Israel intensifica pressão sobre o Hezbollah em meio a nova doutrina estratégica e instabilidade no Irã
Israel enxerga uma oportunidade única para desmantelar a capacidade de ameaça do Hezbollah, após o Irã, principal financiador do grupo, ter se tornado alvo de ataques e instabilidade interna. A ofensiva em larga escala no sul do Líbano visa neutralizar o grupo xiita, que vinha falhando em cumprir acordos de desarmamento e mantinha o norte de Israel sob constante ameaça de foguetes.
A mudança de cálculos israelenses ocorreu no início de 2026, após protestos massivos no Irã desviarem o foco do regime e, consequentemente, de seu principal aliado regional. Com o Irã em xeque, Israel e os Estados Unidos lançaram ataques coordenados contra o país, o que, segundo autoridades israelenses, deu a deixa para intensificar a operação contra o Hezbollah.
A ação militar israelense no Líbano, descrita como uma resposta aos ataques do Hezbollah que mataram o líder supremo iraniano Ali Khamenei, visa a exaustão do grupo. O chefe do Comando Norte de Israel, Major-General Rafi Milo, classificou o ataque do Hezbollah como um “erro grave” e prometeu que os ataques continuarão até que o grupo sofra um “golpe sério”, conforme informações divulgadas pela CNN.
A Origem da Nova Ofensiva: Falha no Cessar-Fogo e Plano Israelense
No início de janeiro de 2026, Israel finalizava planos para uma operação de grande porte na fronteira norte. A decisão vinha após mais de um ano do cessar-fogo mediado pelos EUA, que não conseguiu silenciar o Hezbollah. Autoridades israelenses afirmaram à CNN que o governo libanês não cumpriu o compromisso de desarmar o grupo apoiado pelo Irã, tornando uma nova intervenção militar israelense uma necessidade para acabar com o lançamento de foguetes contra comunidades israelenses.
A estratégia de Israel era clara: uma operação para neutralizar definitivamente a capacidade do Hezbollah de ameaçar seu território. No entanto, os planos foram temporariamente suspensos devido à súbita instabilidade interna no Irã, principal patrocinador do Hezbollah. A prioridade de Israel se deslocou para o Irã, exigindo coordenação com os Estados Unidos em uma operação conjunta de grande escala.
Apesar da mudança de foco temporária, os planos de ataque ao Hezbollah permaneceram prontos. A oportunidade surgiu em 2 de março de 2026, menos de 48 horas após os ataques coordenados de Israel e EUA contra o Irã. O Hezbollah, em resposta à morte de Ali Khamenei, disparou seis foguetes contra o norte de Israel, ação que foi interpretada por Jerusalém como a “deixa” aguardada para o início da nova fase da ofensiva.
O Hezbollah em Xeque: Ataques Coordenados e a “Armadilha Estratégica”
O Major-General Rafi Milo, chefe do Comando Norte de Israel, declarou que o Hezbollah “caiu em uma armadilha estratégica” ao responder aos ataques israelenses que resultaram na morte de Ali Khamenei. Ele classificou o ato do Hezbollah como um “erro grave” e reafirmou o compromisso de Israel em continuar os ataques até que o grupo sofra um “golpe sério”.
Israel desencadeou ondas sucessivas de ataques em todo o Líbano, visando líderes do Hezbollah, infraestrutura de comando, depósitos de armas, lança-mísseis e instalações de treinamento militar. As Forças de Defesa de Israel (IDF) emitiram dezenas de avisos de retirada, forçando o deslocamento de centenas de milhares de civis libaneses para o norte do Rio Litani. O ministério da saúde do Líbano reportou mais de 680 mortos até quarta-feira, 11 de março de 2026.
A presença militar israelense no sul do Líbano, estabelecida após o cessar-fogo de novembro de 2024 com a tomada de cinco pontos estratégicos, foi expandida. Nos dias anteriores, as forças israelenses avançaram mais de um quilômetro em território libanês, criando uma área de “defesa avançada” que servirá como zona tampão.
A Reação do Líbano e a Força do Hezbollah Apesar do Enfraquecimento
O presidente do Líbano, Joseph Aoun, condenou o avanço israelense, acusando o país de desrespeitar leis de guerra e internacionais. Simultaneamente, Aoun criticou o Hezbollah por “trair o país” e proibiu suas atividades militares. Essa declaração sinaliza uma crescente pressão interna e externa sobre o grupo xiita.
O Hezbollah, outrora considerado um dos atores não estatais mais poderosos do mundo, financiado com cerca de US$ 1 bilhão por ano do Irã por duas décadas, tem enfrentado um duro golpe. Israel conseguiu desarticular parte de sua liderança e alvejar seu vasto arsenal de mísseis. Contudo, o grupo ainda demonstra capacidade de retaliação, lançando centenas de foguetes e drones contra Israel, muitas vezes em coordenação com mísseis balísticos iranianos. Em uma única rajada na noite de quarta-feira, o Hezbollah disparou mais de 100 foguetes.
Além dos ataques de longo alcance, o Hezbollah também realizou investidas diretas contra posições das FDI, com suas forças de elite Radwan tentando incursões no norte de Israel. As FDI relataram a morte de dois soldados israelenses e pelo menos 14 feridos no sul do Líbano em decorrência desses confrontos.
