Agência Lupa reclassifica checagem de Dias Toffoli e resort Tayayá após novas revelações
A agência de checagem Lupa, que mantém uma parceria com o programa de combate à desinformação do Supremo Tribunal Federal (STF), alterou a classificação de uma de suas verificações sobre o ministro Dias Toffoli e sua relação com o resort Tayayá. Inicialmente, em dezembro de 2024, a Lupa desmentiu um vídeo que circulava à época, classificando a informação de que Toffoli era proprietário do empreendimento como “falsa”. No entanto, com as novas informações surgidas no contexto do escândalo do Master, a nota foi modificada para “informação sem contexto”, sem um reconhecimento explícito de erro na avaliação anterior.
A mudança na classificação ocorre após o gabinete de Dias Toffoli confirmar, na quinta-feira (12), que o ministro era, de fato, sócio dos irmãos na empresa de participações Maridt. Esta empresa, por sua vez, integrava o quadro de sócios do resort Tayayá, localizado no interior do Paraná. Na época em que a Lupa publicou sua checagem, em dezembro de 2024, o ministro ainda compunha o quadro societário da Maridt, informação que não foi destacada na desqualificação inicial da notícia.
Diante dos novos fatos, a agência Lupa atualizou o conteúdo de sua checagem. A nova versão da nota indica que a informação original necessitava do complemento sobre a participação de Toffoli no quadro societário. Segundo a Lupa, a nota anterior já mencionava a existência da Maridt como proprietária do resort, mas a participação direta do ministro na empresa não foi explicitada em sua desqualificação como “falsa”. Conforme a agência, o texto foi ajustado para incluir a nota apresentada pelo gabinete do magistrado e atualizar a composição societária do grupo. As informações foram divulgadas pela própria agência Lupa.
A evolução da checagem da Lupa sobre o resort Tayayá
A agência Lupa, em sua nota atualizada, detalha a evolução da sua própria checagem. A versão publicada em dezembro de 2024 já mencionava a empresa Maridt como parte do grupo proprietário do resort Tayayá. No entanto, a análise da Receita Federal realizada na época, segundo a agência, indicava que o nome do ministro Dias Toffoli não constava no quadro societário da Maridt. Essa informação foi o pilar para a classificação da notícia como “falsa”.
Contudo, com o desenrolar dos fatos e a divulgação de novas informações, o gabinete do ministro Toffoli apresentou dados que esclareceram sua participação societária. A Lupa, ao incorporar essas novas informações, ajustou a classificação da matéria. A agência explica que a versão anterior do texto “já trazia a informação da Maridt no grupo proprietário do resort, mas informava que o nome do ministro não constava no quadro societário da empresa, segundo buscas feitas em dezembro na Receita Federal”. O texto foi, então, “ajustado para inserir na apuração a nota apresentada pelo gabinete do magistrado e atualizar a composição societária do grupo”, conforme a própria Lupa declarou.
Essa reclassificação de “falsa” para “informação sem contexto” levanta questões sobre a metodologia e a precisão das checagens em tempo real, especialmente quando informações novas e relevantes emergem após a publicação inicial. A ausência de um pedido formal de desculpas ou de um reconhecimento explícito de equívoco por parte da agência também é um ponto a ser observado no contexto da credibilidade das verificações factuais.
O papel das agências de checagem e a parceria com o STF
A agência Lupa tem um papel significativo no ecossistema de verificação de fatos no Brasil, especialmente por sua parceria com o programa de combate à desinformação do Supremo Tribunal Federal (STF). Essa colaboração insere a Lupa em um contexto de alta relevância, onde suas verificações podem influenciar a percepção pública sobre informações relacionadas a figuras importantes do judiciário e a instituições públicas.
A parceria com o STF, embora vise a promoção da veracidade e o combate à desinformação, também pode gerar debates sobre a independência e a imparcialidade das agências. A forma como as checagens são conduzidas e comunicadas torna-se, portanto, um ponto crucial para a manutenção da confiança pública. A reclassificação da matéria sobre Dias Toffoli e o resort Tayayá, sem um reconhecimento claro de falha anterior, pode gerar questionamentos sobre a rigidez dos processos de verificação e a transparência na correção de informações.
