O Mercado de Cacau em 2026: A Busca Urgente por Equilíbrio Após Anos de Extrema Volatilidade
O mercado global de cacau se prepara para 2026 em um cenário de incerteza, marcado por uma transição de um período de preços históricos para uma projeção de superávit. Produtores, indústrias e investidores estão em compasso de espera, buscando um ponto de equilíbrio que garanta a rentabilidade da cadeia sem desencorajar o consumo, que já mostra sinais de retração.
A Organização Internacional do Cacau (ICCO) projeta um superávit global de aproximadamente 200 mil toneladas para o próximo ano, um contraste significativo com o déficit recorde observado em 2024. No entanto, essa recomposição da oferta não elimina as preocupações, especialmente diante dos impactos persistentes de eventos climáticos extremos na cultura do cacau.
Anna Paula Losi, presidente executiva da Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau (AIPC), ressalta a complexidade do momento, alertando para o risco de um novo ciclo vicioso caso os preços caiam demasiadamente e desestimulem a produção. A grande questão que paira sobre o setor é a definição desse patamar ideal de preço, um consenso ainda distante entre os diferentes elos da cadeia, conforme informações divulgadas pela CNN Brasil.
Contexto de Turbulência: A Escalada Histórica dos Preços do Cacau
A atual volatilidade no mercado de cacau tem suas raízes em um choque sem precedentes vivido entre o final de 2023 e o ano de 2024. A partir de novembro de 2023, os preços internacionais do cacau começaram a subir gradualmente, mas foi em fevereiro de 2024 que o mercado entrou em um território verdadeiramente inédito, com cotações atingindo patamares históricos.
Em abril de 2024, a perspectiva de um déficit global superior a 500 mil toneladas de cacau impulsionou as cotações para níveis jamais vistos, variando entre US$ 10 mil e US$ 13 mil por tonelada na bolsa de Nova York. Anna Paula Losi enfatiza que esses “níveis que nunca haviam sido vistos” se sustentaram ao longo de todo o ano de 2024, criando um ambiente de extrema pressão para toda a cadeia produtiva e industrial.
Essa escalada de preços estimulou investimentos significativos, não apenas em países produtores tradicionais, como Costa do Marfim e Gana, mas também em novas fronteiras agrícolas. Projetos de cultivo de cacau começaram a ser anunciados em regiões que antes estavam fora do mapa global da cultura, incluindo estados brasileiros como São Paulo, conforme lembra a presidente da AIPC. Essa expansão, porém, é um investimento de longo prazo, com resultados esperados apenas em anos futuros.
O Impacto na Demanda Global e a Retração do Consumo
Apesar da alta vertiginosa dos preços do cacau em 2024, o repasse para o consumidor final não foi imediato. A produção de chocolates e derivados ocorre com antecedência, o que significa que os preços recordes do insumo só começaram a ser sentidos nas gôndolas no último trimestre de 2024. O impacto, como era de se esperar, foi direto e significativo sobre a demanda.
A indústria alimentícia e chocolateira, confrontada com custos de matéria-prima exorbitantes, foi forçada a reduzir suas compras de cacau. Esse movimento se refletiu em uma queda na moagem global, um indicador crucial da demanda industrial. Losi detalha que, em 2024, a retração ainda foi moderada, mas a desaceleração se tornou “mais evidente” em 2025, à medida que os preços elevados persistiram ao longo do primeiro semestre.
Dados revelam que o ano de 2025 terminou com uma queda na moagem nos principais polos globais. Na Europa, que representa entre 40% e 45% do consumo global de cacau, a moagem no quarto trimestre caiu 8,3% em relação ao ano anterior, totalizando 304,47 mil toneladas. Essa foi a sexta queda consecutiva e superou em muito as previsões do mercado, que apontavam para uma baixa de 2,9%. No Brasil, a retração foi ainda mais acentuada, próxima de 15%, evidenciando a sensibilidade do mercado aos custos elevados.
A Virada do Mercado: De Déficit a um Cenário de Superávit
A combinação do enfraquecimento do consumo global com uma perspectiva mais favorável para as safras em países-chave provocou uma reviravolta no mercado de cacau. Após um período de déficit alarmante, o cenário começou a se inclinar para um superávit, impulsionando a queda dos preços internacionais.
O clima favorável nas principais regiões produtoras da África Ocidental, particularmente na Costa do Marfim e em Gana, os maiores produtores mundiais da amêndoa, é um fator determinante. As expectativas são de que as colheitas aumentem em fevereiro e março, com os agricultores reportando uma melhor qualidade da safra. Além disso, os cacaueiros já estão florescendo, um sinal positivo que pode impulsionar a próxima colheita de meio de temporada, prevista para o período entre abril e setembro.
Outro elemento importante nessa mudança de sinal é o avanço expressivo do Equador, que desponta como um potencial segundo maior produtor global de cacau. A ascensão de novos players e a recuperação dos tradicionais contribuem para a recomposição da oferta. Anna Paula Losi resume a transformação: “Saímos de uma perspectiva de déficit de quase 500 mil toneladas, em meados de 2024, para um cenário de superávit. Isso ajuda a explicar a queda dos preços, que começou entre julho e agosto de 2025 e vem se aprofundando desde então.”
