A inteligência artificial (IA) dominou as discussões na maior feira global do setor de varejo, a Retail’s Big Show, promovida pela Federação Nacional do Varejo dos Estados Unidos (NRF), em Nova York. Mais de 40 mil pessoas e 1.025 expositores participaram do evento, que tradicionalmente aponta as tendências para o futuro do comércio.
Executivos de destaque alertaram que a adaptação à IA no varejo não é mais uma opção, mas uma necessidade crítica. Lojas que falharem em integrar a tecnologia em suas operações e estratégias de marketing correm o sério risco de desaparecer do cenário competitivo.
A mensagem central é clara: o varejo está em um ponto de inflexão. A forma como clientes e empresas interagem está sendo remodelada pela IA, conforme informações divulgadas pelos principais participantes da feira.
A Nova Batalha pela Visibilidade Digital
A era das palavras-chave está se transformando. Agora, a visibilidade online depende da capacidade de uma marca ser encontrada por meio de comandos em linguagem natural usados em plataformas de IA, como o Gemini do Google.
Debra Langsley, investidora de risco e conselheira da NRF, enfatizou a importância dessa mudança. Ela disse: “Se os clientes pesquisam usando IA e comandos em linguagem natural, e seus dados não estão prontos para serem descobertos imediatamente na experiência Gemini, você não aparecerá.”
Langsley adicionou um alerta crucial, “E se você não aparece, não vira uma opção e não entra na disputa.” Ela destacou que as empresas precisam agora “taguear nossos dados com o tipo de texto que um cliente usaria para fazer uma busca em uma plataforma de IA”.
O Google, ciente dessa transformação, anunciou na feira o Universal Commerce Protocol (UCP), um novo recurso que promete revolucionar as vendas. Ele permite que o cliente complete toda a jornada de compra diretamente pela ferramenta de IA Gemini, transformando o Google em um ponto de conclusão de pagamento, além de ser um mecanismo de busca.
A Experiência do Cliente Repaginada pela IA
A adaptação à IA no varejo também se manifesta na interação com o consumidor. Fred Trajano, CEO do Magazine Luiza, compartilhou sua visão sobre a evolução da Lu do Magalu, sua influenciadora digital criada há 20 anos.
Trajano explicou que, ao criar a Lu em 2004, sua intenção era levar o “calor humano” da fundadora, sua tia Luíza, para o ambiente online, mas a tecnologia da época não permitia essa profundidade. Com a expansão dos agentes de IA e a chegada dos LLMs (modelos de inteligência artificial treinados para compreender e gerar linguagem humana), a tecnologia se tornou mais assertiva.
O CEO do Magalu afirmou que “Finalmente a Lu agora pode fazer o que minha tia Luiza fazia 60 anos atrás, que é atender o cliente proporcionando uma experiência não só sem fricção, que é o que acontece na internet, mas encantadora, que só era possível no varejo físico. Ou só era até agora.” Este avanço ilustra o potencial da IA para humanizar e otimizar o atendimento ao cliente.
IA para Otimização Interna e Produtividade
Além da interação direta com os clientes, a IA está sendo amplamente utilizada para otimizar processos internos nas empresas. Newton Ribeiro, sócio e conselheiro do empório Casas Pedro, destacou como a varejista do Rio de Janeiro tem se beneficiado da IA na coleta e análise de dados.
Ribeiro explicou que as ferramentas de inteligência artificial estão substituindo os “BIs clássicos”, que são painéis tradicionais de análise de dados com relatórios pré-configurados. Ele exemplificou: “Ao analisar e consultar os resultados deste Natal em relação ao do ano passado, por exemplo, se vendemos mais bacalhau ou menos e as margens, em vez de usar os BIs clássicos, usamos uma plataforma similar a um ChatGPT interno.”
Essa abordagem torna a consulta de dados “muito mais intuitiva e facilita as consultas”, demonstrando como a adaptação à IA no varejo pode aprimorar a eficiência operacional e a tomada de decisões estratégicas.
IA e o Impacto no Mercado de Trabalho: Mitos e Realidades
Apesar das preocupações sobre o impacto da IA no mercado de trabalho, empresários presentes na feira defenderam os ganhos de produtividade das novas tecnologias, rechaçando a ideia de demissões em massa no setor varejista.
Erlon Ortega, presidente da Apas (Associação Paulista de Supermercados), descartou essa possibilidade. Ele afirmou: “Pelo contrário, acho que isso é até uma lenda. O setor, só no estado de São Paulo, tem 37 mil vagas abertas hoje.”
Ortega concluiu que “A IA vem para ajudar na produtividade, para ajudar na complexidade do varejo e melhorar a expansão dos nossos negócios.” Fred Trajano também ecoou essa visão, indicando que o objetivo inicial não é reduzir postos de trabalho, mas sim aumentar a produtividade e a receita por funcionário, um caminho que a adaptação à IA no varejo parece pavimentar.