Crítica Crescente: De Aliados a Críticos, o Movimento de Reavaliação da Atuação de Alexandre de Moraes
Um notável movimento de revisão de posições públicas tem se desenhado no cenário político brasileiro em relação ao ministro Alexandre de Moraes. Figuras e entidades que, em momentos anteriores, manifestaram apoio ou, no mínimo, tolerância às ações e à acumulação de poderes do magistrado, agora emergem como vozes críticas, questionando os métodos e a extensão de suas prerrogativas.
O que antes era visto por muitos como uma resposta necessária a ameaças à democracia, passou a ser alvo de escrutínio após novas revelações e a ampliação do escopo das investigações. A mudança de perspectiva se tornou mais evidente quando os alvos das ações de Moraes deixaram de se restringir a grupos específicos, e informações sobre o uso informal do aparato judicial vieram à tona.
Esse fenômeno, que abrange diferentes espectros políticos, reflete um debate nacional que se intensifica, apontando para uma reavaliação das fronteiras do poder judiciário e da proteção das liberdades individuais no país. As informações foram consolidadas com base em reportagens divulgadas pela Gazeta do Povo.
O Inquérito das Fake News e a Tolerância Inicial
Desde sua abertura em 2019, o Inquérito das Fake News, conduzido pelo Supremo Tribunal Federal (STF) sob relatoria de Alexandre de Moraes, tem sido um dos principais instrumentos de atuação do ministro. Inicialmente justificado como uma medida essencial para combater a disseminação de notícias falsas e ataques às instituições democráticas, o inquérito acumulou poderes significativos.
Prisões, bloqueios de contas e restrições de perfis em redes sociais foram, por um período, aceitos por uma parcela considerável da sociedade como um custo necessário para a preservação do Estado de Direito. A narrativa predominante associava qualquer questionamento aos métodos utilizados a um apoio implícito aos grupos que supostamente ameaçavam a democracia.
No entanto, a percepção pública começou a mudar gradualmente. A expansão das ações para além de figuras estritamente ligadas ao bolsonarismo e as revelações posteriores, como as expostas pela operação Vaza Toga, trouxeram à luz questionamentos sobre a legitimidade e a extensão do poder exercido.
A OAB: Do Apoio Inicial à Crítica Formal
A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), em sua esfera federal, manifestou apoio explícito à abertura do Inquérito das Fake News em março de 2019. Na época, a entidade declarou que apoiava as medidas adotadas pelo STF para coibir a disseminação de notícias falsas e os ataques às instituições democráticas.
Durante os anos seguintes, enquanto o inquérito se expandia e suas ações geravam controvérsias, a OAB federal manteve uma postura de silêncio. Contudo, a situação mudou de forma significativa em fevereiro de 2026, quando um ofício conjunto dos 27 presidentes estaduais da OAB sinalizou uma clara revisão de posição.
Na ocasião, a entidade argumentou que “um inquérito deve apurar fatos específicos e não se transformar em uma investigação de natureza perpétua”. A declaração criticou o “tom intimidatório alimentado por esse quadro”, considerando-o “incompatível com o espírito democrático consagrado pela Constituição de 1988”. Essa mudança representa um marco na reavaliação da atuação do STF e de seus membros por uma das principais instituições da advocacia brasileira.
Hamilton Mourão: O Reconhecimento do Erro e o Amadurecimento da Visão
O senador Hamilton Mourão é um dos casos mais emblemáticos de revisão de posição, sendo o único a citar publicamente uma declaração anterior e admitir que estava equivocado. Em dezembro de 2022, em cadeia nacional de rádio e TV, Mourão declarou que o Brasil, embora mudasse de governo, manteria seu regime democrático “pujante e plural”.
No entanto, em agosto de 2024, durante uma sessão no Senado Federal, Mourão revisou sua própria fala, admitindo que se “enganei redondamente ao pensar e dizer que vivíamos em uma democracia pujante”. O senador justificou essa mudança de perspectiva como um “necessário amadurecimento diante da constatação de que os direitos individuais dos brasileiros se encontram hoje vulneráveis a preferências subjetivas de uma autoridade de Estado”.
Vale ressaltar que, em 2021, Mourão se beneficiou de uma decisão de Moraes no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que votou contra a cassação da chapa Bolsonaro-Mourão, preservando o mandato do então vice-presidente. Essa relação prévia adiciona uma camada de complexidade à sua posterior crítica.
