A prisão de Nicolás Maduro, ditador venezuelano, por tropas de elite americanas em Caracas, no último sábado (3), intensificou as tensões globais e colocou o Brasil em uma encruzilhada econômica. Este evento não é isolado, mas parte de uma complexa reorganização geopolítica que afeta diretamente nossos parceiros comerciais e mercados.
O cenário para 2026 torna-se mais intrincado, com o mundo buscando segurança de fornecimento em detrimento de custos baixos, um reflexo do fim de décadas de inflação controlada e livre comércio. Isso cria tanto riscos quanto oportunidades significativas para a economia brasileira.
Desde a instabilidade dos preços do petróleo até a demanda por terras raras e energia para inteligência artificial, o Brasil se vê no centro de um tabuleiro global em constante movimento. As análises a seguir, baseadas em informações divulgadas pela Gazeta do Povo, detalham como a situação de Maduro preso impacta diretamente o nosso país.
Venezuela pode virar rival do Brasil no petróleo
A queda de Maduro preso pode sinalizar o fim de décadas de chavismo, que, segundo a Economist Intelligence Unit (EIU), derrubou a Venezuela de 93º para 142º no ranking de democracias. Com a maior reserva de petróleo do mundo, cerca de 300 bilhões de barris, a Venezuela produzia apenas 1,1 milhão de barris por dia sob a ditadura, menos de um terço do que era antes de Hugo Chávez.
A possível volta das petroleiras americanas, hoje com apenas a Chevron operando, pode inundar o mercado com petróleo. Analistas da XP e da Genial Investimentos preveem uma queda nos preços, embora haja oscilações no curto prazo. A Janus Henderson, uma das maiores gestoras de fundos, estima que a Venezuela pode dobrar a produção para 2 milhões de barris diários em dois anos, podendo chegar a 3 ou 4 milhões, mas a recuperação total levaria uma década.
Vitor Souza, analista da Genial Investimentos, alerta que isso vai derrubar o preço do Brent, prejudicando as petroleiras brasileiras. Os Estados Unidos, sob o desejo de Trump, poderiam controlar uma “mini-Opep” para neutralizar o cartel liderado pela Arábia Saudita, garantindo energia barata para o consumidor americano, o que seria desfavorável para quem produz commodities.
No entanto, há desafios. A indústria petrolífera venezuelana perdeu muitos especialistas e sua infraestrutura está devastada por anos sem manutenção, como lembra Gustavo Vasquez, da Argus. Reparar refinarias é ainda mais complexo, com exemplos como o apagão da refinaria de Cardón em 2025. Mesmo assim, a Venezuela é uma peça crucial no quebra-cabeça energético global.
Para o investidor brasileiro em óleo e gás, a atenção deve ser redobrada. O Brasil deixa de ser prioridade regional e ganha um concorrente gigante. Restrições ambientais na Margem Equatorial e a lentidão em novas áreas podem se tornar problemas diante de uma Venezuela que pode oferecer um ambiente regulatório mais favorável, como destaca Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE).
A Petrobras e petroleiras menores, como Brava e PetroRecôncavo, enfrentarão desafios. Com a tendência de preços menores do petróleo, o controle de gastos será crucial. A Petrobras, apesar do baixo custo no pré-sal, pode ver seu caixa cair, enfrentando dificuldades para honrar dívidas se o petróleo chegar a US$ 55. As empresas com custos mais altos e maior endividamento sofrerão mais, conforme Souza.
A abertura da Venezuela também oferece uma expansão inédita. Campos deteriorados podem ser comprados a baixo preço, apesar do alto risco. No entanto, o momento exige cautela até que o novo governo venezuelano defina as regras. Empresas com pouca dívida e alta eficiência estarão mais bem posicionadas para aproveitar essa janela de oportunidade.
Cenário geopolítico global e os riscos para o Brasil
Além da situação de Maduro preso, conflitos como a guerra na Ucrânia e as tensões em Taiwan continuam a preocupar os investidores. O agravamento desses cenários pode levar o capital a sair de países em desenvolvimento, buscando segurança no dólar e pressionando moedas emergentes como o real.
O JP Morgan Private Bank observa que a guerra na Ucrânia encerrou o “dividendo da paz”, um período de baixos gastos militares. Agora, a segurança é prioridade, impulsionando o rearmamento e a busca por energia própria. Taiwan, por exemplo, produz 80% dos chips mais avançados do mundo. Um ataque chinês paralisaria o fornecimento de peças para IA e a indústria militar, como lembra Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados. A China busca controlar toda a cadeia para escapar de sanções, encarecendo produtos.
O comércio e os investimentos em 2026 dependerão cada vez mais de alianças regionais e segurança estratégica. As tarifas dos EUA, visando trazer a produção de bens essenciais para casa, mudam as regras do jogo, mesmo que isso eleve a inflação mundial. A segurança passa a valer mais que o preço baixo, reorganizando as cadeias produtivas globais.
A inflação mundial se torna mais instável, mesmo com o petróleo venezuelano pressionando para baixo. Isso limita os cortes de juros pelos grandes bancos centrais, como o Federal Reserve. Para o Brasil, o impacto é direto: a diferença entre juros internos e externos pressiona o dólar, exigindo uma gestão fiscal ainda mais rigorosa.
