Mulheres expressam maior insatisfação e insegurança financeira no Brasil, revela estudo

Uma pesquisa recente aponta que a maioria das mulheres brasileiras se sente insatisfeita com sua condição financeira atual, demonstrando menor confiança em relação ao futuro quando comparadas aos homens. Embora preocupadas com proteção e estabilidade, as mulheres enfrentam desafios que vão além da renda, incluindo acesso limitado a informações qualificadas e menor segurança para tomar decisões financeiras de longo prazo.

O estudo “O planejamento financeiro do brasileiro: da consciência à prática”, encomendado pela Associação Brasileira de Planejamento Financeiro (Planejar) e realizado pelo Datafolha, entrevistou dois mil brasileiros com 18 anos ou mais. Os resultados indicam uma disparidade significativa na percepção de segurança financeira entre os gêneros, com 51% das mulheres declarando insatisfação, contra 40% dos homens.

Essa insegurança financeira feminina, segundo especialistas, não está unicamente ligada à renda, mas também a fatores como a falta de acesso a conhecimento financeiro de qualidade e a confiança para traçar e executar planos de longo prazo. A análise reflete um cenário onde a educação financeira para mulheres é vista como um pilar para fortalecer não apenas a autonomia individual, mas também as famílias e a economia nacional como um todo, conforme divulgado pela Planejar.

Planejamento financeiro: homens lideram na adoção de estratégias

Quando o assunto é organização e planejamento financeiro, a pesquisa revela uma lacuna considerável entre homens e mulheres. De acordo com o levantamento, 65% dos homens afirmam adotar algum tipo de plano financeiro em níveis razoável, muito ou extremamente razoável. Em contrapartida, entre as mulheres, esse índice cai para 53%.

Essa diferença se acentua quando a análise foca na capacidade de constituir reservas financeiras. O estudo indica que quatro em cada dez brasileiros, o equivalente a 43% dos entrevistados, não possuem dinheiro guardado para emergências. Deste grupo, uma maioria expressiva, 62%, são mulheres. Mesmo entre aqueles que conseguem poupar, quase metade relata que a reserva acumulada não seria suficiente para cobrir despesas por mais de um ano.

A menor propensão ao planejamento e à constituição de reservas pode estar atrelada à menor confiança que as mulheres demonstram em alcançar seus objetivos financeiros. A falta de segurança para realizar projetos de vida, como uma viagem dos sonhos ou a compra de um veículo, é mais acentuada entre o público feminino.

Confiança em projetos de vida e empreendedorismo: a disparidade de gênero

A pesquisa também trouxe à tona a diferença na confiança das mulheres em relação aos homens para a realização de projetos de vida e de empreendedorismo. No que diz respeito a realizar uma viagem dos sonhos, por exemplo, 51% dos homens se declararam financeiramente confiantes, enquanto apenas 37% das mulheres compartilham dessa mesma segurança.

Situação semelhante se observa nos planos para aquisição ou troca de veículos. Neste quesito, 46% dos homens afirmam ter segurança para realizar a compra, frente a 35% das mulheres. A insegurança financeira feminina parece se estender também ao universo do empreendedorismo.

Quando o tema é abrir um negócio próprio ou tornar-se sócio, 47% dos homens se dizem confiantes. Entre as mulheres, esse percentual despenca para 32%. Esses dados sugerem que, além de questões de acesso a crédito e capital, a falta de confiança e a percepção de risco podem ser barreiras significativas para o empreendedorismo feminino.

Mulheres aposentadas enfrentam maior dificuldade de sustentação financeira

A fase da aposentadoria também expõe uma vulnerabilidade financeira maior para as mulheres brasileiras. Segundo a pesquisa, 46% das mulheres aposentadas declararam ter precisado cortar gastos para equilibrar as contas, um percentual superior aos 39% registrados entre os homens aposentados.

Agravando esse cenário, uma em cada cinco aposentadas, o que representa 20% do grupo, afirma não receber renda suficiente para se sustentar. Esse índice é mais elevado do que os 16% observados entre os homens aposentados. Esses dados reforçam a ideia de que a segurança financeira ao longo da vida, incluindo a terceira idade, é um desafio mais presente para as mulheres.

A menor capacidade de acumulação de patrimônio ao longo da vida laboral, salários geralmente inferiores aos dos homens e a maior carga de responsabilidades familiares, que muitas vezes levam a interrupções na carreira, podem ser fatores que contribuem para essa dificuldade na aposentadoria.

Mecanismos de controle financeiro: adesão alta, mas com ressalvas

Apesar das inseguranças e insatisfações expressas, a pesquisa indica que a maioria dos brasileiros, tanto homens quanto mulheres, utiliza algum tipo de mecanismo de controle financeiro. O estudo revela que 89% dos entrevistados registram seus gastos de alguma forma.

As ferramentas mais comuns para esse controle são as anotações em cadernos, utilizadas por 45% dos respondentes, e planilhas eletrônicas em computadores ou celulares, empregadas por 35%. No entanto, o uso de orientação especializada, como a contratação de um planejador financeiro, ainda é limitado, sendo adotado por apenas 2% dos entrevistados.

