Centenas de milhares de imigrantes venezuelanos nos Estados Unidos enfrentam um futuro profundamente incerto. Apesar da recente captura do ditador da Venezuela, Nicolás Maduro, a ameaça de deportação permanece, gerando grande apreensão e um sentimento de desespero em toda a comunidade.
A postura de linha dura do presidente Donald Trump em relação aos abusos do governo Maduro, embora tenha impulsionado sua popularidade no sul da Flórida, onde muitos venezuelanos residem, criou uma relação turbulenta com essa comunidade. Medidas anteriores, que eliminaram proteções contra a deportação, foram vistas como uma traição por aqueles que fugiram da deterioração econômica e da perseguição política.
Enquanto muitos celebraram a prisão de Maduro e de sua esposa pelas forças americanas em Caracas, a preocupação com o grupo que ainda detém o poder na Venezuela e o que pode acontecer caso o governo Trump decida enviá-los de volta é imensa, conforme informações divulgadas pela CNN.
A Persistência da Linha Dura e a Lei de Inimigos Estrangeiros
O governo Trump tem deixado claro sua intenção de continuar deportando venezuelanos, sem alterar as políticas migratórias existentes. Em uma petição judicial apresentada recentemente, Washington chegou a citar a acusação do Departamento de Justiça contra Maduro para justificar o uso da Lei de Inimigos Estrangeiros, uma autoridade de tempos de guerra, atualmente envolvida em litígios.
Kristi Noem, secretária de Segurança Interna, reforçou essa posição. Ela afirmou durante o fim de semana que as decisões do governo sobre programas de imigração que beneficiam os venezuelanos não mudaram após a captura de Maduro. “Hoje a Venezuela é mais livre do que ontem, e continuará sendo assim enquanto o presidente Trump estiver na Casa Branca e garantir a proteção dos interesses do povo americano, porque esse efeito dominó continuará trazendo esse tipo de liberdade também para a Venezuela”, declarou Noem ao programa Fox News Sunday.
Altos funcionários do governo Trump ecoaram essa opinião, argumentando que a Venezuela está em uma situação melhor agora, o que teoricamente facilitaria o retorno de seus cidadãos. Internamente, as autoridades da Segurança Interna continuaram com as operações de rotina, inclusive no que diz respeito aos venezuelanos, sem interrupções.
No entanto, comentários adicionais de Noem na entrevista à Fox causaram confusão durante o fim de semana, quando a secretária afirmou que os venezuelanos que tiveram a proteção temporária revogada poderiam solicitar o status de refugiado. O departamento esclareceu posteriormente as declarações nas redes sociais: “A secretária Noem encerrou o Status de Proteção Temporária para mais de 500 mil venezuelanos, e agora eles podem voltar para casa, para um país que amam”.
Matthew Tragesser, porta-voz do Serviço de Cidadania e Imigração dos Estados Unidos (USCIS), confirmou a postura oficial. Em comunicado à CNN, ele declarou: “A postura não mudou: o USCIS incentiva todos os venezuelanos que estão ilegalmente nos EUA a usar o aplicativo CBP Home para obter ajuda com um retorno seguro e ordenado ao seu país. Como sempre, o USCIS continuará processando pedidos de asilo e refúgio de acordo com a legislação vigente e com as atualizações das políticas oficiais”.
Crise Humanitária e o Cenário Migratório nos EUA
A instabilidade política e econômica na Venezuela nos últimos anos alimentou uma crise massiva de refugiados. Segundo a agência das Nações Unidas para refugiados, quase 7,9 milhões de venezuelanos são refugiados e migrantes em todo o mundo, um número alarmante que reflete a gravidade da situação em seu país de origem.
Centenas de milhares desses migrantes buscaram refúgio nos Estados Unidos ao longo de duas décadas. Entre os anos 2000 e 2021, a população de origem venezuelana no país cresceu quase 600%, conforme dados do Pew Research Center. Em meados de 2024, estimava-se que havia 764 mil migrantes venezuelanos vivendo nos Estados Unidos, de acordo com o Migration Policy Institute, uma organização apartidária.
No ano passado, o governo Trump cancelou o Status de Proteção Temporária (TPS) para venezuelanos nos Estados Unidos, assim como o programa de liberdade condicional que permitia que venezuelanos, e pessoas de outras nacionalidades, vivessem e trabalhassem temporariamente no país. Essas decisões impactaram mais de 600 mil venezuelanos que eram beneficiários do TPS.
