A visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Alagoas, nesta sexta-feira (23), vai muito além da agenda oficial. Em meio à inauguração da sede da Embrapa Alimentos e Territórios, em Maceió, e à celebração de um contrato de 2 milhões de moradias do programa Minha Casa, Minha Vida, a capital alagoana se torna palco de um intrincado xadrez político.

O evento presidencial reúne grupos políticos que, embora aliados ao governo federal, são históricos rivais no estado. Essa reunião forçada expõe as tensões e indefinições que permeiam a disputa eleitoral para o governo e o Senado em Alagoas.

A pauta oficial serve de pano de fundo para as articulações nos bastidores, onde as alianças são fluidas e os acordos, nem sempre transparentes, ditam o ritmo da corrida. As informações são baseadas em relatos de fontes próximas aos envolvidos.

O Palanque da Discórdia em Alagoas

O programa habitacional, em particular, promete colocar lado a lado adversários notórios, como o senador Renan Calheiros (MDB) e o ex-presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL). Ambos almejam uma cadeira no Senado com o aval de Lula, mas sem compartilhar o mesmo palanque nas eleições locais.

Também marcam presença figuras-chave na política alagoana, como o ministro dos Transportes, Renan Filho, que deve deixar o cargo para concorrer novamente ao governo estadual. O prefeito de Maceió, João Henrique Caldas (PL), conhecido como JHC, é outro nome cotado para entrar na corrida pelo Palácio República dos Palmares.

O Dilema de JHC: Governador ou Senador?

A possível candidatura de JHC ao governo é uma grande incógnita e um ponto de tensão central. Ela representaria o rompimento de um acordo político supostamente costurado no ano passado, quando JHC se aproximou de Lula.

Essa aproximação teria ocorrido durante as negociações para a indicação de sua tia, Marluce Caldas, ao Superior Tribunal de Justiça (STJ). Apesar de as partes negarem publicamente, aliados de Lula e dos Calheiros afirmam que havia um compromisso de JHC em não disputar o governo estadual.

Tal compromisso, segundo esses interlocutores, reforçaria o favoritismo de Renan Filho na disputa pelo governo. Além disso, estaria prevista a saída de JHC do Partido Liberal (PL), legenda do ex-presidente Jair Bolsonaro, o que ainda não se concretizou.

Cenários e Pesquisas: A Dança das Cadeiras

As pesquisas eleitorais mais recentes mostram Renan Filho e JHC empatados na corrida pelo governo. A aliança de JHC com Lira no plano local também enfrenta incertezas, especialmente com a possibilidade de JHC disputar o Senado.

Essa movimentação poderia prejudicar a candidatura de Arthur Lira, que atualmente aparece em segundo lugar nas sondagens para o Senado, atrás de Renan Calheiros. O cenário, portanto, é de grande instabilidade e muitas especulações.

Uma hipótese que ganha força nos bastidores é a de que JHC lance sua esposa, Marina Candia, para o Senado. Em pesquisa do Paraná Pesquisas divulgada em dezembro, Marina Candia aparece com 39% das intenções de voto. Já Renan Calheiros tem 49% e Arthur Lira 45%, lembrando que cada eleitor poderá votar em dois candidatos ao Senado este ano.

Pressões e Bastidores da Política Alagoana

Aliados relatam que JHC vem sofrendo forte pressão para cumprir sua parte no suposto acordo político. Em dezembro, sua mãe, a senadora Doutora Eudócia (PL-AL), votou a favor do projeto de lei da dosimetria, que reduz penas de condenados pela trama golpista, incluindo o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Para o grupo político dos Calheiros, o cenário mais favorável seria uma candidatura de JHC ao Senado, o que enfraqueceria a disputa de Lira. Recentemente, JHC e Renan Calheiros tiveram uma reunião reservada em Barra de São Miguel, um tradicional balneário alagoano.

Nessa reunião, ocorrida na casa de um amigo comum, o senador reiterou as cobranças já feitas ao prefeito pelo ex-ministro José Dirceu, no sentido de que cumpra o acordo e não dispute o governo. Dirceu esteve em Alagoas na semana passada e também conversou com JHC, que, segundo fontes, ainda não definiu seu futuro político.

Reservadamente, uma pessoa a par do assunto afirma que Arthur Lira chegou a manifestar à ministra da Secretaria de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, no fim de 2023, seu incômodo com uma eventual candidatura de JHC ao Senado. Publicamente, no entanto, o ex-presidente da Câmara nega ter feito qualquer pedido ao prefeito, que ele considera integrante de seu grupo político.

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