Vorcaro pressionado por pagamentos em resort associado a Dias Toffoli, indicam mensagens da PF
Mensagens obtidas pela Polícia Federal no celular do banqueiro Daniel Vorcaro indicam que ele foi cobrado pela demora em aportes financeiros destinados a um resort ligado ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli. As conversas, que constam em relatório encaminhado à corte e foram reveladas pelo jornal O Estado de S. Paulo, detalham negociações e pressões relacionadas ao empreendimento Tayayá.
Em maio de 2024, Vorcaro questionou seu cunhado e operador financeiro, Fabiano Zettel, sobre um aporte para o fundo Tayayá, expressando preocupação com sua situação. Zettel confirmou a conversa anterior onde Vorcaro teria autorizado o adiamento do pagamento para a semana seguinte.
A polêmica surge em um contexto onde o ministro Dias Toffoli negou anteriormente ter recebido pagamentos de Vorcaro ou ter qualquer relação de amizade com o banqueiro. As mensagens, contudo, trazem novos elementos sobre as transações financeiras e as conexões entre os envolvidos, conforme informações divulgadas pelo jornal O Estado de S. Paulo.
Detalhes das mensagens: Aporte de R$ 15 milhões e cobranças recorrentes
Uma das conversas mais reveladoras ocorreu em maio de 2024, quando Daniel Vorcaro enviou uma mensagem a Fabiano Zettel indagando sobre a resolução de um aporte para o fundo Tayayá: “Você não resolveu o aporte do fundo Tayayá? Estou em situação ruim”. A resposta de Zettel indica que Vorcaro teria concordado em postergar o pagamento para a semana seguinte.
Posteriormente, Zettel apresentou a Vorcaro uma lista de pagamentos para aprovação, onde constava a linha “Tayaya – 15”. A Polícia Federal interpretou essa anotação como o repasse de R$ 15 milhões ao empreendimento. A reação de Vorcaro foi imediata: “Paga tudo hoje”, segundo o Estadão.
A questão ressurgiu em agosto de 2024, quando o banqueiro voltou a cobrar a conclusão de valores relacionados ao Tayayá, sem especificar quem fazia a cobrança. “Aquele negócio do Tayayá não foi feito?”, perguntou Vorcaro. Zettel informou que os recursos haviam sido encaminhados a um intermediário responsável pela finalização do aporte, dependendo dessa etapa para ser concluído.
A irritação de Vorcaro e a resposta do operador financeiro
A demora na conclusão do aporte gerou irritação em Daniel Vorcaro, que desabafou com o cunhado: “Cara, me deu um puta problema. Onde tá a grana?”. Fabiano Zettel respondeu que o dinheiro estava no fundo proprietário do Tayayá e que ele providenciaria a transferência das cotas.
Para se justificar e prestar contas diante das cobranças, Vorcaro solicitou a Zettel um levantamento detalhado de todos os aportes realizados no Tayayá. “Me fala tudo que já foi feito até hoje”, pediu o banqueiro. A resposta de Zettel detalhou os pagamentos: “Pagamos 20 milhões lá atrás. Agora mais 15 milhões”, indicando um montante total de R$ 35 milhões.
Relatório da PF ao STF e a saída de Toffoli da relatoria
Os trechos das mensagens entre Vorcaro e Zettel foram incluídos no relatório da Polícia Federal apresentado ao Supremo Tribunal Federal (STF). O documento foi compartilhado com os demais ministros da corte e com a Procuradoria-Geral da República (PGR) na semana anterior à divulgação das informações.
Após a entrega deste relatório ao STF, o ministro Dias Toffoli tomou a decisão de deixar voluntariamente a relatoria do caso Master na corte. Esta ação pode ser interpretada como uma medida para evitar qualquer percepção de conflito de interesses ou para garantir a imparcialidade nas investigações.
Conexões de Toffoli com o empreendimento Tayayá
Dias Toffoli possui participação societária na empresa Maridt, que, por sua vez, detinha participação em dois resorts da rede Tayayá. Conforme apurações anteriores, a Maridt vendeu suas participações nesses empreendimentos a fundos de investimento nos quais Fabiano Zettel atuava como acionista.