Ciro Gomes: Da Defesa Institucional à Crítica Afiada
O ex-candidato à presidência Ciro Gomes, embora já tivesse classificado o procedimento de abertura do Inquérito das Fake News como “exótico” em 2020, optou em agosto de 2022 por defender a palavra final do STF, argumentando que “os brasileiros que amam a democracia têm de acatar a palavra derradeira da nossa Suprema Corte. Essa é a chave da estabilidade institucional”.
Contudo, em agosto de 2024, a visão de Gomes sobre a atuação de Alexandre de Moraes sofreu uma notável transformação. Ele passou a descrever a atuação do ministro com uma analogia futebolística contundente: “Ele [Moraes] bate lateral, faz o gol de cabeça, como juiz valida, embora haja uma queixa de impedimento, e faz ele mesmo a perícia do VAR no lance”.
Essa mudança de discurso reflete uma percepção de que a atuação do ministro extrapolou os limites esperados, com o próprio juiz validando suas ações e realizando as análises de mérito, o que, segundo Gomes, foge aos princípios democráticos.
Oriovisto Guimarães: De Pedido de “Ombros” a Solicitação de Impeachment
Em agosto de 2021, o senador paranaense Oriovisto Guimarães conclamou seus colegas a “emprestar os ombros” ao STF, pedindo apoio institucional em um momento de suposta tentativa de desestabilização da democracia. Sua fala ressoava como um endosso à Corte e seus ministros.
Quatro anos depois, em agosto de 2025, a posição de Guimarães se inverteu radicalmente. Ele se tornou signatário de um pedido de impeachment contra o ministro Alexandre de Moraes. A justificativa para essa mudança foi a necessidade de “equilíbrio entre os Poderes”, com a declaração: “Não podemos aceitar que só um decida por todos”.
Essa transição demonstra como a percepção sobre a concentração de poder e a atuação unilateral de um ministro pode levar à reavaliação de alianças e apoios institucionais.
Jorge Kajuru: A Trajetória de Crítica, Elogio e Nova Crítica a Moraes
O senador Jorge Kajuru apresenta um histórico complexo em sua relação com Alexandre de Moraes. Em fevereiro de 2021, ele foi o primeiro parlamentar a pedir o impeachment do ministro. No entanto, doze meses depois, em fevereiro de 2022, Kajuru elogiou publicamente Moraes, expressando confiança em sua atuação para “enquadrar as tentativas de minar a credibilidade do processo eleitoral”.
A reviravolta mais recente ocorreu em agosto de 2025, quando Kajuru assinou o segundo pedido de impeachment contra o ministro. Sua justificativa, nesta nova fase crítica, aponta para a necessidade de que o STF “exerça seu poder com autoridade moral, construída com exemplo, transparência e responsabilidade”, algo que, em sua visão, “não é o que vemos hoje”.
Essa trajetória ilustra a volatilidade das opiniões e a capacidade de reavaliação baseada em percepções sobre a conduta e a legitimidade das ações de autoridades.
Arthur Lira: Da Independência dos Poderes à Crítica à Legitimidade do Judiciário
A relação entre Arthur Lira, presidente da Câmara dos Deputados, e Alexandre de Moraes tem sido marcada por interesses mútuos e, mais recentemente, por um distanciamento crítico. Em fevereiro de 2022, Moraes votou pela rejeição de denúncias de corrupção contra Lira no STF. Em junho de 2024, o ministro censurou reportagens sobre denúncias de agressão feitas pela ex-esposa de Lira.
Durante esse período, Lira, por sua vez, atuou para reter na Câmara a CPI do Abuso de Autoridade, que já possuía o número de assinaturas necessário para sua instalação. A crítica explícita de Lira a Moraes só se tornou pública quando, aparentemente, não havia mais nada a proteger em termos de alianças.
Em fevereiro de 2021, Lira defendia a independência dos poderes, afirmando que “cada Poder tem a sua atribuição”. Contudo, em julho de 2025, sua visão mudou para uma crítica mais contundente à legitimidade das decisões judiciais: “Os magistrados não são eleitos pelo povo, o que compromete a legitimidade de suas decisões. O Judiciário ultrapassa os limites de atuação do Executivo e do Legislativo”.
