MPF investiga atuação de Jeffrey Epstein no Brasil e possível aliciamento de mulheres

O Ministério Público Federal (MPF) instaurou um procedimento sigiloso para investigar possíveis tentativas de aliciamento de mulheres no Brasil, ligadas ao criminoso sexual Jeffrey Epstein. A investigação busca analisar situações em que brasileiras possam ter sido exploradas e identificar a existência de redes de aliciamento no país.

A procuradora da República Cinthia Gabriela Borges, em entrevista exclusiva à BBC News Brasil, destacou a intenção de apurar todas as denúncias e o possível envolvimento de redes no Brasil. A investigação foi motivada por uma denúncia recente sobre troca de e-mails entre uma brasileira e Epstein em 2010, discutindo a viagem de uma mulher de Natal, descrita como de “família simples”, aos Estados Unidos.

Nessa troca de mensagens, Epstein solicitou fotos da brasileira em trajes de banho ou lingerie. Embora o objetivo da viagem e sua concretização não sejam claros pelos e-mails, a denúncia resultou na abertura de um procedimento formal pela Unidade Nacional de Enfrentamento ao Tráfico Internacional de Pessoas e ao Contrabando de Migrantes, órgão especializado do MPF. Conforme informações divulgadas pela BBC News Brasil.

Profundo interesse de Epstein em mulheres brasileiras e redes de aliciamento

A investigação do MPF ganha força após a revelação de que Jeffrey Epstein manteve relações pessoais com modelos brasileiras, ofereceu suporte financeiro e, em alguns casos, pode tê-las empregado como assistentes. O órgão federal informou que acompanhará a divulgação de arquivos pelo governo americano e buscará por outras menções a brasileiros em documentos relacionados ao caso.

A procuradora Borges enfatizou a atenção do MPF a casos de mulheres que estavam no Brasil e foram levadas aos Estados Unidos com intenção de exploração sexual, o que pode configurar o crime de tráfico internacional de pessoas. As mensagens revelam uma dependência financeira dessas mulheres em relação a Epstein, que cobria despesas como procedimentos estéticos, viagens e compra de celulares, em troca de fotos e contatos de outras mulheres.

As conversas identificadas datam de pelo menos 2006, antes da primeira prisão de Epstein. Nelas, ele é convidado para festas, discute visitas a São Paulo e o envio de dinheiro, além de solicitar a apresentação de outras mulheres. Em uma ocasião, Epstein avisou uma de suas contatadas sobre sua iminente prisão em 2008, poucos dias antes de ela ocorrer.

Revista de moda no Brasil e a busca por “garotas”, inclusive menores

A BBC News Brasil também divulgou que um parceiro de Epstein discutiu com ele a intenção de adquirir uma revista de moda no Brasil, com o objetivo de ter um contato direto no país para conseguir “garotas”, incluindo menores de idade. Essa informação adiciona uma nova dimensão à investigação, sugerindo uma estratégia mais elaborada de exploração.

A reportagem, através da entrevista com uma vítima, confirmou que diversas brasileiras estiveram na mansão de Epstein nos Estados Unidos. A gravidade dessas revelações impulsiona a necessidade de uma apuração rigorosa por parte das autoridades brasileiras, que buscam mapear a extensão do alcance de Epstein no território nacional.

O caso específico de uma mulher de Natal, citada em arquivos de Epstein divulgados pelo governo americano, tornou-se um ponto focal para o MPF. Mensagens datadas de 2011 indicam o interesse de Epstein por essa brasileira após ser apresentada por uma conhecida, com pedidos explícitos por fotos em trajes de banho e lingerie.

Desafios da investigação: tempo, extraterritorialidade e mudanças na legislação

A procuradora Cinthia Gabriela Borges aponta que o decurso do tempo e a extraterritorialidade dos fatos representam desafios significativos para a investigação. Muitas das mensagens trocadas são de mais de uma década atrás e os supostos crimes ocorreram, em grande parte, em território americano.

“Embora sejam fatos de grande magnitude e muito interesse mundial, esses fatos remontam a mais ou menos 2011, 2012”, afirmou Borges, ressaltando a complexidade probatória. A investigação precisará superar a dificuldade em obter provas concretas após tanto tempo e a necessidade de cooperação internacional para acessar informações nos EUA.

Outro obstáculo é a mudança legislativa no Brasil em 2016, que alterou a configuração do crime de tráfico internacional de pessoas. Antes, o simples aliciamento e envio de uma pessoa para o exterior configurava o crime. Atualmente, é preciso comprovar vício de consentimento, como fraude, coação, violência ou abuso de vulnerabilidade da vítima. Isso torna a apuração mais complexa, exigindo a demonstração de que as mulheres foram enganadas ou coagidas.

