Gestor do Fundo Verde prevê desvalorização acentuada do dólar com a gestão Trump, indicando R$ 4,40 como valor justo
O renomado gestor Luis Stuhlberger, à frente do prestigiado Fundo Verde, surpreendeu o mercado financeiro ao projetar uma significativa desvalorização do dólar, estimando que o valor justo da moeda americana seria de R$ 4,40. Stuhlberger atribui essa tendência à gestão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, reforçando que o movimento de queda ainda não se encerrou, apesar das recentes baixas observadas no câmbio.
A projeção foi feita durante sua participação na Latin America Investment Conference (LAIC), promovida pelo UBS, realizada nesta terça-feira (27) no Grand Hyatt Hotel, em São Paulo. O chefe de investimentos da Verde Asset Management apresentou uma análise que conecta a política presidencial americana ao comportamento do mercado cambial, desafiando percepções convencionais.
Em sua fala, Stuhlberger pontuou que, historicamente, a ascensão de líderes de direita ao poder nos EUA tem coincidido com o alinhamento do câmbio ao seu “fair value”, ou valor justo. Essa observação serve como base para sua convicção de que Trump, mesmo com políticas consideradas imprevisíveis, continuará impulsionando a desvalorização do dólar no cenário global, conforme informações divulgadas no evento.
A Análise de Stuhlberger: Trump e a Dinâmica da Desvalorização do Dólar Global
Luis Stuhlberger mergulhou na complexidade da relação entre a política de Donald Trump e o comportamento do dólar, afirmando que o presidente norte-americano fará o “inimaginável” para desvalorizar a moeda. Para o gestor, essa estratégia já está em curso e seus efeitos ainda não foram plenamente sentidos, sinalizando um potencial de queda ainda maior para o dólar em escala internacional.
A tese de Stuhlberger baseia-se em uma observação histórica peculiar: “parece absurdo, mas toda vez que alguém de direita ganha a eleição, o câmbio vai para o ‘fair value’ [valor justo]”. Essa afirmação sugere que, independentemente das expectativas iniciais do mercado, a administração de um governo de direita nos EUA tem, em seus ciclos, levado o dólar a um patamar considerado mais equitativo em relação a outras moedas globais.
O conceito de “fair value”, ou valor justo, no mercado cambial, refere-se ao preço de uma moeda que reflete seu poder de compra real e sua competitividade econômica, livre de distorções especulativas ou de curto prazo. A crença de Stuhlberger é que as políticas de Trump, focadas em questões comerciais e econômicas internas, naturalmente conduzirão o dólar a esse patamar mais baixo, de R$ 4,40 no contexto brasileiro.
Por que Trump Desvalorizaria o Dólar?
A desvalorização do dólar pode ser uma ferramenta estratégica para governos que buscam impulsionar suas exportações e tornar seus produtos mais competitivos no mercado internacional. Um dólar mais fraco significa que os produtos americanos ficam mais baratos para compradores estrangeiros, o que pode estimular a indústria local e gerar empregos nos Estados Unidos.
Trump, conhecido por sua retórica protecionista e pelo foco em “America First”, já expressou publicamente seu descontentamento com um dólar forte em diversas ocasiões. Ele argumenta que uma moeda valorizada prejudica a balança comercial dos EUA, tornando as importações mais baratas e as exportações mais caras. Portanto, a projeção de Stuhlberger alinha-se com uma possível estratégia econômica do governo republicano.
O Desempenho do Dólar no Cenário Atual e a Comparação com o Real Brasileiro
A tese de Luis Stuhlberger ganha relevância em um momento de forte movimentação no mercado cambial brasileiro. Nesta terça-feira (27), o dólar encerrou o pregão em expressiva baixa no Brasil, com um recuo de 1,38%, sendo negociado a R$ 5,2074 na venda. Esse patamar representa o menor fechamento da moeda americana desde 28 de maio de 2024, quando atingiu R$ 5,1539.
A queda do dólar no Brasil reflete, em parte, um movimento global de desvalorização da moeda americana em relação a outras divisas. No entanto, Stuhlberger fez uma ressalva importante: apesar de o real ter se apreciado, essa valorização foi consideravelmente menor quando comparada à performance de outras moedas emergentes e desenvolvidas frente ao dólar.
Esse cenário sugere que, embora o Brasil esteja acompanhando a tendência global de enfraquecimento do dólar, o real ainda tem um potencial de valorização que não foi plenamente explorado. A visão de Stuhlberger implica que o patamar atual de R$ 5,2074 ainda está distante do que ele considera o valor justo, de R$ 4,40, indicando que o real ainda pode ganhar força significativa.
Ibovespa em Alta: Um Contexto Favorável
A movimentação do dólar ocorreu em um dia de euforia para o mercado de ações brasileiro, com o Ibovespa registrando um recorde ao fechar acima dos 181 mil pontos. A alta da bolsa, muitas vezes impulsionada por um maior otimismo dos investidores estrangeiros e locais, pode contribuir para a entrada de capital no país, o que historicamente tende a fortalecer o real e, consequentemente, pressionar o dólar para baixo.
