O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) iniciou o último ano de seu terceiro mandato com um claro foco na campanha antecipada pela reeleição de 2026. Este cenário é marcado por significativos desafios, especialmente na área fiscal e na complexa relação com o Congresso Nacional.
Apesar das adversidades, o presidente tem utilizado a máquina de governo como seu principal instrumento de mobilização eleitoral. Decisões estratégicas, ajustes de compromissos e prioridades são alinhados ao objetivo de manter o protagonismo político e ampliar o apoio popular.
Essa abordagem combina ações governamentais com a busca por aprovação, visando sustentar a futura candidatura. A estratégia tem gerado debates e alertas, conforme informações divulgadas pela Gazeta do Povo.
Estratégia Governista para a Reeleição: O Plano de Ação de 2025
A antecipação do calendário eleitoral, embora não explícita como campanha, já se desenhava no governo desde meados de 2025. Segundo Marcus Deois, diretor da consultoria política Ética, o plano é cuidadosamente coordenado por meio de decisões administrativas, orçamentárias e políticas.
Todas essas ações são articuladas e voltadas para a reeleição de Lula. Deois destaca o Orçamento da União como o vetor mais visível dessa movimentação, indicando um elevado custo político para manter a base congressual funcional.
O especialista explica que o pagamento recorde de R$ 31,5 bilhões em emendas parlamentares em 2025, com projeção de alcançar R$ 40 bilhões neste ano, explicita essa dependência. No campo social, o governo intensificará programas de alto apelo popular.
Isso inclui o fortalecimento do Bolsa Família, o lançamento do Programa Acredito, a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil e o Gás do Povo. Na economia, a estratégia combina sinalização política com contenção técnica.
De acordo com Deois, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), deve se afastar do cargo para ampliar a visibilidade dos programas governamentais. O secretário-executivo, Dario Durigan, assumiria a condução da pasta.
Durigan, mais alinhado com o mercado, estaria em posição de explorar de forma eficaz eventual queda da taxa básica de juros (Selic) ao longo do ano. Essa movimentação visa otimizar a percepção econômica antes da reeleição.
Redução de Viagens Internacionais e Foco Doméstico na Agenda de Lula
Em um ano eleitoral crucial, o presidente Lula planeja reduzir sua agenda internacional para se concentrar na articulação da campanha. Apenas três viagens ao exterior estão confirmadas para os próximos meses, Índia e Coreia do Sul em fevereiro, e Alemanha em abril.
Outras possíveis visitas, como aos Estados Unidos e ao Panamá, além da participação em fóruns multilaterais, seguem sob avaliação. Essa priorização demonstra o foco na campanha de reeleição e na presença nacional.
Paralelamente, o Palácio do Planalto estruturou um roteiro intenso de viagens domésticas e inaugurações entre janeiro e julho. Este é o período permitido pela Justiça eleitoral para tais atividades.
O foco recai nas regiões Sudeste e Nordeste, visando maximizar a exposição de obras, investimentos e políticas públicas nos maiores colégios eleitorais. O objetivo é também apoiar aliados antes das restrições legais da campanha.
Em dezembro de 2025, o PT lançou um manifesto de “ofensiva democrática”, marcando o início formal da estratégia da legenda. O documento busca mobilizar sua base e estruturar a campanha pela reeleição de Lula.
A frente política visa consolidar-se contra o que o partido classificou como “extrema-direita” e “obscurantismo”, prevendo alinhamento programático e atos ao longo de 2026.
Desafios Orçamentários e a Busca por Margem de Gastos Eleitoreiros
Com o Orçamento de 2026 sancionado, no valor de R$ 6,5 trilhões, o presidente Lula enfrenta uma margem estreita para ampliar gastos eleitoreiros. Excluído o refinanciamento da dívida, o valor cai para R$ 4,7 trilhões.
Desse montante, a parte livre, ou discricionária, está ainda mais comprimida pela expansão automática de despesas obrigatórias, como previdenciárias e assistenciais. Esse estrangulamento limita o uso eleitoral do orçamento.
A estratégia governamental se inclina para a exploração de entregas já contratadas, a reembalagem de políticas existentes e uma intensa agenda de inaugurações. O cenário é agravado por cortes em áreas vitais.
Universidades, por exemplo, perderam R$ 488 milhões, e o peso crescente das emendas parlamentares reduz o controle do Executivo no direcionamento dos recursos. Isso impacta diretamente a capacidade de manobra fiscal.
Nesse contexto de orçamento engessado e dependência do Congresso, um relatório da Instituição Fiscal Independente (IFI), ligada ao Senado, divulgado no fim de 2025, aponta preocupações. O arcabouço fiscal, mesmo cumprido formalmente, perdeu credibilidade.
A IFI avalia que a multiplicação de exceções às regras fiscais, decorrente da rigidez orçamentária e do avanço das despesas obrigatórias, elevou incertezas sobre a sustentabilidade do regime. De 2023 a 2025, mais de R$ 170 bilhões em despesas foram excluídos dos limites.
Isso inclui a cobertura de desvios do INSS e do rombo dos Correios. As contas do governo em 2025 registraram um déficit de R$ 83,8 bilhões até novembro, segundo o Tesouro Nacional, com um rombo de R$ 20,2 bilhões apenas naquele mês.
Apesar do resultado negativo, o pior para o período desde 2023, o governo assegura que ainda pode cumprir a meta fiscal, dependendo da receita de dezembro, cujo balanço ainda será fechado.
Impacto da Inflação: Benefícios Governamentais Podem Ser Anulados para o Eleitor
Para o cientista político Ismael Almeida, a máquina governamental pode fazer a diferença na campanha de Lula, mesmo que à custa da piora fiscal. Contudo, ele pondera que o humor do eleitor tende a ser mais afetado pela economia real.
Almeida afirma que “o governo não deve colher boas notícias econômicas, o que, na prática, anula efeitos das benesses pagas pelo gasto público”. O Palácio do Planalto empenhou-se para que programas com viés eleitoreiro, como transferências de renda a estudantes, estivessem em funcionamento.
No entanto, esses estímulos competem com fatores adversos, sobretudo a inflação, que aflige principalmente os mais pobres. Ele cita como exemplo a recente alta do preço do botijão de gás, puxada pela atualização do ICMS.
O aumento acabou sendo repassado ao consumidor final. Almeida questiona: “De que adianta o benefício se o custo de vida sobe acima do valor recebido? A conta não fecha e isso pode produzir exatamente o efeito inverso ao esperado pelo governo do ponto de vista eleitoral.”