Ambas as decisões foram contestadas judicialmente, adicionando uma camada extra de complexidade e incerteza para os imigrantes. A eliminação dessas proteções, que muitos esperavam em um cenário de crise, gerou um sentimento de insegurança ainda maior para aqueles que já enfrentavam dificuldades em território americano.
Incerteza Jurídica e o Futuro dos Solicitantes de Asilo
Mesmo antes da prisão de Maduro, muitos venezuelanos que vivem nos Estados Unidos já enfrentavam um cenário de incertezas em relação ao seu status migratório. Julia Gelatt, diretora associada do programa de política migratória dos EUA do Migration Policy Institute, destaca que uma parcela significativa dessa população não possui uma situação legal definida.
O processo de solicitação de asilo, uma das poucas vias restantes para regularização, é notoriamente demorado e complexo. O congestionamento nos tribunais de imigração, somado à suspensão de pedidos no Serviço de Cidadania e Imigração dos Estados Unidos (USCIS), faz com que a obtenção de respostas seja um processo arrastado e angustiante. “Havia uma parcela significativa de venezuelanos nos Estados Unidos que não tinha status migratório”, afirmou Gelatt, “e, devido à proibição de viagens e à pausa associada no USCIS, eles não conseguiam obter outro tipo de validação legal, como o asilo.”
Gelatt também pondera que, mesmo que as condições na Venezuela melhorem drasticamente, isso não significa que os milhões de venezuelanos que fugiram sob o regime de Maduro irão retornar. A decisão de retornar é complexa e envolve fatores que vão além da liderança política. Ex-funcionários do Departamento de Segurança Interna, como Sarah Pierce, diretora de política social da Third Way e ex-alta funcionária do USCIS, apontam que, em geral, os governos fariam o oposto nessa situação, considerando a concessão de proteções temporárias a cidadãos de um país que enfrenta uma crise severa. “Um evento com tanta instabilidade política normalmente estimularia um aumento nos pedidos de asilo e possíveis concessões de TPS e/ou liberdade condicional”, afirmou Pierce, evidenciando a contradição da política atual.
Sentimentos Mistos na Comunidade Venezuelana
A comunidade venezuelana nos Estados Unidos tem demonstrado sentimentos ambivalentes diante dos recentes acontecimentos. Em Doral, Flórida, uma cidade a cerca de 24 quilômetros a oeste de Miami que abriga mais imigrantes venezuelanos do que qualquer outra cidade americana, carinhosamente conhecida como “Doralzuela”, manifestantes eufóricos cantaram e dançaram nas ruas, celebrando a notícia da captura de Maduro.
No entanto, essa alegria se mistura com um profundo medo e incerteza. “Estamos com medo, mas com esperança”, disse à CNN Marisela Lara, venezuelano-americana residente em Miami, resumindo o sentimento de muitos. A grande maioria dos migrantes venezuelanos nos Estados Unidos compartilha as mesmas preocupações, pois, apesar da queda de Maduro, o mesmo aparato opressor e a estrutura de poder podem permanecer em vigor no país, sem uma mudança democrática substancial.
Helena Tetzeli, advogada de imigração sediada em Miami que representa cerca de 100 venezuelanos, relata a complexidade da situação entre seus clientes. “A maioria dos meus clientes ficou muito, muito feliz imediatamente após o ocorrido, mas agora está preocupada com a possibilidade de o mesmo grupo de pessoas continuar no poder na Venezuela”, afirmou Tetzeli. Ela observa que, independentemente das inclinações políticas, há uma postura geral de “esperar para ver” se realmente haverá um retorno à democracia na Venezuela ou se apenas um elenco diferente de personagens, talvez mais alinhados aos Estados Unidos, assumirá o controle.
Adelys Ferro, diretora executiva do Caucus Venezuelano-Americano, expressa a dimensão do desafio. “Pode haver progresso. Não sabemos quando. Não sabemos se haverá progresso. Mas o que sabemos é que estamos vivendo o presente, e a situação parece terrivelmente ruim para qualquer pessoa que queira ir para a Venezuela neste momento”, afirmou Ferro. “A incerteza é enorme, maior do que nunca, e o desespero é algo que eu nem consigo explicar”, completou, sublinhando a angústia que permeia a comunidade venezuelana nos EUA.