A importância da participação das vítimas na investigação

A procuradora Borges enfatiza que a participação ativa das vítimas é fundamental para o sucesso da investigação. “É fundamental nesses casos a participação das vítimas na investigação, para que possam trazer à luz os elementos de como foi o recrutamento”, declarou. A colaboração das brasileiras que tiveram contato com Epstein pode fornecer detalhes cruciais sobre os métodos de aliciamento e a dinâmica das relações.

É importante ressaltar que as mulheres que mantiveram contato com Epstein não estão sendo investigadas como criminosas no âmbito deste procedimento. A procuradora reforçou que, em regra, as vítimas de tráfico de pessoas não são consideradas responsáveis por atos que venham a praticar em decorrência da exploração. A investigação se concentrará em identificar os aliciadores e a rede por trás dessas ações.

“As vítimas não podem ser consideradas culpadas neste caso”, reiterou Borges, direcionando o foco da apuração para a identificação de indivíduos ou grupos especializados em recrutar mulheres para fins sexuais. A busca é por desmantelar qualquer rede de exploração que possa ter operado no Brasil.

Detalhes da troca de mensagens em Natal e o papel de Jean-Luc Brunel

As conversas entre uma brasileira e Epstein, datadas entre 2009 e 2013, originaram a denúncia que levou à abertura do procedimento no MPF. As mensagens detalham não apenas pedidos de recursos para despesas pessoais e procedimentos estéticos, mas também a apresentação de outras mulheres ao bilionário. É crucial notar que as idades dessas mulheres não são mencionadas nos registros.

Um exemplo notório ocorreu em 2009, quando a brasileira solicitou dinheiro para uma cirurgia de implante de silicone, adiando o procedimento até receber o pagamento e expressando o desejo de “se exibir em Palm Beach”. Epstein instruiu seus funcionários a realizarem transferências bancárias, inclusive em moeda brasileira, para atender a esses pedidos.

O suporte financeiro se estendeu a outras necessidades, como a compra de um celular e serviços de beleza de luxo para a jovem e sua mãe. A intermediação de contatos é evidente em janeiro de 2011, quando a brasileira organizou a ida de uma jovem de Natal para os Estados Unidos, caso que está no centro da investigação do MPF. Ela descreveu a jovem como alguém que não falava inglês, nunca havia viajado e vinha de uma família humilde, sugerindo que viajassem juntas para facilitar o trajeto.

Pedidos explícitos por fotos e a conexão com o agente de modelos Jean-Luc Brunel

Após a descrição da jovem, a brasileira enviou fotos dela a Epstein, afirmando que ele a “adoraria”. A resposta de Epstein foi um pedido por mais imagens, especificamente em “lingerie ou biquíni”. Apesar de Epstein ter posteriormente mencionado que a ajuda poderia ser “mal interpretada”, a brasileira continuou a sugerir o encontro, propondo que ocorresse em Paris e reforçando que a jovem era o “tipo” dele.

Natal também é mencionada em outro contexto, quando o agente de modelos Jean-Luc Brunel, um conhecido parceiro de Epstein, informou a ele que esteve na cidade em 2010. Brunel, que foi encontrado morto na prisão em Paris em 2022, enfrentava acusações de assédio sexual e estupro contra menores na França. Suas visitas ao Brasil em busca de modelos eram conhecidas, com registros fotográficos e em vídeos em agências de recrutamento.

Em 2013, a mesma brasileira que intermediava contatos pediu ajuda a Epstein, relatando uma ordem de despejo e falta de recursos para contratar um advogado. Ela também mencionou uma nova amiga recém-chegada do Brasil interessada em conhecê-lo, indicando a continuidade de suas atividades como intermediária.

O futuro da investigação e a busca por justiça

A investigação do MPF sobre a atuação de Jeffrey Epstein no Brasil está em seus estágios iniciais, mas já revela a complexidade e a gravidade das denúncias. A análise dos arquivos americanos, a cooperação internacional e o depoimento de possíveis vítimas serão cruciais para desvendar a extensão das atividades do criminoso no país.

A procuradora Borges reitera que o foco não são as mulheres que tiveram contato com Epstein, mas sim identificar e responsabilizar aqueles que se beneficiaram ou participaram do aliciamento e exploração. A esperança é que a investigação traga à luz a verdade e ofereça algum tipo de reparação às vítimas, além de prevenir futuras ocorrências.

A sociedade aguarda os desdobramentos deste caso, que expõe a fragilidade de mecanismos de proteção e a necessidade de um combate contínuo e rigoroso ao tráfico de pessoas e à exploração sexual, especialmente quando envolve figuras internacionais com amplo poder financeiro e influência.

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