O século XXI tem sido palco de profundas transformações, desde conflitos globais e pandemias até o surgimento de novas potências. Em meio a este cenário turbulento, uma tecnologia em particular desponta com o potencial de reescrever as regras da sociedade.
A Inteligência Artificial, antes restrita à ficção, evoluiu de uma ferramenta para responder perguntas e vencer jogos para um “gênio em cada bolso”, capaz de oferecer feedback instantâneo e moldar decisões em diversas áreas. Este avanço sem precedentes desencadeou um boom de investimentos, com empresas de tecnologia alcançando valores trilionários e governos lutando para acompanhar o ritmo.
Mas, como essa revolução tecnológica, comparável aos saltos da prensa tipográfica ou da bomba atômica, irá remodelar fundamentalmente a nossa existência? O investidor Misha Saul, em artigo publicado em kvetch.au, arrisca oito previsões de como a Inteligência Artificial transformará o mundo.
Escala Inédita e a Nova Arquitetura de Poder Impulsionada pela IA
A Inteligência Artificial está inaugurando uma era de escala sem precedentes, onde empresas trilionárias e indivíduos de “hiperagência de elite” exercerão um poder global inimaginável. Isso se deve à capacidade da IA de colapsar os custos de transação, eliminando a fricção na contratação e coordenação.
Essa transformação resultará em uma bifurcação do poder, com algumas entidades escalarão muito além dos limites históricos, coordenadas por sistemas inteligentes em vez de gerentes. Ao mesmo tempo, pequenos grupos e até indivíduos terão acesso a capacidades que antes eram exclusivas de grandes instituições.
Embora não dissolva os Estados-nação, a Inteligência Artificial também fortalecerá os governos, equipando-os com novas ferramentas de vigilância, automação e robótica. Isso sugere uma complexa teia de poder onde gigantes tecnológicos e Estados se adaptam e se potencializam mutuamente.
A Homogeneização Cultural e a Fragmentação da Realidade na Era Digital
O século XXI já testemunhou uma Grande Homogeneização Cultural Global impulsionada pelos smartphones e plataformas digitais. A Inteligência Artificial acelerará ainda mais esse processo, permitindo que criadores alcancem audiências vastas por meio da tradução instantânea de conteúdo para qualquer idioma.
Essa capacidade da Inteligência Artificial de unir línguas, paradoxalmente, mascara uma fragmentação mais profunda da realidade. Ela personalizará a “verdade” para cada indivíduo, criando “alucinações sob medida” dentro de bolhas algorítmicas, corroendo a autoridade institucional e a noção de uma realidade compartilhada.
Nesse cenário, a confiança se restringe a um círculo estreito de vozes humanas reconhecidas como reais. Além disso, o aumento da riqueza e do lazer proporcionado pela Inteligência Artificial fluirá para bens de status, como imóveis premium, cuja escassez gera uma competição de soma zero, elevando seus preços a patamares antes impensáveis.
Conflitos de Baixo Nível e o Fim Inevitável da Privacidade
Com o declínio da Pax Americana, impulsionado em parte pelas novas dinâmicas da Inteligência Artificial, espera-se um aumento nos conflitos locais e de baixo nível. A interdependência econômica global e a relutância em sacrificar populações jovens tornam guerras de larga escala menos prováveis entre as grandes potências.
Os conflitos tenderão a ser regionais, com governos cada vez mais voltados para questões internas. A Inteligência Artificial tornará o controle narrativo ainda mais crítico em um mundo de realidades virtuais dominantes, e o custo de operações cibernéticas e ataques de drones de baixo nível cairá drasticamente.
Paralelamente, a Inteligência Artificial conduzirá ao fim da privacidade como a conhecemos. Agentes de IA, ao atender chamadas e personalizar decisões, coletarão todas as informações “externamente cognoscíveis” sobre os indivíduos. Governos e atores mal-intencionados buscarão e utilizarão esses dados.
Embora a manifestação disso possa variar culturalmente, a vigilância no local de trabalho, por exemplo, se tornará um subproduto natural dos ecossistemas de Inteligência Artificial. A maioria das pessoas, provavelmente, se adaptará e aceitará essa nova realidade com resignação.
A Crise da Agência Moral, o Resurgimento da Fé e o Inalterável Essencial Humano
A Inteligência Artificial intensificará a crise da agência moral, introduzindo uma era de “agência delegada”. Quando sistemas de IA tomam decisões e agem em nosso nome, e os humanos apenas supervisionam sem escolher ou explicar significativamente, a responsabilidade se torna difusa e a qualificação moral diminui.
Isso criará uma nova divisão de classes: os “decisores”, que reservam o julgamento humano para si, e os “delegadores”, que vivem dentro de arquiteturas de escolha automatizadas. O arbítrio humano se tornará um luxo, aprofundando um mal-estar espiritual e impulsionando a busca por sentido e responsabilidade.
Nesse contexto, a Inteligência Artificial contribuirá para a ascensão de profetas e novas comunidades de fé. Em um mundo de confiança fragmentada e massas digitalmente imersas, grupos “desconectados” proliferarão, e a “nova fronteira virtual” dará origem a líderes que oferecerão curas para essa inquietação espiritual.
Apesar de todas as transformações, a Inteligência Artificial não poderá substituir o núcleo inalterável da experiência humana: a necessidade de uma vida interior rica, a intimidade física, o cuidado com o corpo e a alegria de ter e criar filhos. Essas são as apostas de longo prazo, as experiências que a IA não pode replicar, mantendo-se como os pilares essenciais da nossa existência.