Renan Santos e o MBL: Da Defesa do Inquérito à Acusação de Vingança
Renan Santos, líder do Movimento Brasil Livre (MBL) e candidato à presidência, representa um dos casos mais bem documentados de revisão de posição dentro da direita não bolsonarista. O MBL, em sua atuação anterior, apoiou as ações de Moraes contra o governo Bolsonaro, defendendo o inquérito das “milícias digitais” e medidas judiciais contra parlamentares bolsonaristas.
A mudança de perspectiva se consolidou em novembro de 2025, quando Renan Santos acusou diretamente o ministro: “O ministro Alexandre de Moraes está executando uma vingança contra Bolsonaro”. Em contato com a reportagem, Santos afirmou que o MBL critica Moraes há muitos anos e destacou que a revista Valete, publicada pelo movimento, já estampou o ministro em sua capa de 2023, condenando seus “superpoderes” e “postura ditatorial”.
Apesar da revisão, Santos ressalta que os questionamentos sobre os métodos de Moraes não invalidam as críticas do MBL a Bolsonaro e seus aliados, indicando que a oposição a ambos os lados se tornou um ponto central de sua plataforma.
Eduardo Leite: A Rápida Virada de Chave em Relação a Moraes
O governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, protagoniza um dos casos de mudança de posição mais rápidos entre os listados. Em julho de 2025, Leite defendeu Alexandre de Moraes publicamente, repudiando medidas impostas pelos Estados Unidos contra o ministro e afirmando que ele “exerce suas funções de acordo com as nossas leis”.
Apenas quatro meses depois, em novembro de 2025, o discurso de Leite já era de defesa do impeachment. Ele alegou a existência de “indícios que sugerem haver uma relação espúria entre ministros do STF e investigados na operação Banco Master”. Segundo o governador, caso esses indícios se comprovem, os envolvidos “devem ser levados à responsabilização pelo Senado, inclusive pelo processo de impeachment”.
Essa rápida transição demonstra a sensibilidade do cenário político a novas informações e a pressão pública, levando a reavaliações drásticas em curtos períodos.
Felipe Neto: O Silêncio Como Forma de Resposta
O youtuber Felipe Neto, figura proeminente nas redes sociais, não alterou sua posição de forma explícita sobre Alexandre de Moraes, mas sim optou por se afastar do debate público. Em abril de 2024, ele defendia a atuação do STF contra o banimento de contas, criticando a ideia de que a Suprema Corte não poderia agir enquanto CEOs de empresas de tecnologia tivessem esse poder, e ironizando quem gritava sobre censura.
Em fevereiro de 2025, Neto anunciou seu afastamento das discussões políticas, declarando: “Me envolvi em muita confusão, muitos problemas. A militância me levou para uma estrada que nunca quis entrar”. Embora não seja uma crítica direta a Moraes, a decisão de silenciar, dada a intensidade de suas manifestações anteriores, pode ser interpretada como uma consequência das complexidades e controvérsias geradas pelo ambiente político em que se inseriu.
O silêncio de Neto, nesse contexto, representa uma forma de resposta à polarização e às pressões do ativismo digital, impactando a dinâmica do debate público sobre a atuação do Judiciário.
Um Debate Necessário e Tardio para a Democracia
A lista de figuras e entidades que mudaram de posição em relação a Alexandre de Moraes evidencia um processo de maturação democrática no Brasil. O que começou com um apoio generalizado ou uma tolerância tácita, diante de ameaças percebidas à ordem institucional, evoluiu para um escrutínio crítico à medida que os limites do poder e a aplicação da lei tornaram-se mais complexos e controversos.
As revelações sobre o uso do aparato judicial, a ampliação dos alvos das investigações e a percepção de um poder concentrado levaram a uma reavaliação das bases que sustentavam o apoio inicial. A necessidade de um debate aberto e aprofundado sobre os limites da atuação judicial, a proteção das liberdades individuais e o equilíbrio entre os poderes se tornam cada vez mais urgentes.
Embora tardio, esse movimento de questionamento é fundamental para o fortalecimento da democracia brasileira, incentivando a reflexão sobre como o país lida com o poder e a justiça em tempos de polarização e desafios institucionais.