Essas operações societárias ocorreram em um período anterior à distribuição da ação referente à compra do Banco Master pelo BRB para o gabinete do ministro Toffoli. A temporalidade dessas transações é um dos pontos de atenção nas investigações.
Posição de Dias Toffoli: Negativa de recebimento e relação com os envolvidos
Em nota oficial divulgada após a apresentação do relatório da PF ao STF, o ministro Dias Toffoli reafirmou sua posição. Ele declarou que a Maridt é uma empresa familiar devidamente constituída e que todas as suas operações financeiras foram devidamente declaradas à Receita Federal.
Toffoli reconheceu ter recebido dividendos provenientes da Maridt, como acionista da empresa. No entanto, ele negou veementemente ter recebido qualquer valor diretamente de Daniel Vorcaro ou de Fabiano Zettel. O ministro também declarou não possuir qualquer relação de amizade com o banqueiro Daniel Vorcaro.
“Jamais recebi qualquer valor de Daniel Vorcaro ou de seu cunhado Fabiano Zettel”, enfatizou Toffoli em sua nota, buscando esclarecer sua posição diante das informações que vieram à tona.
O que diz a Polícia Federal e os próximos passos da investigação
O relatório da Polícia Federal, que contém as mensagens trocadas entre Daniel Vorcaro e Fabiano Zettel, foi encaminhado ao STF para análise. A PF busca entender a natureza das relações financeiras e a possível conexão entre os aportes no resort Tayayá e as investigações em curso.
A interpretação das mensagens pela PF sugere que Vorcaro estaria sob pressão para realizar os pagamentos, o que levanta questões sobre a origem dessa pressão e o destino final dos recursos. A investigação visa esclarecer se há alguma irregularidade ou ilícito nas transações apontadas.
A saída voluntária de Dias Toffoli da relatoria do caso Master é um indicativo da sensibilidade do caso e da importância de manter a transparência e a imparcialidade nas apurações. Os próximos passos devem envolver uma análise mais aprofundada do relatório da PF e, possivelmente, oitiva dos envolvidos.
Contexto: O caso Master e a rede Tayayá
O caso Master refere-se a uma investigação que envolve a compra do Banco Master pelo BRB (Banco de Brasília). A distribuição deste caso para o gabinete do ministro Dias Toffoli, e as subsequentes revelações sobre suas conexões com o empreendimento Tayayá, adicionam uma camada de complexidade à situação.
A rede Tayayá é conhecida por seus empreendimentos imobiliários e hoteleiros. A participação da empresa Maridt, ligada a Toffoli, e a subsequente venda de suas cotas para fundos associados a Zettel, indicam uma movimentação financeira que a PF busca detalhar.
A investigação busca determinar se houve alguma irregularidade nas transações financeiras, se houve tráfico de influência ou qualquer outro ato ilícito. A Polícia Federal utiliza as mensagens de celular como um dos elementos para reconstruir a cadeia de pagamentos e as responsabilidades de cada parte envolvida.
A importância da transparência em casos envolvendo autoridades públicas
Este caso reforça a importância da transparência e da diligência em transações financeiras que envolvem autoridades públicas e pessoas com conexões a elas. A divulgação das mensagens pela imprensa e a subsequente saída de Toffoli da relatoria demonstram a pressão pública e institucional por clareza.
A análise das comunicações e dos fluxos financeiros é crucial para garantir a integridade do sistema judiciário e a confiança da sociedade nas instituições. A Polícia Federal, ao coletar e analisar essas evidências, cumpre seu papel de investigar e apresentar fatos às autoridades competentes.
O desenrolar desta investigação poderá ter implicações significativas, não apenas para os envolvidos diretos, mas também para a percepção pública sobre a conduta de agentes públicos em suas relações financeiras e empresariais. A sociedade aguarda os desdobramentos com atenção.