacionamentos construída nessa época se mostrou duradoura. De 2009 a 2014, os irmãos foram sócios no escritório Alexandre de Moraes Advogados Associados, especializado em Direito Público. A clientela do escritório era composta majoritariamente por políticos e agentes públicos, refletindo o universo em que ambos transitaram na década anterior. Leonardo permaneceu no escritório até se licenciar para ingressar na carreira notarial.

A ascensão ao cartório e a defesa da democracia

Em 2017, ano em que seu irmão Alexandre de Moraes foi empossado como ministro do STF, Leonardo assumiu a titularidade do 1º Cartório de Notas de Santos, no litoral paulista, após ser aprovado em concurso público. O local é conhecido na cidade como “Cartório Moraes”. A escolha pela carreira notarial, segundo ele, foi motivada pela estabilidade que ela oferece, permitindo-lhe ter tempo e recursos para se dedicar à escrita, às artes e à expressão de suas opiniões políticas.

Leonardo de Moraes se posiciona de forma clara e contundente em suas entrevistas, rotulando a direita brasileira como “ultradireita” e argumentando que ela se sustenta em um “amontoado de preconceitos” que ganharam “lustro” e, em alguns casos, até uma “percepção de intelectualidade”. Ele critica líderes conservadores como Bolsonaro e Trump, classificando-os como “oportunistas religiosos” que utilizam discursos religiosos de forma conveniente, sem ter uma aderência genuína à fé.

Sua visão crítica se estende à Argentina de Javier Milei, que ele descreve como um presidente “de ultradireita” que implementa “verdadeiros absurdos humanitários” sob o pretexto de reduzir as contas públicas, argumentando que um país que não valoriza seu “material humano” e ignora a fome de sua população não pode prosperar, independentemente do acerto de suas contas públicas.

O romance “Tia Beth” e a conexão com o passado e o presente autoritário

Em 2023, Leonardo de Moraes lançou o romance “Tia Beth”, obra que, segundo ele, busca traçar paralelos entre o período do regime militar no Brasil e os riscos autoritários que ele enxerga no país após o governo Bolsonaro. O livro aborda temas como a negação da ditadura, a exaltação de torturadores e a fragilidade das instituições democráticas diante de discursos conservadores.

O romance, que nasceu durante a pandemia como um folhetim no Instagram, possui tintas autobiográficas e apresenta um protagonista chamado Leonardo, que, aos 18 anos em 1996, investiga os segredos de uma tia cuja vida foi impactada negativamente pela ditadura militar. A obra serve como um veículo para Leonardo expressar suas preocupações sobre a memória histórica e a persistência de tendências autoritárias.

Além de sua produção literária, Leonardo é ativo em diversas plataformas digitais. Mantém um perfil no TikTok, onde compartilha seus trabalhos de artes visuais e lê trechos de seu livro. Seu cartório em Santos também possui um perfil ativo no Instagram, onde ele atua como “tabelião influencer”, respondendo a dúvidas do público sobre temas como herança, união estável e testamentos públicos, utilizando uma linguagem acessível.

Polêmicas e o pedido de suspeição contra o ministro Alexandre de Moraes

A notoriedade de Leonardo de Moraes e sua ligação com o ministro Alexandre de Moraes geraram polêmicas. Em fevereiro deste ano, um pedido formal de suspeição foi protocolado no STF contra o ministro, alegando que ele teria utilizado seu cargo para proteger o cartório de seu irmão em Santos. A denúncia, feita por Edmundo Berçot Júnior, ex-presidente do MDB de Praia Grande, sustenta que Leonardo estaria em uma lista de “delegatários irregulares” que deveriam ter sido removidos do cargo por força de regras do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) criadas em 2009.

A controvérsia surgiu durante o julgamento da ADPF 209, que discutia as regras para quem comanda cartórios em São Paulo. Alexandre de Moraes foi o único a divergir dos demais ministros, votando pela “perda de objeto”, o que, na prática, impediria o tribunal de discutir o assunto e manteria as regras vigentes. Críticos apontam que esse voto solitário serviu como um “escudo” para proteger o irmão das regras de remoção do CNJ.

Leonardo nega veementemente qualquer irregularidade, defendendo seu direito ao cargo com base em seu desempenho em concurso público e classificando o pedido de suspeição como “terrorismo emocional da ultradireita”, uma tentativa de atingir o ministro através de sua trajetória. O processo ainda está em andamento no STF, sem decisão final.

A atuação da esposa de Leonardo e o contrato milionário

A esposa de Leonardo de Moraes, Ana Claudia Consani de Moraes, também esteve no centro de uma polêmica recente. Ela atuava como consultora no escritório Barci de Moraes, comandado por Viviane Barci, esposa do ministro Alexandre de Moraes. O escritório firmou um contrato milionário com o Banco Master, no valor de R$ 129 milhões, tendo recebido R$ 80,2 milhões em menos de dois anos.

O acordo foi encerrado após a prisão do dono do banco, Daniel Vorcaro, na Operação Compliance Zero. Nesse contexto, Ana Claudia elaborou o Código de Ética do Banco Master, documento que, segundo análises, apresentava erros básicos e poderia abrir brechas para negociações irregulares, apesar de prometer integridade e transparência.

O deputado federal Kim Kataguiri chegou a solicitar a convocação de Ana Claudia e do próprio Alexandre de Moraes na CPMI do INSS para esclarecer as relações da família com o banco. Até o momento, não houve uma resposta definitiva sobre o caso.

A visão de Leonardo sobre o “bagunceiros” e a “pessoa certa”

Enquanto as polêmicas se desdobram, Leonardo de Moraes continua a divulgar seu livro, aproveitando a curiosidade dos entrevistadores sobre seu irmão. Em um podcast no canal de esquerda TV Fórum, ele comentou os atos de 8 de janeiro de 2023, afirmando que os “bagunceiros de plantão” acabaram “caindo na mão da pessoa errada, na hora errada”, pois encontraram alguém “que sabe do que está falando”.

Essa declaração resume a visão de Leonardo sobre o papel de seu irmão e, de certa forma, sobre a própria dinâmica do poder. Ao contrário dos “bagunceiros” que ele descreve, Leonardo de Moraes parece ter sempre se posicionado “no lugar certo, na hora certa”, beneficiado, em grande medida, por carregar o “sobrenome certo”. Sua trajetória, marcada pela estabilidade profissional e pela liberdade de expressar suas convicções, contrasta com os debates acalorados que cercam a figura pública de seu irmão, demonstrando a complexidade das relações entre família, poder e ideologia no Brasil contemporâneo.

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