A Promessa da Cunicultura: Como o Brasil Buscou se Tornar um Gigante na Produção de Carne de Coelho
Nas décadas de 1970 e 1980, o Brasil vislumbrou a possibilidade de se transformar em uma potência na produção de carne de coelho, impulsionado por uma intensa busca por fontes de proteína mais acessíveis e eficientes para alimentar sua crescente população. Em um cenário de desafios econômicos e de abastecimento, a cunicultura emergiu como uma alternativa promissora, capaz de atender tanto às necessidades internas quanto às demandas do mercado internacional, especialmente em um período de urbanização acelerada e crescente preocupação com a segurança alimentar.
Diversos programas estatais e iniciativas privadas foram lançados em todo o país, com o apoio do poder público em diferentes esferas. O objetivo era massificar a criação de coelhos, aproveitando suas características de fácil manejo, rápido crescimento, alta reprodução e excelente conversão alimentar, que o tornavam ideal para pequenos produtores e para a população urbana e rural de baixa renda. A ideia era democratizar o acesso à proteína de qualidade, oferecendo uma opção viável para milhões de brasileiros.
Contudo, apesar do entusiasmo inicial e dos vultosos investimentos, a expansão do setor não se consolidou. A falta de infraestrutura de abate, a resistência cultural dos consumidores brasileiros e a descontinuidade de políticas públicas cruciais levaram ao colapso dessa ambiciosa empreitada, relegando a produção de carne de coelho a um mercado de nicho e frustrando o potencial de exportação que se desenhava, conforme informações da fonte consultada para esta reportagem.
Incentivos Governamentais e o Sonho de uma Proteína Acessível
A percepção de que a carne de coelho poderia ser a solução para a demanda proteica do Brasil não era exclusiva de produtores e pesquisadores. O próprio governo federal e as administrações estaduais e municipais abraçaram a ideia, implementando uma série de programas de fomento. Esses incentivos visavam não apenas aumentar a produção, mas também capacitar a população, especialmente em regiões mais vulneráveis, a se beneficiar da cunicultura.
Em diversos estados, a ação governamental se manifestou por meio de empresas públicas de extensão rural. Essas entidades organizavam cursos, distribuíam cartilhas técnicas detalhadas e ofereciam consultoria especializada para a instalação de pequenos criatórios familiares. O foco era democratizar o acesso ao conhecimento e às técnicas de criação, permitindo que famílias em áreas rurais de subsistência pudessem gerar renda e garantir sua própria alimentação com uma fonte de proteína de alto valor nutricional.
Um exemplo notável ocorreu em São Paulo, onde prefeituras do Vale do Paraíba criaram projetos municipais de apoio à atividade. Essa região, com sua vocação agrícola, viu na cunicultura uma forma de diversificar a produção e fortalecer a economia local. A primeira cooperativa de cunicultores do estado, por exemplo, recebeu apoio técnico fundamental da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (Apta) e de cursos vinculados à Universidade do Estado de São Paulo (Unesp), demonstrando o engajamento de instituições de pesquisa e ensino na formação de uma base sólida para o setor.
Em Pernambuco, a capital Recife lançou em 1980 o