Diplomacia Brasileira em xeque: Lula navega entre convite de Trump e alinhamento com Xi Jinping na governança global
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) encontra-se em um intrincado dilema diplomático ao articular a recusa ao convite feito pelo ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para integrar um Conselho de Paz de Gaza. A iniciativa de Trump, que propõe um novo fórum para resolução de conflitos, é vista por muitos como uma tentativa de enfraquecer a Organização das Nações Unidas (ONU), um pilar da política externa brasileira.
Nesse cenário, Lula tem fortalecido seus laços com o líder chinês Xi Jinping, que defende abertamente a preservação e o papel central das instituições internacionais existentes, como a ONU. A movimentação reflete uma estratégia de alinhamento com o bloco de países que se opõem a iniciativas unilaterais, buscando uma posição coordenada no tabuleiro geopolítico global.
A complexidade da situação reside na necessidade de declinar o convite de Trump sem gerar atrito desnecessário com Washington, enquanto se aprofunda a cooperação com Pequim. O Brasil, assim, busca equilibrar seus interesses e tradições diplomáticas em um contexto de crescente polarização internacional, conforme informações da fonte consultada.
O Dilema do Conselho da Paz de Trump e a Rejeição Internacional
A proposta de Donald Trump para a criação de um Conselho da Paz, não apenas para mediar a situação em Gaza, mas também para atuar em outros conflitos internacionais, tem gerado ampla controvérsia. A iniciativa tem sido duramente criticada por sugerir que o novo conselho poderia até mesmo substituir as Nações Unidas, o que representa um desafio direto à ordem multilateral estabelecida.
Grandes potências como a China e a Rússia, embora oficialmente declarem estudar a proposta, possuem um interesse estratégico em que a ONU não seja substituída por um organismo liderado pelos Estados Unidos. O motivo é claro: ambos os países detêm poder de veto no Conselho de Segurança da ONU, uma prerrogativa que lhes confere influência decisiva nas resoluções globais. Perder essa capacidade em um novo fórum seria um revés significativo para seus interesses geopolíticos.
A França, outro membro permanente com poder de veto no Conselho de Segurança, já se posicionou de forma categórica, declarando que não participará do Conselho da Paz. Essa negativa, no entanto, veio acompanhada de consequências. Os Estados Unidos já teriam ameaçado a nação europeia com novas tarifas comerciais, evidenciando a pressão exercida por Washington sobre os países que demonstram resistência à proposta.
A maioria dos países convidados por Trump tem agido com cautela, evitando uma negativa explícita para não sofrer retaliações, como a França ou, ainda, o Canadá, que teve seu convite retirado após o primeiro-ministro Mark Carney expressar ressalvas. Essa postura de prudência destaca o delicado equilíbrio que as nações precisam manter para navegar nas tensões entre as grandes potências.
O Alinhamento Estratégico entre Brasil e China: Defesa da ONU
Fugindo à postura de cautela de muitos, o presidente chinês Xi Jinping instigou o presidente Lula, em um telefonema no último dia 23, a se opor abertamente ao Conselho de Paz proposto por Trump. Jinping prometeu ao Brasil maior apoio e solicitou que os dois países atuassem de forma coordenada para preservar o papel central da Organização das Nações Unidas (ONU), uma instituição que considera fundamental para a estabilidade global.
Segundo comunicados divulgados pela mídia estatal chinesa, Xi Jinping enfatizou que Brasil e China devem se manter “do lado certo da história” e operar como forças construtivas para a estabilidade e a governança globais. Ele destacou a importância de defender os interesses do Sul Global, um jargão que designa os países em desenvolvimento, reforçando a narrativa de um bloco emergente em contraponto às potências tradicionais.
Essa não seria a primeira vez que Lula atua como porta-voz das ideias de Jinping. Desde 2023, o presidente brasileiro tem publicamente ecoado o ponto de vista chinês de que o dólar deveria ser desbancado de sua posição como moeda de comércio global. Essa defesa ocorre mesmo em momentos em que a própria China opta por uma abordagem menos confrontadora com os Estados Unidos, demonstrando a sintonia e a confiança entre os dois líderes.
Para o professor Rafael Pons Reis, doutor em Sociologia Política e docente de Relações Internacionais do Centro Universitário Internacional Uninter, a defesa explícita da centralidade da ONU por Xi Jinping converge diretamente com a tradição diplomática brasileira. “Para países como o Brasil, o multilateralismo não é apenas um valor normativo, mas um instrumento de proteção contra soluções unilaterais impostas pelas grandes potências”, explica o especialista.