O contexto da parceria Lupa-STF é importante para entender o alcance e o impacto das checagens. Ao desqualificar uma informação como “falsa”, a agência atribui um selo de inveracidade que pode ter consequências significativas. Quando essa classificação é posteriormente revista, a falta de uma comunicação clara sobre a mudança e seus motivos pode gerar desconfiança sobre a própria eficácia e confiabilidade do sistema de checagem.
A influência das checagens no ecossistema das redes sociais
As checagens realizadas por agências como a Lupa integravam um programa mais amplo da Meta, empresa controladora do Facebook, Instagram e WhatsApp, chamado Third-Party Fact-Checking. Iniciado no Brasil em 2018, este programa permitia que agências parceiras classificassem conteúdos como falsos ou enganosos. Essas classificações tinham um impacto direto no alcance das postagens, podendo reduzir sua visibilidade ou até mesmo levar à remoção de perfis.
Os verificadores tinham o poder de aplicar etiquetas que alertavam os usuários e, ao mesmo tempo, serviam como base para a redução do alcance de publicações consideradas problemáticas. Quando uma agência classificava um conteúdo como falso ou enganoso, a Meta podia aplicar penalidades automáticas. Essas penalidades incluíam a redução do alcance, a impossibilidade de impulsionar a postagem com anúncios pagos, restrições a transmissões ao vivo e até mesmo a desmonetização de perfis por longos períodos.
Essa dinâmica gerou críticas de que as checagens, em alguns casos, poderiam levar a penalidades consideradas injustas. Setores da direita, em particular, argumentaram que suas postagens e perfis eram desproporcionalmente afetados, especialmente durante períodos eleitorais, como em 2018 e 2022. A capacidade das agências de influenciar o alcance e a visibilidade de conteúdos, aliada às penalidades automáticas impostas pelas plataformas, criava um ambiente onde a classificação de uma checagem podia ter consequências severas para criadores de conteúdo e personalidades públicas.
O fim do programa da Meta e a substituição por notas da comunidade
O programa Third-Party Fact-Checking da Meta, que contava com a participação de agências como a Lupa, foi encerrado em janeiro de 2025. A decisão foi comunicada pelo próprio Mark Zuckerberg, CEO da Meta, que citou a perda de usuários como o principal motivo para a descontinuidade do programa no Brasil. A mudança representa um novo capítulo na forma como as plataformas lidam com a verificação de informações e o combate à desinformação.
Com o fim do programa de checagem terceirizada, a Meta optou por substituir essa abordagem por um sistema de “notas da comunidade”, semelhante ao que já é utilizado pela plataforma X (antigo Twitter). Nesse novo modelo, os próprios usuários da plataforma podem adicionar contextos e informações adicionais a postagens que consideram enganosas ou que precisam de esclarecimento. A ideia é que a própria comunidade contribua para a curadoria e a verificação de conteúdos.
A transição para as notas da comunidade marca uma mudança significativa na estratégia das plataformas de redes sociais. Enquanto o programa anterior dependia de agências especializadas e de um processo mais formal de verificação, o novo modelo se baseia na inteligência coletiva dos usuários. Essa mudança tem o potencial de descentralizar o processo de verificação, mas também levanta novas questões sobre a qualidade, a imparcialidade e a eficácia das informações adicionadas pelos próprios usuários.
O escândalo do Master e o contexto da participação de Toffoli
A recente reclassificação da nota da Lupa sobre Dias Toffoli e o resort Tayayá está diretamente ligada ao chamado “escândalo do Master”. Este escândalo envolve uma série de revelações sobre supostas irregularidades e relações financeiras que vieram à tona, impactando diversas figuras públicas e empresas. A investigação sobre o Master trouxe à luz detalhes sobre a estrutura societária e os investimentos de pessoas ligadas ao poder.
Neste contexto, a participação de Dias Toffoli como sócio da empresa Maridt, que por sua vez era sócia do resort Tayayá, tornou-se um ponto de atenção. A confirmação dessa sociedade pelo gabinete do ministro, após a nota inicial da Lupa ter classificado a informação como “falsa”, gerou um debate sobre a precisão das checagens e a forma como informações sensíveis são tratadas.
