Governo Lula injeta bilhões na economia com programas sociais e isenção de IR, mirando ano eleitoral
Em um cenário de disputa eleitoral e desaceleração econômica, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem intensificado a implementação de um amplo pacote de medidas com o objetivo de aumentar o poder de compra da população, aquecer a economia e mitigar os efeitos da inflação. As ações, que incluem a expansão de programas sociais e a isenção do Imposto de Renda para a classe média, representam um volume significativo de recursos a serem injetados no país.
A estratégia governamental visa não apenas proporcionar alívio direto no bolso dos brasileiros, mas também estimular a atividade econômica em um momento de projeções de crescimento do PIB inferiores às de anos anteriores. No entanto, economistas consultados pela reportagem apontam que essa política expansiva pode gerar pressões inflacionárias e dificultar a redução da taxa básica de juros pelo Banco Central.
As medidas em questão abrangem desde a ampliação de benefícios para famílias de baixa renda até incentivos ao crédito para trabalhadores formais e a expansão de programas habitacionais. O governo argumenta que tais ações visam melhorar a vida dos cidadãos e cumprir promessas de campanha, enquanto críticos apontam para o caráter eleitoral das iniciativas. As informações foram compiladas a partir de análises de instituições financeiras e dados oficiais divulgados pelo governo federal.
Isenção do Imposto de Renda e programas sociais: alívio direto no bolso
Uma das principais frentes de ação do governo Lula para este ano eleitoral é a redução da carga tributária para a classe média e a ampliação de programas de assistência para os mais pobres. A isenção do Imposto de Renda (IR) para quem ganha até R$ 5 mil e a redução da alíquota para quem aufere até R$ 7.350, em vigor desde janeiro, devem beneficiar cerca de 15 milhões de pessoas, evitando uma arrecadação estimada entre R$ 30 bilhões e R$ 40 bilhões, segundo projeções de instituições como BTG Pactual e ARX Investimentos. O presidente Lula chegou a comparar o impacto dessa medida a um “14º salário” para trabalhadores com renda próxima ao teto de isenção.
Paralelamente, os programas Gás do Povo e Luz do Povo preveem um alívio de R$ 15,5 bilhões para famílias de baixa renda neste ano, um aumento de R$ 3,6 bilhões em relação a 2025. Esses programas, que foram reformulados e rebatizados a partir de políticas já existentes, tornaram-se vitrines do governo. O Gás do Povo, por exemplo, mais que triplicou o número de famílias atendidas, passando de 4,5 milhões para 15 milhões, com direito a recargas anuais de botijões de gás. Já o Luz do Povo deve alcançar 20,9 milhões de residências em 2026, oferecendo gratuidade ou descontos na conta de energia para famílias de baixa renda, dependendo do consumo e da renda per capita.
Crédito barato e Minha Casa Minha Vida impulsionam economia
Além do alívio direto, o governo Lula tem estimulado o acesso a crédito barato, com medidas que começaram a ter impacto em 2025 e devem se consolidar neste ano. O programa Crédito do Trabalhador, lançado em março de 2025, tem se destacado. Nesta modalidade, trabalhadores formais podem obter empréstimos usando até 10% de seu saldo do FGTS como garantia, o que reduz o risco de inadimplência e, consequentemente, os juros. Até meados de março deste ano, já haviam sido concedidos R$ 26 bilhões em novos empréstimos, com a projeção da ARX Investimentos de que o volume total de novas operações em 2026 alcance R$ 134 bilhões.
Outro programa com forte apelo popular e que tem recebido atenção especial é o Minha Casa Minha Vida (MCMV). Com 90% de aprovação, segundo pesquisa da Quaest, o MCMV teve seu orçamento expandido para R$ 180 bilhões em 2025 e a meta é atingir 3 milhões de contratos até o final de 2026, o que representa quase o dobro da média dos três primeiros anos de mandato. Recentemente, o programa ampliou as faixas de renda atendidas e o valor máximo dos imóveis financiados, elevando o potencial de beneficiários. O governo também lançou o programa Reforma Casa Brasil, com financiamentos para obras residenciais.
Desaceleração econômica e o contexto das medidas
A estratégia de “turbinar” a economia com programas sociais e incentivos ao crédito ocorre em um momento de desaceleração da atividade econômica. As previsões de expansão do PIB para 2026, segundo o Boletim Focus, são de 1,8%, um índice inferior aos 2,3% de 2025 e aos 3,4% de 2024. Diante desse cenário, o economista-chefe da ARX Investimentos, Gabriel Leal de Barros, afirma que a estratégia do governo é atuar em “várias frentes” para maximizar o dividendo político-eleitoral, mantendo a economia aquecida.
O Palácio do Planalto, ao ser questionado, não comentou as críticas sobre o caráter eleitoral das medidas. A defesa do governo se baseia na melhoria da vida dos trabalhadores e no cumprimento de promessas. Lula tem destacado que o crédito barato permite que as pessoas “saiam do endividamento” e se livrem de juros abusivos. A expansão do crédito do BNDES, que deve ultrapassar R$ 200 bilhões em 2026, também é vista como um fator de estímulo à atividade econômica, gerando emprego e renda.
