Imagine viver em uma das melhores cidades do Brasil, com segurança, bons serviços e alta renda média. Agora, imagine que, mesmo com todas essas qualidades, há uma escassez de trabalhadores para preencher as vagas de trabalho disponíveis.
Este é o cenário paradoxal que muitos municípios brasileiros enfrentam, especialmente aqueles localizados no interior. Eles lideram rankings de qualidade de vida, mas não conseguem suprir a demanda por mão de obra.
O problema não é a falta de oportunidades ou uma economia fraca, mas sim a ausência de pessoas para ocupar os postos. Este descompasso é evidenciado por dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho e Emprego, e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), conforme informações divulgadas pela Gazeta do Povo.
O Paradoxo do Pleno Emprego nas Cidades Ideais
O levantamento da Gazeta do Povo, que elege as melhores cidades do Brasil para viver em 2025, aponta para um fenômeno peculiar. Enquanto a qualidade de vida avança, a oferta de mão de obra recua, criando um cenário de pleno emprego onde, na verdade, faltam candidatos.
Municípios como Paraí (RS), que registrou um saldo positivo de 103 vagas formais entre janeiro e novembro de 2025, e São Bento do Sapucaí (SP), com 79 novos postos, exemplificam essa dinâmica. Jateí (MS), líder nacional em qualidade de vida, fechou novembro com 53 vagas de trabalho em aberto, sem preenchimento.
A prefeita de Jateí, Cileide Cabral (PSDB), ressalta a gravidade da situação. “Com a redução de ingressos na força de trabalho e o aumento de colaboradores aposentados, essa demanda de vagas tende a aumentar. Talvez, conhecendo a realidade do município e verificando as condições de vida, aconteça uma mudança e mais trabalhadores de fora busquem essas oportunidades”, afirma.
A Demografia Explica a Escassez de Mão de Obra
Os dados do IBGE são cruciais para entender por que sobram vagas de trabalho nas melhores cidades do Brasil. Dois fatores demográficos principais contribuem para este desequilíbrio.
Primeiro, o êxodo juvenil. Muitos jovens deixam suas cidades natais em busca de ensino superior em grandes centros urbanos e, após a formação, poucos retornam. Essa evasão reduz a base técnica e qualificada local, impactando diretamente o mercado de trabalho.
Segundo, o envelhecimento populacional. Cidades com boa infraestrutura de saúde e qualidade de vida tendem a ter uma população mais longeva. Contudo, a reposição da força de trabalho não acompanha esse ritmo, resultando em mais aposentados e menos jovens ingressando no mercado.
Elias Guilherme Ricardo, superintendente do IBGE no Paraná, corrobora essa análise. “Eles enfrentam gargalos demográficos claros. A população envelhece em ritmo acelerado, enquanto jovens saem para estudar e não retornam. A base ativa diminui. O mercado oferece vagas, mas não encontra trabalhadores. Sem políticas de atração de moradores e qualificação local, o crescimento econômico perde fôlego”, explica.
Mudanças no Perfil do Trabalhador e Novas Demandas
Além dos fatores demográficos, há uma transformação no perfil de quem busca, ou não, essas vagas de trabalho. O superintendente do IBGE no Paraná, Elias Guilherme Ricardo, aponta que as expectativas das novas gerações em relação ao trabalho são diferentes.
“Muitos dos trabalhos disponíveis nas pequenas cidades não atendem expectativas das novas gerações. Por isso, há quem prefira empreender, criar a sua própria forma de trabalho. De outro lado, aposentados voltam ao mercado, porque as vagas não são preenchidas”, detalha Ricardo, mostrando uma adaptação do mercado à realidade.
Jateí: Estratégias de Atração e Retenção de Talentos
Apesar dos desafios, algumas cidades buscam soluções. Em Jateí (MS), a prefeita Cileide Cabral destaca os esforços para atrair novos moradores e trabalhadores. A consolidação da suinicultura e o crescimento da agricultura na região têm sido fatores-chave para a abertura de novas vagas de trabalho.
“No nosso caso, as políticas de atração de moradores alcançam resultados. A suinicultura e a variedade na agricultura têm atraído muita gente. Temos moradores que vieram de outros estados, como Pará e Minas Gerais. Temos vagas, mas temos novos moradores chegando”, contextualiza a prefeita.
Além disso, a proximidade com Dourados, um centro maior, e a oferta de faculdades online contribuem para a retenção de jovens. “Com a proximidade de Dourados e com as faculdades on-line, muitos jovens ficam por aqui, formando suas famílias. Eles acabam se aperfeiçoando para os novos tempos, indo além do que os familiares foram, criando novas formas de explorar negócios familiares”, acrescenta a prefeita, mostrando a importância da inovação e adaptação.
O cenário das melhores cidades do Brasil para viver, com suas vagas de trabalho em aberto, reflete um desafio complexo que exige políticas públicas focadas na atração e retenção de talentos, bem como na adaptação do mercado às novas realidades demográficas e sociais do país.