Essa confluência de fatores – dólar globalmente mais fraco e mercado de ações doméstico aquecido – cria um ambiente propício para a realização da projeção de Stuhlberger. A entrada de investimentos estrangeiros em busca de oportunidades em um mercado em crescimento e com juros atrativos pode acelerar o caminho do dólar em direção ao seu valor justo, conforme a visão do gestor.
O Dólar “Fora do Lugar”: A Visão de Stuhlberger sobre o Câmbio Brasileiro
Luis Stuhlberger não hesitou em expressar sua convicção de que o câmbio no Brasil está “extremamente fora do lugar”. Essa declaração ressalta a percepção de que a cotação atual do dólar não reflete os fundamentos econômicos do país ou seu valor intrínseco, estando mais suscetível a fatores externos e fluxos de curto prazo.
Para o gestor, a análise do câmbio é, inclusive, mais direta do que a da bolsa de valores, que é “muito dependente de fluxos, pelo menos no curto prazo”. Essa afirmação sugere que, embora o mercado de ações seja influenciado por uma miríade de variáveis e humores dos investidores, o câmbio, em sua essência, tem um “valor justo” mais discernível e menos volátil a manipulações ou euforias momentâneas.
Quando uma moeda é considerada “fora do lugar”, isso implica que ela está supervalorizada ou subvalorizada em relação ao que deveria ser. No caso do dólar em relação ao real, a projeção de R$ 4,40 como valor justo indica que, a R$ 5,2074, a moeda americana estaria supervalorizada, e o real, subvalorizado. Essa disparidade pode ter diversas implicações para a economia brasileira.
Implicações de um Câmbio “Fora do Lugar”
Um câmbio que não reflete o valor justo pode gerar distorções econômicas. Se o real está subvalorizado, isso pode tornar as exportações brasileiras mais competitivas, mas, por outro lado, encarece as importações, contribuindo para a inflação de produtos importados e insumos. Além disso, pode desestimular investimentos estrangeiros diretos que buscam valorização de capital no longo prazo.
A correção para o valor justo, conforme Stuhlberger prevê, traria um cenário de real mais forte e dólar mais fraco. Isso poderia aliviar a pressão inflacionária, baratear viagens internacionais e importações, mas exigiria que as empresas exportadoras se adaptassem a um ambiente de menor competitividade de preços. A normalização do câmbio é vista como um fator de estabilidade e previsibilidade para o planejamento econômico.
A Perspectiva dos Juros: Brasil e a Projeção de Stuhlberger
Além de suas projeções para o dólar, Luis Stuhlberger também abordou o tema dos juros no Brasil, apresentando uma visão cética sobre a possibilidade de o país pagar um juro real próximo de 8% nos próximos anos. Para o gestor, a chance de tal cenário se concretizar é “nenhuma”, indicando que as condições econômicas atuais e futuras não permitirão a manutenção de taxas tão elevadas.
O juro real é a taxa de juros descontada a inflação, ou seja, o ganho efetivo do investidor. Um juro real de 8% seria extremamente elevado e atrativo, mas Stuhlberger sugere que esse patamar é insustentável. Ele apresenta duas alternativas para essa impossibilidade: “Ou vai ter mais inflação, o juro real diminui, ou o governo toma alguma atitude”.
Essa análise de Stuhlberger aponta para a necessidade de um ajuste na política econômica brasileira. Se a inflação subir, o poder de compra do juro nominal diminui, reduzindo o juro real. Alternativamente, se o governo intervir com medidas econômicas que busquem controlar a inflação ou reformar as finanças públicas, isso também poderia impactar o patamar dos juros.
Próximas Reuniões de Política Monetária
A discussão sobre juros é particularmente relevante com as próximas reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom) no Brasil e do Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC) nos EUA, ambas agendadas para esta quarta-feira (28). A expectativa geral é de manutenção das taxas de juros em ambos os países, refletindo uma postura cautelosa dos bancos centrais diante das incertezas econômicas.
A manutenção dos juros pelo Copom no Brasil, caso se confirme, manteria a taxa Selic em seu patamar atual. No entanto, a projeção de Stuhlberger de que o juro real de 8% é insustentável implica que, no futuro, ou a inflação corroerá esse ganho ou o Banco Central será forçado a reagir com outras medidas, ou o governo terá que endereçar os desafios fiscais que sustentam a necessidade de juros altos.
Política Monetária Global: Fed, Trump e as Taxas de Juros nos EUA
A dinâmica dos juros nos Estados Unidos é um fator crucial que influencia diretamente o comportamento do dólar globalmente e, consequentemente, o câmbio brasileiro. Arend Kapteyn, economista-chefe do UBS Global, destacou que as oscilações internas na gestão do Federal Reserve (Fed) têm um potencial considerável para influenciar as decisões sobre as novas taxas de juros neste ano.
Em uma conversa fechada com jornalistas, Kapteyn mencionou figuras importantes do Fed, como o diretor Christopher Waller e a vice-chair de supervisão, Michelle Bowman, observando que suas posições não parecem diferir significativamente das indicações que não são diretamente de Trump. Isso sugere uma certa independência ou alinhamento técnico dentro do banco central americano, mesmo sob pressão política.