O Legado da Guerra de 2023 e a Ameaça Persistente
Israel alega ter enfraquecido significativamente o Hezbollah durante o conflito de 13 meses iniciado após o ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023, guerra na qual o Hezbollah se juntou abrindo uma segunda frente. No entanto, mesmo após o cessar-fogo de 2024, as FDI estimavam que o Hezbollah ainda detinha até um terço de seu arsenal de mísseis pré-guerra. Um oficial militar israelense destacou à CNN que “seja 30% ou 10%, ainda é o suficiente para representar uma séria ameaça aos civis no norte”.
Durante os arranjos iniciais do cessar-fogo, o Hezbollah teria realocado a maior parte de suas forças e ativos para o norte do Rio Litani. Contudo, o grupo ainda mantém capacidades operacionais no sul do Líbano, tanto em pessoal quanto em armamento. Isso inclui armas de precisão com alcance de 8 a 10 quilômetros, mísseis antitanque e um programa ativo de drones, segundo fontes israelenses com conhecimento das avaliações estratégicas.
Desde o cessar-fogo de 2024, Israel tem realizado ataques quase diários contra pessoal e infraestrutura do Hezbollah no sul do Líbano, acusando o grupo de tentar se rearmar e reconstruir suas capacidades. Essa percepção de que o Hezbollah está se recuperando mais rapidamente do que os esforços israelenses de disrupção levaram a liderança de Israel a considerar a campanha atual como uma “oportunidade”, conforme relatado por duas fontes israelenses.
A Nova Doutrina Estratégica de Israel: Defesa e Áreas Tampão
A atual campanha no Líbano reflete uma recalibração mais ampla da doutrina estratégica israelense desde outubro de 2023. Israel acredita na necessidade de estabelecer uma defesa militar robusta para proteger seus civis de proxies iranianos em suas fronteiras. A retirada de mais de 60.000 moradores das proximidades da fronteira em outubro de 2023 foi um evento traumático que Israel promete não repetir.
As áreas tampão criadas ou expandidas por Israel em Gaza, Líbano e Síria são um reflexo direto dessa nova lógica de segurança. O parlamentar do Likud, Amit Halevi, defendeu que o Rio Litani, a cerca de nove quilômetros ao sul do Líbano, “deve se tornar a nova Linha Amarela do norte”, em alusão à linha de retirada em Gaza. Embora autoridades militares israelenses afirmem publicamente que as operações são limitadas e direcionadas, a pressão política para expandir a área tampão a longo prazo é significativa.
Essa abordagem de segurança alinha-se com as ambições expansionistas da coalizão governamental de ultradireita de Israel. A ideia é criar zonas de segurança que minimizem o risco de ataques diretos e permitam uma resposta mais eficaz contra ameaças vindas de grupos apoiados pelo Irã.
O Irã como Prioridade e a Visão de Longo Prazo para o Líbano
Israel considera o Hezbollah em um de seus pontos mais fracos históricos, com o fluxo de dinheiro e armas do Irã significativamente interrompido e uma parte considerável da população libanesa não vendo mais o grupo como seu defensor. “Diante da janela de oportunidade criada quando o Hezbollah escolheu iniciar uma guerra, temos que usar este momento para terminar o que não completamos anteriormente”, afirmou uma autoridade militar israelense.
Atualmente, o Irã é a principal prioridade de Israel. Contudo, assim que o conflito nessa frente terminar, é provável que Israel redirecione totalmente sua atenção para o Líbano. Essa mudança, segundo Assaf Orion, general de brigada aposentado e pesquisador internacional, pode ser facilitada pela liberação da Força Aérea de Israel, atualmente ocupada com o Irã, para cobrir uma operação terrestre contra o Hezbollah.
Orion avalia que “o front iraniano não permanecerá aberto para sempre, e Israel pode gerenciar mais algumas semanas de engajamento limitado com o Hezbollah antes de mudar para uma ofensiva total”. A expectativa é que, com a pressão sobre o Irã diminuindo, Israel possa concentrar todos os seus recursos para atingir o objetivo de neutralizar o Hezbollah de forma definitiva.
O Futuro da Região: Negociações, Diplomacia e o Papel do Hezbollah
A posição de Israel é que o governo libanês, e suas forças armadas, carecem de capacidade para confrontar o Hezbollah. A declaração do exército libanês em janeiro de 2025 sobre o alcance do controle operacional ao sul do Rio Litani foi descartada por Israel como “longe de ser suficiente”. O presidente libanês, Joseph Aoun, condenou a atividade militar do Hezbollah, classificando-a como operando “em prol dos cálculos do regime iraniano”. Ele chegou a pedir negociações diretas com Israel para uma “cessação final das hostilidades”.
No entanto, autoridades israelenses veem poucas perspectivas de um acordo duradouro sem uma pressão militar significativa. Assaf Orion explica que, embora o governo libanês peça negociações, Israel considera as condições atuais inaceitáveis. Ele sugere que o governo libanês provavelmente não concordará em encerrar o conflito sem uma conquista militar substancial. Orion observa que o Hezbollah busca reviver sua narrativa de resistência, enquanto o governo libanês defende a diplomacia, mas “é preciso lembrar quem tem as armas”, apontando para o poder militar do Hezbollah.
A dinâmica entre o Hezbollah, o governo libanês e Israel sugere um cenário complexo. Enquanto o Líbano busca uma saída diplomática, a força militar do Hezbollah e a determinação de Israel em neutralizá-lo moldam o futuro da região. A capacidade do Hezbollah de continuar a retaliar, mesmo sob forte pressão, e a sustentabilidade da nova doutrina estratégica de Israel serão cruciais para determinar o desfecho deste conflito prolongado.