Ainda assim, há um interesse crescente em buscar auxílio profissional: 49% dos entrevistados afirmam que estudam a possibilidade de recorrer a um planejador financeiro. Isso demonstra uma consciência emergente sobre a importância do planejamento estruturado, mesmo que a prática ainda não seja disseminada.

Educação financeira: chave para a autonomia e igualdade econômica

Para Paula Bazzo, planejadora financeira CFP pela Planejar, a insegurança financeira feminina não se limita à renda, mas está intrinsecamente ligada ao acesso à informação qualificada e à confiança para tomar decisões de longo prazo. “Falar de planejamento financeiro é falar de autonomia, de proteção e de futuro. Quando fortalecemos a educação financeira das mulheres, fortalecemos também as famílias e a economia como um todo”, afirma Bazzo.

Essa visão é corroborada por Ana Leoni, presidente da Planejar, que destaca o gênero como um fator determinante na percepção de segurança financeira. “O estudo mostra que ampliar o acesso à educação financeira e ao planejamento estruturado pode fortalecer a autonomia financeira das mulheres, gerando impacto direto nas famílias brasileiras, já que elas muitas vezes assumem a responsabilidade financeira de seus lares e, frequentemente, recebem salários menores do que os dos homens”, explica Leoni.

A educação financeira é, portanto, vista como uma ferramenta poderosa para empoderar as mulheres, permitindo-lhes tomar decisões mais assertivas sobre seus recursos, construir patrimônio e garantir um futuro mais seguro para si e para suas famílias. A capacitação nesse campo pode mitigar as disparidades de gênero observadas no cenário financeiro brasileiro.

A busca por segurança financeira: prioridade para mulheres

Karoline Roma Cinti, planejadora financeira CFP pela Planejar, observa que quando uma mulher busca ajuda profissional para gerenciar suas finanças, seja para si mesma ou em representação da família, a prioridade geralmente é a segurança. “A mulher, de alguma maneira, está se sentindo insegura nessa relação com o dinheiro, seja porque ela está preocupada com ela mesma, por exemplo, quando está próxima dos 40 anos e quer saber como manter o que construiu ou como fazer as reservas para garantir o sustento lá na frente”, relata Cinti.

Outra preocupação recorrente entre as mulheres que buscam planejamento financeiro é com o futuro da família. “Ao ver que não tem reservas e precisa garantir o futuro dos filhos, ela procura ajuda, mas o grande motivador acaba sendo a busca por segurança”, complementa a especialista.

Mesmo as mulheres que já possuem uma rotina de organização financeira, guardam dinheiro e têm renda, buscam o planejamento para adquirir repertório, ou seja, saber como otimizar e fazer render suas economias. Essa busca por conhecimento e segurança contrasta com a postura de muitos homens, que, segundo Cinti, tendem a evitar pedir ajuda para cuidar do dinheiro.

Barreiras culturais e a busca por ajuda financeira

Karoline Cinti aponta uma diferença cultural na forma como homens e mulheres lidam com a necessidade de auxílio financeiro. “Para muitos homens, é até desafiador admitir que está precisando de ajuda, pois o homem aprende na sociedade desde cedo que ele é o tomador de risco, o fazedor de renda”, afirma. Essa construção social pode criar uma barreira para que busquem aconselhamento financeiro.

Por outro lado, a mulher tende a se colocar em um papel mais cauteloso e, consequentemente, mostra-se mais aberta a pedir ajuda. “Ela vai ter menos barreiras para falar e escutar”, observa Cinti. Essa receptividade a conselhos e a disposição para compartilhar suas dificuldades podem ser fatores que facilitam o processo de planejamento e a construção de segurança financeira para as mulheres.

A especialista também ressalta que, embora as mulheres possam apresentar um perfil mais conservador no início do planejamento financeiro, com o avanço da educação financeira e a prática, as diferenças em relação aos homens tendem a se tornar mais relativas ao perfil individual de cada pessoa do que ao gênero. “Tem muita influência da história de vida de cada um, mas depois do início do planejamento, tanto homens quanto mulheres se mostram abertos da mesma maneira a tomar risco, se for o caso”, conclui.

O futuro do planejamento financeiro feminino no Brasil

A pesquisa “O planejamento financeiro do brasileiro: da consciência à prática” oferece um retrato claro dos desafios enfrentados pelas mulheres brasileiras em relação à segurança e satisfação financeira. A menor confiança em decisões de longo prazo, a dificuldade em constituir reservas de emergência e a menor propensão ao empreendedorismo, quando comparadas aos homens, são aspectos que merecem atenção.

No entanto, os dados também apontam para um caminho promissor. O crescente interesse em buscar orientação profissional e a identificação da educação financeira como ferramenta de empoderamento sugerem que as mulheres estão cada vez mais conscientes da importância de gerenciar suas finaves com sabedoria. A maior abertura para pedir e receber ajuda, característica observada por especialistas, é um ponto forte a ser explorado.

Investir em programas de educação financeira voltados para o público feminino, desmistificar o planejamento financeiro e incentivar a autonomia econômica são passos cruciais para reduzir as disparidades de gênero e construir um futuro financeiro mais equitativo e seguro para todas as brasileiras, fortalecendo, consequentemente, as famílias e a economia do país.

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