O resort Tayayá, localizado no Paraná, tem sido mencionado em discussões sobre investimentos e propriedades ligadas a figuras públicas. A investigação do escândalo do Master buscou esclarecer a origem dos recursos, as relações de interesse e a transparência dessas operações. A participação de Dias Toffoli, mesmo que indireta através da Maridt, é um elemento que adiciona complexidade ao caso e levanta questionamentos sobre potenciais conflitos de interesse ou a necessidade de maior transparência em relações societárias.
Críticas e o debate sobre a imparcialidade nas checagens
As checagens de agências como a Lupa, e seu impacto nas plataformas digitais, têm sido alvo de críticas consistentes, especialmente no que diz respeito à percepção de imparcialidade. Críticos argumentam que, em certas ocasiões, as verificações levaram a penalidades consideradas desproporcionais, afetando principalmente personalidades e veículos associados à direita política.
Durante períodos eleitorais sensíveis, como as eleições de 2018 e 2022, a influência das checagens nas redes sociais foi um tema de intenso debate. A capacidade de reduzir o alcance de publicações ou de aplicar restrições a perfis, baseada nas classificações das agências, levantou preocupações sobre a liberdade de expressão e a possibilidade de viés ideológico. A acusação recorrente era de que determinados grupos eram mais severamente fiscalizados e penalizados do que outros.
A mudança na classificação da nota sobre Dias Toffoli pode ser vista, por alguns, como um exemplo dessa dinâmica. A alteração de “falsa” para “sem contexto” sugere que a informação original continha elementos de verdade que não foram devidamente contextualizados ou compreendidos na primeira análise. Esse tipo de ajuste, sem uma retratação clara, alimenta o debate sobre a precisão e a consistência das agências de checagem e seu papel na formação da opinião pública online.
A importância da transparência e da correção na verificação de fatos
A transparência e a capacidade de corrigir erros de forma clara e aberta são pilares fundamentais para a credibilidade de qualquer agência de checagem. No caso da Lupa e da reclassificação da nota sobre o ministro Dias Toffoli e o resort Tayayá, a forma como essa mudança foi comunicada é crucial para a manutenção da confiança do público.
Ao modificar a classificação de “falsa” para “informação sem contexto” sem um reconhecimento explícito de que a avaliação inicial foi equivocada, a agência pode gerar desconfiança. A justificativa de que a nota anterior “já trazia a informação da Maridt” pode não ser suficiente para dissipar as dúvidas sobre a precisão da análise original e sobre o processo de revisão.
Para que as agências de checagem mantenham sua relevância e eficácia, é essencial que demonstrem um compromisso inabalável com a precisão e a honestidade intelectual. Isso inclui admitir quando uma checagem inicial se mostra incompleta ou incorreta, explicar as razões da correção e, sempre que possível, apresentar um pedido de desculpas pela desinformação ou pelo contexto incompleto gerado. A forma como a Lupa lidou com essa situação reflete os desafios contínuos no campo da verificação de fatos e sua importância para o debate público informado.
O futuro da verificação de fatos após o programa da Meta
O encerramento do programa de checagem terceirizada da Meta representa um ponto de inflexão para o jornalismo de verificação no Brasil. Sem o financiamento e a estrutura que esse programa oferecia, agências como a Lupa precisam reavaliar suas estratégias e buscar novas formas de sustentabilidade e atuação.
A transição para as “notas da comunidade” no X, e possivelmente em outras plataformas no futuro, indica uma tendência de descentralização da verificação. Embora isso possa democratizar o processo, também exige um olhar atento sobre a qualidade e a confiabilidade das informações adicionadas pelos usuários. A educação midiática e o desenvolvimento de ferramentas que ajudem os usuários a discernir informações confiáveis se tornam ainda mais cruciais.
O caso da Lupa e a reclassificação da nota sobre Dias Toffoli servem como um estudo de caso sobre os desafios inerentes à verificação de fatos em tempo real, a influência das plataformas digitais e a importância da transparência e da responsabilidade por parte das agências. O futuro da verificação dependerá da capacidade dessas agências de se adaptarem a novos modelos, manterem altos padrões de rigor e conquistarem e preservarem a confiança do público.