Terras Raras e Energia: A Grande Chance do Brasil
Em meio a esses desafios, a riqueza natural coloca o Brasil em uma posição estratégica na disputa por segurança energética e mineral. O JP Morgan Private Bank destaca que a Inteligência Artificial (IA) dispara a demanda por minerais raros, e o Brasil é um exportador essencial de produtos agrícolas e minerais. Controlar recursos, terras e água tornou-se uma questão de segurança, atraindo investimentos para a riqueza mineral brasileira.
O país possui a segunda maior reserva de terras raras do mundo, vitais para a indústria militar e tecnológica. Atualmente, os EUA dependem da China, seu maior rival, para obter esses minerais. Sergio Vale ressalta que as terras raras são a base para a indústria de chips, e o mundo está se dividindo em blocos, exigindo novos fornecedores e aumentando custos.
O Brasil tem um trunfo valioso para negociar parcerias e atrair investimentos, podendo se tornar uma peça importante na segurança do Ocidente, oferecendo alternativas à dependência chinesa. Thomas Giuberti, sócio da Golden Investimentos, sugere que o Brasil pode trocar o fornecimento desses minerais por apoio estratégico e, com investimentos agora, pode conquistar 20% desse mercado até 2030. No entanto, são necessárias regras claras e atração de investimento para refino, etapas dominadas pela China.
Pablo Salgado, gerente de portfólio da Itaú Asset Management, aponta que a China monopolizou cadeias produtivas, incluindo terras raras, para usar como arma em uma “guerra econômica”. A eficiência cede lugar à segurança, e o Brasil surge como uma alternativa para o Ocidente reduzir sua dependência de Pequim. A diplomacia brasileira precisará abrir portas em Washington sem fechar mercados na China.
Além dos minerais, a inteligência artificial cria novas oportunidades. A IA criará uma economia de duas velocidades em 2026, com a tecnologia avançando rapidamente e exigindo investimentos bilionários em data centers, enquanto o resto da economia cresce mais devagar, segundo analistas do UBS. Para aproveitar, o Brasil precisa de energia limpa e barata, um de seus maiores trunfos, detalha Luciano Telo, diretor de investimentos do UBS no Brasil.
O maior limite para a IA em 2026 é a energia elétrica, com data centers demandando fornecimento contínuo e barato. Como líder em hidrelétricas e eólicas, o Brasil está bem-posicionado para atrair investimento tecnológico, mas a instabilidade institucional pode atrapalhar esse potencial.
O Impacto Político e o Desafio Fiscal
Além dos impactos econômicos, a prisão de Maduro preso terá efeitos políticos diretos no Brasil. O presidente Lula, historicamente ligado a Maduro, encontra-se em uma posição delicada, apesar de as brigas terem se acentuado nos últimos anos após o não reconhecimento da reeleição venezuelana. A oposição já utiliza as redes sociais para relembrar a defesa do chavismo por Lula, e termos como “democracia relativa” voltam ao debate, elevando a percepção de risco para investidores e aumentando a chance de mudança de poder em 2026.
O Planalto tenta se afastar, focando na “soberania nacional”, e o Itamaraty mantém sua tradição contra a violência e pela autodeterminação. Contudo, o eleitor de centro, decisivo nas eleições, é sensível à defesa de ditaduras. Estrategistas da XP e da Genial Investimentos lembram que o possível fim da ditadura venezuelana, com Maduro preso, demonstra que regimes que ignoram as leis de mercado tendem ao colapso. A disputa por investimento punirá países desorganizados.
Adriano Pires adverte que o Brasil ganha um “grande concorrente” e critica a lentidão em abrir novas áreas. Ele afirma que “não podemos fingir que está tudo bem. Investimento não perdoa lentidão”. O evento marca uma maior influência dos EUA na América Latina, alterando alianças, e a política brasileira entrará em ebulição. O próximo governo precisará de cautela, evitando medidas populistas que piorem a visão de risco.
Apesar das oportunidades com minerais e energia, os desafios fiscais permanecem. O efeito mais imediato da volta do petróleo venezuelano é a queda da inflação mundial. Com energia mais barata, bancos centrais (Fed e Bacen) podem cortar juros, o que possibilitaria crescimento com inflação baixa nos EUA em 2026. No entanto, as contas públicas brasileiras preocupam.
O Brasil, exceto por um breve período entre 2021 e 2023, está no vermelho desde 2014 e depende da exportação de petróleo para equilibrar as contas. Somente óleos brutos representaram quase US$ 41 bilhões entre janeiro e novembro de 2025, 13% das exportações. Uma queda forte no preço pode aumentar o rombo fiscal e subir os juros longos (DI Futuro), além de diminuir a atratividade para novos investimentos no setor.
Diante desse quadro complexo, o Brasil está em uma encruzilhada. A prisão de Maduro preso terá um efeito profundo na economia, mas o país enfrenta um cenário ainda mais amplo em 2026, com a guerra na Ucrânia, a disputa por terras raras e a IA. Ignorar isso seria perigoso para o investidor. A capacidade de fornecer terras raras e energia limpa posiciona o país estrategicamente, podendo atrair investimentos em data centers e infraestrutura tecnológica.
A chance é limitada, pois outros emergentes competem fortemente. Atrair investimentos em 2026 dependerá da estabilidade interna. A falta de harmonia entre Executivo, Legislativo e Judiciário corrói a confiança, e decisões que mudam leis de repente ou com efeito retroativo prejudicam a segurança jurídica. Solange Srour, diretora de macroeconomia para o Brasil do UBS Wealth Management, enfatiza que o país precisa de um choque de credibilidade nas contas públicas para escapar do crescimento baixo e garantir a sustentabilidade da dívida para financiar o desenvolvimento.