Pressão sobre inflação e juros: o outro lado da moeda
Apesar dos benefícios diretos para a população, a política de expansão do poder de compra e da oferta de crédito levanta preocupações entre economistas quanto à pressão sobre a inflação e a taxa de juros. Gabriel Leal de Barros aponta que o volume de dinheiro circulando na economia pode ter contribuído para a manutenção da taxa Selic em patamares elevados, dificultando sua redução. A taxa básica de juros, que chegou a 15% ao ano em junho de 2025, permanece em um dos maiores níveis dos últimos vinte anos.
A preocupação com o aumento da dívida pública também é levantada. Segundo dados do Banco Central, a dívida pública cresceu de 71,7% do PIB em dezembro de 2022 para 78,7% do PIB em janeiro deste ano. Samuel Pessoa, pesquisador da FGV e do BTG Pactual, explica que o aumento das despesas governamentais, somado à elevação da Selic, que incide sobre a correção da dívida, contribui para esse cenário. Pessoa alerta que o aumento do consumo em uma economia já operando perto do pleno emprego gera pressão inflacionária, exigindo juros mais altos e, consequentemente, aumentando a dívida pública.
Visões divergentes sobre a sustentabilidade da política econômica
Nelson Marconi, professor da FGV Eaesp, apresenta uma visão menos crítica, relacionando a alta da dívida pública à meta de inflação estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). Em sua opinião, a meta de inflação baixa obriga o Banco Central a manter os juros elevados, o que, por sua vez, esfria a economia e leva o governo a adotar medidas de estímulo. A meta de inflação para 2026 é de 3%, com tolerância até 4,5%, e o IPCA fechou fevereiro com alta acumulada de 3,81% em 12 meses. A previsão é que o índice feche 2026 acima de 4%.
Ambos os economistas concordam que o cenário atual torna desafiador para o próximo governo reduzir despesas e aumentar o superávit primário. Gabriel de Barros classifica a atual trajetória como “não sustentável”. A guerra entre Estados Unidos e Irã também adiciona pressão inflacionária, com a disparada global do preço do petróleo, que chegou a US$ 119 o barril em março. O governo já implementou medidas para conter o preço do diesel, com um custo estimado de R$ 30 bilhões, a ser compensado com um imposto sobre exportação de petróleo.
Impacto eleitoral das medidas: eficácia em debate
A eficácia das políticas sociais e econômicas adotadas pelo governo Lula em se converter em votos nas urnas é um ponto em debate. O cientista político Rafael Cortez, da Tendências Consultoria, argumenta que o peso da economia na definição das eleições tem diminuído em um cenário de forte polarização. Ele cita o exemplo de Jair Bolsonaro, que, apesar de ter implementado um pacote de medidas em 2022, não conseguiu a reeleição, em parte devido à sua rejeição em relação à pandemia de covid-19.
Cortez observa que as recentes medidas de Lula, especialmente as voltadas para a classe média, como a isenção do IR, podem ter sua conversão em votos dificultada pela polarização e pela vantagem bolsonarista nesse segmento. “Um dos efeitos da polarização é diminuir o número de eleitores dispostos a mudar de ideia”, afirma. Pesquisas eleitorais recentes indicam um cenário de empate técnico entre Lula e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho do ex-presidente, em um eventual segundo turno. O apoio a Lula na faixa de renda de dois a cinco salários mínimos, público-alvo da isenção do IR, tem recuado.
Bolsa Família e Pé de Meia: programas com status estável
Enquanto novas iniciativas ganham destaque, o Bolsa Família, maior programa social do governo Lula, manteve seu valor base de R$ 600 por família desde o retorno do programa, sem reajustes inflacionários. O orçamento total transferido caiu de R$ 170 bilhões em 2024 para R$ 160 bilhões em 2025, valor que deve se manter em 2026. O número de famílias atendidas também sofreu redução, totalizando 18,7 milhões.
O programa Pé de Meia, criado em 2024 para incentivar a permanência de estudantes do Ensino Médio na escola, com orçamento anual de R$ 12 bilhões, também deve permanecer estável. Uma promessa de campanha de Lula de universalizar o benefício para todos os estudantes da rede pública neste ano não tem previsão de cumprimento devido a restrições orçamentárias. O Ministério da Educação confirmou que o orçamento do programa se mantém em R$ 12 bilhões anuais, sendo que a universalização demandaria cerca de R$ 5 bilhões adicionais.
A visão do governo sobre as medidas e o futuro
O governo Lula defende que suas ações são voltadas para os trabalhadores e os grupos mais vulneráveis, cumprindo promessas de campanha. A isenção do IR, aprovada com amplo apoio no Congresso, foi acompanhada pelo aumento de impostos para os mais ricos, medida que deve impactar um número restrito de pessoas. Especialistas em desigualdade de renda elogiam essa abordagem.
Apesar das críticas sobre a sustentabilidade fiscal e os riscos inflacionários, o governo argumenta que as medidas são necessárias para impulsionar a economia e melhorar a qualidade de vida da população. O debate sobre o impacto eleitoral dessas ações, contudo, demonstra que a conversão de benefícios econômicos em votos não é automática, especialmente em um cenário político polarizado e com desafios de percepção pública sobre a novidade e a eficácia da gestão governamental.