O cenário político internacional vive um momento de grande tensão, e o Brasil, sob a liderança de Luiz Inácio Lula da Silva, está no centro de uma delicada decisão. O convite do ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para que o país integre seu recém-lançado Conselho da Paz de Gaza, coloca o governo brasileiro diante de múltiplos desafios.
A proposta de Trump, apresentada durante o Fórum Econômico de Davos, na Suíça, visa a um grupo de países com o objetivo inicial de reconstruir e desmilitarizar a Faixa de Gaza. Contudo, a iniciativa, que já conta com a adesão de nações como Argentina e Arábia Saudita, gerou desconfiança e questionamentos sobre seus reais propósitos.
Para o presidente Lula, o convite representa um complexo cálculo diplomático, que envolve a defesa do multilateralismo, o temor de retaliações econômicas e a manutenção da influência regional do Brasil, conforme informações divulgadas pela BBC News Brasil.
Um Conselho com Propósitos Obscuros?
Lançado em 22 de janeiro, o Conselho da Paz de Trump foi inicialmente apresentado como uma ferramenta para a reconstrução de Gaza, após anos de conflitos entre Hamas e Israel. Sua criação estaria alinhada a uma resolução do Conselho de Segurança da ONU de novembro de 2025, prevendo uma administração transitória da Faixa de Gaza.
No entanto, a falta de clareza sobre o funcionamento e a abrangência do conselho tem sido um dos principais pontos de preocupação. Diplomatas e analistas questionam se a iniciativa se limitaria à questão palestina ou se seria uma tentativa de minar a autoridade da Organização das Nações Unidas (ONU), frequentemente criticada por Trump.
A carta fundadora do grupo, por exemplo, não menciona especificamente Gaza, e a estrutura do conselho prevê que Trump seja o presidente, com um conselho executivo majoritariamente composto por membros do governo norte-americano, como Marco Rubio e Jared Kushner. Essa configuração levanta dúvidas sobre o caráter personalista da proposta.
Multilateralismo vs. Unilateralismo: O Embate de Visões
O presidente Lula não tardou a expressar suas críticas à proposta de Trump. Em 23 de janeiro, ele afirmou que Trump quer “ser dono da ONU”, lamentando o enfraquecimento do multilateralismo e a prevalência da “lei do mais forte”. Para Lula, a “carta da ONU está sendo rasgada” em um momento crítico da política mundial.
O Brasil tem uma longa história de defesa da reforma das estruturas de governança global, incluindo a ONU, buscando, por exemplo, um assento permanente no Conselho de Segurança. A adesão a um grupo que parece diluir a relevância da ONU colidiria diretamente com essa postura histórica.
Guilherme Casarões, professor de Relações Internacionais da Universidade Internacional da Flórida, explica que o dilema central para o Brasil é avaliar o quanto o Conselho da Paz de Trump enfraquece a ONU. “Algo que foi pensado como uma resposta a um conflito específico acabou virando um grande guarda-chuva para a resolução de conflitos internacionais, em contradição direta com as funções da ONU”, observou Casarões.
Celso Amorim, assessor para assuntos internacionais da Presidência da República, reforçou essa preocupação em entrevista ao jornal O Globo. Para ele, a proposta de Trump é confusa e “representa, na prática, uma revogação da ONU, sobretudo na área de paz e segurança”. Amorim acrescentou que não vê como aceitar uma “reforma da ONU feita por um país”.
O Fantasma da Retaliação e a Pressão Regional
Um dos dilemas mais prementes para o governo brasileiro é o risco de retaliação por parte dos Estados Unidos caso o convite seja recusado. O exemplo do presidente francês, Emmanuel Macron, que criticou a proposta de Trump e foi ameaçado com tarifas de 200% sobre vinhos e champanhes, serve de alerta.
O Brasil já enfrentou uma crise tarifária com os EUA no ano passado, quando tarifas de 40% foram impostas sobre produtos brasileiros. Embora as relações entre Lula e Trump tenham se estabilizado recentemente, a possibilidade de um novo embate tarifário é uma preocupação real.
Marc Weller, diretor do programa de Direito Internacional da Chatham House, sugere que países hesitantes, como o Brasil, deveriam atuar de forma coordenada. “Todos os países que estão hesitantes em se juntar ao Conselho da Paz deveriam atuar juntos […] para que nenhum país seja atingido de forma individual pelos Estados Unidos”, afirmou à BBC News Brasil.
Além da pressão externa, há também a pressão regional. A adesão imediata de Argentina e Paraguai ao Conselho da Paz de Gaza, países liderados por políticos de direita alinhados a Trump, coloca o Brasil em uma posição delicada. O país tem ambições de liderança na América do Sul e não quer ser alijado de processos importantes.
Para Oliver Stuenkel, professor de Relações Internacionais da FGV, o custo de uma recusa brasileira pode não ser tão alto. “Acho que o Brasil não vai aceitar o convite e o custo disso será menor porque duvido que todo mundo aceite, vários países não vão topar uma iniciativa sem nenhuma transparência como essa”, disse Stuenkel à BBC News Brasil.
Diante de um cenário tão complexo, a estratégia de “banho-maria”, ou seja, de postergar a decisão, parece ser a mais prudente para o Brasil. Essa abordagem permitiria aguardar por mais clareza sobre os objetivos e o funcionamento do Conselho da Paz de Gaza, garantindo que qualquer participação brasileira seja ativa e alinhada aos princípios diplomáticos do país.