A Cautela Brasileira e as Articulações Diplomáticas de Lula
Apesar do alinhamento com a China, Lula tem agido com notável cautela e moderado suas críticas em relação ao Conselho da Paz de Trump. Em uma conversa telefônica com o ex-presidente americano nesta segunda-feira (26), Lula propôs que o órgão se limitasse à questão de Gaza e previsse um assento para a Palestina. Nesse contexto, o presidente brasileiro reiterou a importância de uma reforma abrangente da Organização das Nações Unidas, incluindo a ampliação dos membros permanentes do Conselho de Segurança.
O Palácio do Planalto informou que Lula e Trump devem se encontrar durante uma visita a Washington, prevista para fevereiro. A expectativa é que, até lá, o presidente brasileiro continue suas articulações diplomáticas para tentar declinar do convite sem criar um impasse diplomático direto e prejudicial com os Estados Unidos, mantendo um canal de diálogo aberto.
A postura de Lula ganhou contornos mais claros após críticas públicas à iniciativa americana. “Ao invés de a gente corrigir a ONU, que a gente reivindica desde que eu fui presidente em 2003, o que está acontecendo? O presidente Trump está fazendo uma proposta de criar uma nova ONU e que ele sozinho é o dono”, disse Lula, expressando sua preocupação com a unilateralidade da proposta.
Em outro movimento estratégico, Lula conversou com o presidente francês Emmanuel Macron nesta terça-feira (27). Ambos criticaram o Conselho da Paz proposto por Trump e defenderam o fortalecimento da Organização das Nações Unidas, o respeito aos mandatos do Conselho de Segurança e à Carta da ONU. A conversa, que durou cerca de uma hora, incluiu avaliações sobre a agenda internacional e os riscos de iniciativas unilaterais em temas de paz e segurança global.
A Posição da França e a Convergência com a Diplomacia Brasileira
A convergência de visões entre Brasil e França, especialmente na crítica ao Conselho da Paz de Trump e na defesa do multilateralismo da ONU, reforça a posição brasileira. A França, como membro permanente do Conselho de Segurança da ONU com poder de veto, já havia declarado sua recusa em participar da iniciativa americana, mesmo sob ameaças de retaliação comercial por parte dos Estados Unidos.
Durante a ligação entre Lula e Macron, os dois líderes também condenaram a ação militar dos Estados Unidos que resultou na prisão do ditador venezuelano Nicolás Maduro, classificando o uso da força como uma violação do direito internacional. Este ponto adicional de concordância sublinha a preocupação compartilhada com a soberania e o respeito às normas internacionais.
Apesar da resistência francesa ao acordo entre o Mercosul e a União Europeia, Lula reiterou os benefícios do pacto e destacou o interesse em ampliar a cooperação bilateral entre Brasil e França em áreas estratégicas como defesa, ciência, tecnologia e energia. A meta é concluir novos acordos ainda no primeiro semestre de 2026, demonstrando que a relação bilateral transcende as divergências comerciais e se fortalece em frentes diplomáticas e estratégicas.
A Tradição Multilateralista do Brasil e a Visão do Sul Global
A diplomacia brasileira tem uma longa e consolidada tradição de defesa do multilateralismo e de apoio à ONU. Essa abordagem é vista como um instrumento essencial para países como o Brasil, que, na condição de potências médias, buscam se proteger contra soluções unilaterais impostas por grandes potências e ampliar sua capacidade de negociação no cenário global.
No entanto, a atuação do Brasil nem sempre é unânime. O presidente Lula, por exemplo, nunca criticou enfaticamente o presidente russo Vladimir Putin pela invasão militar em larga escala da Ucrânia em 2022. Em vez de trabalhar pela resolução de controvérsias na ONU, Putin optou pela ação militar. Lula chegou a sugerir que a Ucrânia também era culpada pela invasão, uma posição que diverge da visão predominante da comunidade internacional e da própria Carta da ONU.
Segundo o internacionalista Rafael Moredo, coordenador de políticas públicas do Livres, a articulação chinesa em defesa da ONU combina princípios e interesses. “Ao defender a ONU, Pequim envia um recado geopolítico, mas também fortalece coalizões em um momento de tensão com Washington. O Brasil é um interlocutor-chave nessa equação”, avalia Moredo, destacando a importância estratégica do Brasil para a China.
A defesa dos interesses do Sul Global, um ponto frequentemente levantado por Xi Jinping e abraçado por Lula, posiciona o Brasil como um ator relevante na construção de uma ordem mundial mais multipolar. Essa visão busca dar voz e poder de decisão a países em desenvolvimento, desafiando a hegemonia de potências tradicionais e promovendo uma governança global mais equitativa.