O Desafio do Ponto de Equilíbrio: Preços e Rentabilidade
Com a projeção de um superávit para 2026 e a consequente queda dos preços, o mercado de cacau enfrenta agora o desafio central de encontrar um ponto de equilíbrio que seja sustentável para todos os elos da cadeia. A preocupação é evitar que o ajuste se transforme em um novo ciclo de desequilíbrio, um “ciclo vicioso” como descreve Anna Paula Losi.
Entre analistas internacionais, circula a avaliação de que preços em torno de US$ 5 mil por tonelada poderiam representar um nível mais próximo do equilíbrio. No entanto, essa percepção varia significativamente. “Se você perguntar ao produtor, ele vai dizer que não é suficiente. Se perguntar à indústria, ela também pode discordar. Os patamares de 2024 eram claramente insustentáveis”, afirma Losi. A busca por esse valor ideal é complexa e ainda sem resposta definitiva.
Na bolsa de Nova York, onde os preços internacionais do cacau são negociados, o valor dos contratos já caiu abaixo de US$ 5 mil, depois de ter alcançado mais de US$ 13 mil em dezembro de 2024. Essa queda, embora esperada após os picos insustentáveis, gera apreensão. “Se o preço cair demais, há desestímulo à produção. A oferta encolhe, o preço volta a subir e o consumo cai novamente”, alerta Losi, destacando a fragilidade do sistema e a necessidade de uma estabilidade que beneficie a todos.
Particularidades Brasileiras: Importador Líquido e Desafios Internos
No Brasil, o cenário do cacau reflete a dinâmica global, mas com particularidades relevantes que adicionam camadas de complexidade. Apesar da queda da demanda interna, o país segue como importador líquido de cacau, dependendo de amêndoas estrangeiras para suprir as necessidades da sua indústria processadora.
Em 2025, a indústria brasileira recebeu cerca de 186 mil toneladas de amêndoas, volume superior ao de 2024. Contudo, a moagem recuou para pouco mais de 190 mil toneladas, um reflexo direto da retração do consumo interno. A comercialização doméstica de derivados, como licor, manteiga e pó de cacau, caiu 18% em um ano, segundo dados da AIPC. “Se não fosse a exportação de derivados, provavelmente teríamos fechado uma planta industrial”, afirma a executiva, evidenciando a importância do mercado externo para a sustentabilidade da indústria nacional.
Investimentos e a Situação do Produtor Nacional
Apesar do potencial de crescimento da produção nacional, impulsionado por investimentos em novas áreas e projetos de alta tecnologia em estados como São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso, Bahia e Pernambuco, os resultados desses empreendimentos só devem aparecer daqui a três a cinco anos. Enquanto isso, o produtor brasileiro enfrenta um cenário mais adverso, com preços internos abaixo da bolsa de Nova York desde agosto de 2025, uma inversão rara em um país estruturalmente deficitário.
A instabilidade também atingiu o segmento de chocolates artesanais e de cacau fino, conhecido como bean to bar. “As altas de preços trouxeram problemas muito sérios para o bean to bar. O produtor de cacau fino deixou de ser remunerado pelo diferencial, e o custo da manteiga quadruplicou. Muitos pequenos chocolateiros não conseguiram repassar isso ao consumidor”, explica Losi, detalhando as dificuldades enfrentadas por um setor que preza pela qualidade e valor agregado.
Perspectivas para 2026 e o Lado Positivo da Produção Brasileira
Para 2026, a avaliação é de que o setor de cacau seguirá sob pressão, com a necessidade de gerenciar a transição para um mercado mais equilibrado. “Pode parecer positivo ver o preço cair, mas isso também traz riscos importantes. Preço muito baixo é ruim para toda a cadeia, assim como preço muito alto. O desafio é encontrar um caminho sustentável”, reforça Anna Paula Losi.
A executiva da AIPC aponta que, além de ampliar a produção, o Brasil precisará trabalhar ativamente para expandir mercados e diversificar o uso do cacau. “Não adianta crescer oferta se a demanda não cresce. Tecnologia, novos produtos, novos usos e acesso a mercados internacionais são fundamentais”, pondera Losi, delineando uma estratégia para o futuro da cultura no país.
Retomada e Valor Agregado na Bahia
Apesar dos problemas e desafios do ciclo do cacau, a produção brasileira também surfa um momento de transição com sinais positivos. Dados preliminares do Levantamento Sistemático da Produção Agrícola (LSPA) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam para uma retomada gradual na Bahia, principal polo nacional da cultura. A previsão é de crescimento do volume produzido de cacau em 5,3% em 2026 na comparação com 2025, após anos de retração no setor agrícola regional.
Parte dessa expansão está intrinsecamente ligada ao valor agregado do cacau no mercado nacional e internacional. No Brasil, o valor de produção quintuplicou entre 2020 e 2024, segundo o IBGE, saindo de R$ 3,22 milhões para R$ 15,26 milhões. Esse aumento substancial no valor percebido do produto pode ser um motor para impulsionar a produção e a rentabilidade dos produtores, desde que o mercado consiga estabilizar-se em um patamar justo e previsível para todos os envolvidos na complexa cadeia do cacau.