Donald Trump é um crítico notório da gestão de Jerome Powell, presidente do Fed, e tem pressionado publicamente por cortes nas taxas de juros. Essa pressão é frequentemente manifestada por meio de redes sociais e ameaças de processos judiciais, evidenciando a tensão entre a Casa Branca e o banco central. A visão de Trump é que juros mais baixos impulsionariam a economia americana, facilitando o crédito e o investimento.
A Independência do Fed e a Influência Presidencial
Apesar da forte pressão de Trump, Arend Kapteyn ponderou que as indicações do republicano não necessariamente resultarão em mudanças instantâneas nas políticas do Banco Central americano. “Isso não é instantâneo”, afirmou o economista, ressaltando a autonomia institucional do Fed e o tempo necessário para que qualquer mudança de liderança ou pressão política se traduza em decisões de política monetária.
A independência do Fed é um pilar da estabilidade econômica dos EUA, projetada para proteger as decisões sobre juros e inflação de influências políticas de curto prazo. Embora um presidente possa indicar membros para o conselho do Fed, esses membros geralmente operam com base em análises econômicas e mandatos de estabilidade de preços e pleno emprego, e não diretamente em agendas políticas.
Impactos e Cenários Futuros para o Investidor e a Economia Brasileira
A projeção de Luis Stuhlberger de um dólar a R$ 4,40, impulsionada pela política de desvalorização de Trump, sinaliza um cenário de transformações significativas para investidores e para a economia brasileira. A mudança de um patamar de R$ 5,20 para R$ 4,40 representa uma valorização substancial do real, com implicações em diversas frentes.
Para o investidor, um dólar mais barato pode significar que investimentos em ativos dolarizados se tornam menos rentáveis em termos de real, enquanto investimentos em renda fixa ou ações brasileiras podem ganhar atratividade. A entrada de capital estrangeiro, atraído por um real mais forte e juros domésticos ainda elevados (mesmo que o juro real de 8% seja descartado por Stuhlberger), tende a intensificar esse movimento.
No âmbito da economia brasileira, a valorização do real pode ter efeitos mistos. Por um lado, aliviaria a pressão inflacionária, tornando as importações de bens e insumos mais baratas, o que é benéfico para o poder de compra dos consumidores e para indústrias que dependem de matéria-prima importada. A gasolina, por exemplo, que tem seu preço atrelado ao dólar, tenderia a ficar mais barata.
Quem é Impactado e o Que Muda na Prática
Os exportadores seriam um dos setores mais impactados negativamente, pois seus produtos se tornariam mais caros para compradores estrangeiros, reduzindo sua competitividade. Por outro lado, os importadores e as empresas que dependem de tecnologia ou bens de capital do exterior seriam beneficiados por custos mais baixos.
Para o turista brasileiro, viajar para o exterior se tornaria mais acessível, enquanto o turismo receptivo no Brasil poderia se tornar menos atrativo para estrangeiros, devido ao custo mais elevado em dólar. No cenário macroeconômico, um real mais forte também pode influenciar a dívida pública, que possui uma parcela atrelada ao dólar, e as reservas internacionais do país.
A Volatilidade do Mercado: O Dólar como Reflexo de Expectativas Políticas e Econômicas
A análise de Luis Stuhlberger reforça a ideia de que o mercado cambial é um reflexo dinâmico de uma complexa interação entre fatores econômicos, políticos e expectativas. A projeção de queda do dólar para R$ 4,40, impulsionada pela gestão de Donald Trump, sublinha como a política interna de uma superpotência pode reverberar globalmente, afetando diretamente moedas como o real.
A volatilidade cambial é uma constante, e as previsões, mesmo as de gestores experientes como Stuhlberger, estão sujeitas a inúmeras variáveis. No entanto, a coerência de sua tese com a busca de Trump por um dólar mais fraco para impulsionar a economia americana confere peso à sua projeção. A declaração do próprio Trump, que ao ser questionado sobre a queda do dólar, afirmou que o valor “está ótimo”, corrobora a intenção política por trás desse movimento.
O cenário futuro do dólar, portanto, continuará sendo um dos principais termômetros da saúde econômica global e da eficácia das políticas monetárias e fiscais. A capacidade do real de se aproximar do seu “fair value” de R$ 4,40 dependerá não apenas dos movimentos de Trump, mas também da resiliência da economia brasileira e da condução de sua própria política econômica.
O Que Pode Acontecer a Partir de Agora
A partir de agora, investidores e analistas estarão atentos não apenas às decisões dos bancos centrais (Copom e FOMC), mas também aos desdobramentos da política americana e às declarações de seus líderes. A materialização da projeção de Stuhlberger representaria um ajuste significativo no mercado, com vencedores e perdedores claros em diferentes setores da economia.
A busca pelo valor justo do câmbio é um processo contínuo, influenciado por fluxos de capital, diferenciais de juros, balança comercial e, como Stuhlberger bem destacou, pela própria dinâmica política. A expectativa é que o debate sobre o patamar ideal do dólar continue intenso, moldando estratégias de investimento e políticas empresariais no Brasil e no mundo.