O Irã enfrenta um dos maiores desafios internos dos últimos anos. Protestos se espalham por diversas províncias, resultando em alto número de vítimas. A tensão aumenta, e o governo adota uma postura mais dura contra os manifestantes.

Nesse cenário de instabilidade, as declarações do Líder Supremo moldam a narrativa oficial, buscando deslegitimar as reivindicações populares e atribuir a responsabilidade a forças externas. A comunidade internacional observa com preocupação a escalada da violência e a repressão.

Os detalhes sobre a extensão dos protestos, as mortes e as acusações mútuas entre o governo iraniano e os Estados Unidos foram divulgados por agências de notícias e organizações de direitos humanos, conforme análise conjunta da BBC Verify e da BBC Persa.

A Escalada dos Protestos e a Resposta do Regime

Os protestos no Irã, iniciados em 28 de dezembro na capital Teerã, ganharam força rapidamente. A motivação inicial foi a forte queda do valor da moeda iraniana, o rial, e a inflação galopante, que atingiu 40%. A fragilidade econômica é agravada por sanções e má gestão governamental.

Desde o início, as manifestações se espalharam por pelo menos 17 das 31 províncias iranianas. Isso representa o maior desafio ao regime clerical desde 2022, com relatos de protestos em outras 11 províncias.

Imagens verificadas mostram atos contra o governo em mais de 50 cidades. O Líder Supremo do Irã, Ali Khamenei, em discurso televisionado, classificou os manifestantes como um “bando de vândalos”.

Ele afirmou que eles estariam destruindo prédios públicos “apenas para agradar o presidente dos EUA”, Donald Trump. Esta declaração é uma clara tentativa de desqualificar o movimento e seus participantes.

O Dedo Apontado para Trump e as Acusações de Khamenei

Khamenei não poupou críticas a Donald Trump, acusando o presidente americano de fazer uma “alegação absurda” de apoio aos manifestantes. Ele também afirmou que as mãos de Trump estão “manchadas com o sangue de mais de mil iranianos mortos como mártires durante a guerra de 12 dias [com Israel]”.

O líder iraniano descreveu os manifestantes como “um grupo de pessoas inexperientes e descuidadas” que acreditam em Trump. Segundo ele, esses grupos “ateiam fogo em lixeiras para agradá-lo”, reforçando a narrativa de manipulação externa.

Khamenei reiterou a posição do regime, declarando que a República Islâmica “chegou ao poder através do sangue de centenas de milhares de pessoas honradas e não recuará diante daqueles que negam isso”.

Donald Trump, por sua vez, é um crítico histórico do regime iraniano. Ele ameaçou intervir caso civis fossem mortos durante as manifestações, prometendo “atacar o Irã com muita força” se o governo “começar a matar pessoas”.

O presidente americano afirmou que seu governo está monitorando a situação de perto. Ele advertiu Teerã “com muita veemência” sobre as consequências caso os civis sejam vitimados nos protestos.

O Cenário Econômico e a Repressão Digital

A economia iraniana permanece em um estado frágil, com poucas perspectivas de crescimento para o ano atual ou o próximo. Essa situação alimenta a insatisfação popular, que se manifesta nos protestos no Irã.

A desvalorização do rial e a inflação são reflexos de uma crise profunda que mobiliza comerciantes e a população em geral. As sanções internacionais e a má gestão interna contribuem para esse cenário.

Em uma tentativa de conter a organização dos protestos e o fluxo de informações, o governo iraniano implementou um bloqueio quase total da internet. Essa medida cortou o acesso de milhões de iranianos às suas famílias e ao mundo exterior.

A repressão digital é uma tática comum do regime para controlar a narrativa e impedir a coordenação de grandes mobilizações. No entanto, a persistência dos protestos indica que as medidas não têm sido totalmente eficazes em silenciar a insatisfação generalizada.

O Impacto e a Contagem de Vítimas

As consequências dos protestos no Irã são trágicas, com um número crescente de mortos. A agência de notícias HRANA, sediada nos EUA, reportou que pelo menos 48 manifestantes e 14 membros das forças de segurança foram mortos desde o início das manifestações.

A ONG Iran Human Rights, com sede na Noruega, contabilizou um número ainda maior, registrando pelo menos 51 manifestantes mortos, incluindo nove crianças. As autoridades iranianas, por sua vez, confirmaram a morte de seis membros das forças de segurança.

A verificação de vítimas é um desafio significativo, uma vez que a maioria das organizações de notícias internacionais está proibida de fazer reportagens dentro do Irã. A dependência de redes sociais para obter informações é alta.

Apesar das dificuldades, a BBC Persa, por exemplo, confirmou as mortes e identidades de 22 pessoas até o momento. O bloqueio da internet, contudo, dificulta ainda mais a apuração dos fatos e a comunicação.

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