A Netflix se encontra em uma encruzilhada estratégica, defendendo sua ambiciosa oferta de aquisição da Warner Bros. Discovery. A gigante do streaming busca convencer o mercado da lógica por trás de sua mudança de postura, que visa competir de frente com o cenário atual do entretenimento.
Esta justificativa surge em um momento delicado, com as ações da empresa registrando uma queda significativa. Após a divulgação de resultados financeiros que, embora superem as estimativas em alguns pontos, apresentaram perspectivas desanimadoras para o novo ano, o alto custo da transação gera apreensão.
Em meio a essa turbulência, os co-CEOs Ted Sarandos e Greg Peters detalharam a visão da empresa para a aquisição, destacando a força e a complementaridade dos ativos da Warner Bros., conforme informações divulgadas.
A Nova Realidade da Televisão e a Estratégia da Netflix
O presidente-executivo da Netflix, Ted Sarandos, apresentou argumentos convincentes sobre a necessidade de adquirir os ativos da Warner Bros. Discovery. Ele enfatizou como a definição de ‘televisão’ mudou drasticamente, impulsionada por gigantes da tecnologia como o YouTube.
Sarandos afirmou que ‘O YouTube não é mais apenas conteúdo gerado pelo usuário e vídeos de gatos’. Ele destacou que ‘A televisão não é mais o que assistíamos quando éramos crianças’, citando exemplos como o Oscar e a NFL sendo transmitidos no YouTube e o Super Bowl em plataformas de streaming.
Ele também mencionou a forte concorrência de outras empresas de tecnologia no setor de entretenimento. ‘A Amazon é dona da MGM. A Apple está competindo pelo Emmy e pelo Oscar, e o Instagram é o próximo passo’, disse Sarandos, sublinhando que ‘Eles são a TV. Portanto, todos nós competimos com eles em todas as dimensões: por talentos, por verbas publicitárias, por assinaturas e por todos os tipos de conteúdo’.
Essa visão representa uma mudança drástica para a Netflix, que historicamente preferia ‘construir, não comprar’. A empresa reconhece que o cenário competitivo exige uma nova abordagem para se manter relevante e competitiva no mercado global de streaming.
O Potencial dos Ativos da Warner Bros. Discovery
Os co-CEOs da Netflix, Ted Sarandos e Greg Peters, expressaram grande entusiasmo com a aquisição. Eles revelaram que, inicialmente, não imaginavam fazer uma oferta pelos ativos da Warner Bros., mas o processo de due diligence revelou oportunidades empolgantes.
Peters destacou a adição de um negócio de exibição em cinemas ‘maduro e bem administrado, com filmes incríveis’. Essa é uma reversão da posição anterior da Netflix, que via os cinemas como um modelo ultrapassado em favor do streaming doméstico, mostrando a adaptabilidade da empresa.
Além disso, a marca HBO foi elogiada por Peters como ‘uma marca incrível’, sinônimo de ‘TV de prestígio’ e amplamente reconhecida pelos clientes. Ele também ressaltou que o estúdio de televisão da Warner é um negócio saudável que complementará e expandirá a capacidade de produção da Netflix.
A oferta pela Warner Bros. Discovery inclui estúdios de cinema e televisão, um extenso catálogo de conteúdo e grandes franquias de entretenimento, como ‘Game of Thrones’ e ‘Harry Potter’. Esses ativos são vistos como cruciais para o desenvolvimento e distribuição eficazes de conteúdo.
Desconfiança dos Investidores e Escrutínio Regulatório
Apesar da defesa da Netflix, os investidores não se mostraram totalmente convencidos. Após a divulgação de resultados que superaram marginalmente as estimativas, mas com perspectivas desanimadoras, as ações da empresa caíram quase 6% no pré-mercado desta quarta-feira, 21.
Analistas apontam que, embora a forte programação de conteúdo, incluindo a temporada final de ‘Stranger Things’, tenha impulsionado a receita, os altos custos associados à aquisição da Warner Bros. geram apreensão quanto ao retorno a longo prazo do investimento.
A Netflix já havia anunciado compromissos para um empréstimo-ponte de US$ 59 bilhões e, posteriormente, aumentou esse compromisso em US$ 8,2 bilhões para apoiar sua oferta em dinheiro de US$ 27,75 por ação. A empresa também suspenderá a recompra de ações e já incorreu em US$ 60 milhões em custos de financiamento.
O acordo de US$ 82,7 bilhões, que envolve uma disputa acirrada com a Paramount Skydance, deverá ser alvo de considerável escrutínio por parte de parlamentares e reguladores da concorrência. Há preocupações de que aquisições desse porte possam monopolizar o mercado e reduzir as opções para os consumidores.
Sarandos, no entanto, buscou amenizar essas preocupações, reiterando que o acordo seria ‘pró-consumidor’ e ‘pró-trabalhador’. Ele argumentou que as empresas adquiridas exigiriam novas equipes, proporcionando mais oportunidades para criativos e beneficiando a indústria como um todo, ao dar acesso a ‘100 anos de conteúdo e propriedade intelectual’.