O renomado diário italiano La Repubblica, um dos mais influentes e lidos do país, completou 50 anos de circulação nesta quarta-feira, 14 de fevereiro. A data, que deveria ser apenas de celebração, foi marcada por um misto de homenagens e intensos protestos por parte de seus jornalistas, revelando um momento de grande incerteza para o futuro da publicação.

Enquanto autoridades e personalidades, incluindo o presidente italiano Sergio Mattarella, participavam de uma exposição em Roma para celebrar o marco histórico, a redação do jornal se manifestava do lado de fora. O motivo é a provável venda do veículo, que levanta sérias preocupações sobre o futuro do jornalismo italiano e a estabilidade de seus profissionais.

Os jornalistas temem demissões em massa e um significativo enxugamento do diário, que é conhecido por sua postura crítica ao governo de Giorgia Meloni. As negociações de venda, confirmadas pelos proprietários do grupo Gedi, ao qual La Repubblica pertence, adicionam uma camada de incerteza a este momento crucial, conforme informações apuradas.

Meio Século de História e Influência

Fundado em 1976 por Eugenio Scalfari, que faleceu em 2022, La Repubblica rapidamente se consolidou no cenário italiano. O surgimento do jornal, cem anos após seu concorrente milanês Corriere della Sera, ocorreu em um período de grande efervescência social e política na Itália.

O documentário “Repubblica 50” recorda que, na época de sua criação, o mundo vivia o pós-Guerra do Vietnã e o lançamento da Microsoft, enquanto a Itália ainda sentia o impacto do assassinato do escritor e cineasta Pier Paolo Pasolini. Era um tempo de “anos de chumbo”, entre o fim dos anos 1960 e meados dos anos 1980, marcado por atos terroristas da extrema direita e da extrema esquerda.

Ezio Mauro, sucessor de Scalfari na direção por 20 anos e diretor do documentário, descreve a missão do jornal naquele contexto: “Era este o mundo a entender e a decifrar para poder contá-lo”. A tiragem do jornal chegou a dobrar durante o sequestro do ex-primeiro-ministro Aldo Moro em 1978, quando uma foto dele com um exemplar do diário serviu como prova de vida.

Scalfari, que já havia fundado a revista semanal L’Espresso, teria dito: “Finalmente identifiquei meu público: reformista e republicano, apoiador de direitos civis, mas também dos deveres que deles decorrem”. O público-alvo incluía professores, estudantes, políticos, intelectuais e mulheres emergindo do movimento feminista e do Maio de 1968, como destaca a jornalista Simonetta Fiori.

Um Jornal Inovador e Conectado ao Leitor

Desde sua origem, La Repubblica inovou no formato do jornalismo italiano. Chegou em tamanho tabloide, com manchetes curtas e tipografia forte. Simonetta Fiori descreve que o jornal tinha “somente 20 páginas, com economia de papel e de peso: apenas um terço do Corriere. Nada de páginas policiais, pouco esporte, nenhum obituário”.

A ambição era ser um jornal mais nacional e menos focado em questões locais, dando voz a uma opinião pública que, embora existente, não era plenamente reconhecida. Mario Orfeo, atual diretor de Redação, afirma no documentário: “O Repubblica nunca foi um jornal de partido, mas sempre esteve ao centro das grandes batalhas políticas e culturais do país. Isso devido ao relacionamento especial com a comunidade de leitores”.

Com o tempo, o periódico expandiu sua cobertura para incluir temas culturais, moda, design, saúde e gastronomia, através de suplementos e revistas. Além do diário impresso, o grupo hoje publica duas revistas semanais, uma mensal e o caderno dominical “Robinson”, uma referência em literatura.

A Crise Atual e o Futuro Incerto

Os protestos dos jornalistas, que exibiam faixas com os dizeres “jornalismo, dignidade e independência”, refletem a profunda apreensão com a venda. Os proprietários do grupo Gedi, parte da holding controlada pela família Agnelli-Elkann, também à frente da Stellantis e do clube Juventus, confirmaram as negociações.

Uma das tratativas envolve o grupo grego Antenna. Em um panfleto distribuído, os jornalistas expressaram sua indignação: “Depois de seis anos de gestão desastrosa do grupo editorial, o atual dono, John Elkann, decidiu vender o que resta do Gedi para um armador grego. Ele tem esse direito, e nós temos o direito e dever de fazer exigências.”

O temor de demissões em massa e de um possível comprometimento da linha editorial, especialmente considerando a postura crítica do jornal ao governo atual, é palpável entre os profissionais. A situação destaca os desafios enfrentados pela imprensa tradicional em um cenário global de transformações e o impacto na qualidade do jornalismo italiano.

Legado e Relevância Continuada

Apesar da crise, La Repubblica mantém sua relevância. Em 1997, foi o primeiro jornal italiano a lançar um site, demonstrando sua vanguarda digital. Em 2025, o diário passou por uma reforma gráfica e lançou um novo aplicativo para smartphones, que oferece podcasts, vídeos e personalização de conteúdo, permitindo aos usuários escolher repórteres e colunistas de preferência.

Atualmente, La Repubblica ocupa a posição de segundo jornal do país em circulação, atrás apenas do Corriere della Sera. Dados de novembro indicam uma tiragem diária de 130 mil exemplares, impressos e digitais, enquanto seu concorrente alcançou 209 mil. A luta pela dignidade e independência do jornalismo italiano continua, enquanto o diário busca adaptar-se aos novos tempos sem perder sua essência histórica.

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