O Papel dos BRICS e a Busca por uma Reforma da ONU
Lula tem intensificado suas conversas com líderes internacionais, incluindo membros dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, Egito, Etiópia, Indonésia, Irã e Emirados Árabes Unidos), antes de qualquer posicionamento definitivo sobre o Conselho da Paz. Essa estratégia visa ampliar o lastro diplomático do Brasil e buscar uma posição conjunta entre os países do Sul Global.
Em uma quinta-feira (22), Lula dedicou grande parte de sua agenda a telefonemas com lideranças, incluindo o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, atual presidente do BRICS. Cabe à Índia convocar uma eventual reunião extraordinária do bloco caso os países decidam articular uma posição conjunta diante da iniciativa americana. Lula e Modi trataram da situação em Gaza e reafirmaram a necessidade de uma reforma abrangente da ONU e de seu Conselho de Segurança.
A reforma do Conselho de Segurança não é uma pauta exclusiva dos BRICS, mas também de nações pequenas e médias do Ocidente. Um dos mais vocais é o presidente Alexander Stubb, da Finlândia, que defende a ampliação do número de membros permanentes do Conselho de Segurança e a abolição do poder de veto das potências. Lula, por sua vez, advoga pela entrada do Brasil no órgão como representante da América do Sul, buscando maior representatividade para a região.
O presidente brasileiro também conversou com o presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, sobre as perspectivas de reconstrução da Faixa de Gaza e o compromisso histórico do Brasil com uma solução negociada para o conflito no Oriente Médio. Um dia antes, o tema já havia sido discutido com o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, reforçando a busca por um consenso e soluções multilaterais.
Os Riscos e Desafios da Política Externa Brasileira
Nos bastidores do Palácio do Planalto, a avaliação é de que a decisão sobre o Conselho de Paz proposto por Donald Trump vai além de um gesto pontual e expõe um dilema estrutural da política externa brasileira. Aceitar o convite poderia gerar desgaste político interno e comprometer o discurso histórico de defesa do multilateralismo, que é um pilar da diplomacia do país.
Recusar o convite, por outro lado, envolve riscos diplomáticos e pode aprofundar tensões com Washington em um cenário internacional já marcado pela rivalidade entre grandes potências. O professor Rafael Pons Reis destaca que essa dificuldade é típica de potências médias em um sistema internacional cada vez mais fragmentado. “O Brasil depende do multilateralismo porque ele amplia a capacidade de negociação e protege contra decisões unilaterais das grandes potências. Ao mesmo tempo, quando esse sistema é pressionado ou contornado, como no caso do Conselho de Paz, o país fica diante de escolhas que sempre carregam custos”, afirma.
Segundo o especialista, a iniciativa americana cria uma verdadeira armadilha diplomática. “Recusar o conselho pode ser interpretado como desalinhamento em relação aos Estados Unidos; aceitá-lo significaria endossar uma espécie de ‘ONU paralela’, em contradição com a tradição diplomática brasileira. É um dilema real, não apenas retórico”, explica Pons Reis, sublinhando a complexidade da situação.
Para o internacionalista Rafael Moredo, o principal risco não reside apenas na decisão final, mas na narrativa construída em torno dela. “O custo maior surge se a recusa for percebida como oposição ideológica aos EUA. Por isso, o governo tenta enquadrar a decisão como defesa de legitimidade, regras claras e compatibilidade com a ONU”, avalia, indicando a estratégia de comunicação do governo brasileiro.
O Futuro da Governança Global e a Busca por Equilíbrio
O desafio da política externa brasileira, conforme ressalta Rafael Moredo, é preservar um espaço de manobra entre Washington e Pequim. “A China pesa muito no cálculo econômico e geopolítico, mas os Estados Unidos continuam centrais em áreas estratégicas. O desafio da política externa brasileira hoje é evitar o alinhamento automático a qualquer um dos polos e não ser capturado pela rivalidade sino-americana”, afirma o especialista.
Essa busca por equilíbrio reflete a ambição do Brasil de ser um ator global autônomo, capaz de defender seus próprios interesses e promover uma visão de mundo multipolar, onde o multilateralismo e o direito internacional são respeitados. A maneira como Lula gerenciará a recusa ao Conselho de Paz de Trump, enquanto aprofunda os laços com a China, será um teste crucial para a diplomacia brasileira e para sua capacidade de influenciar a governança global.
A decisão final do Brasil não impactará apenas suas relações bilaterais com Estados Unidos e China, mas também a percepção de seu papel no Sul Global e sua credibilidade como defensor das instituições multilaterais. Em um mundo cada vez mais complexo e interconectado, a habilidade de navegar essas tensões definirá a posição do Brasil no cenário internacional nos próximos anos.