A frase de Monteiro Lobato, “Quem mal lê, mal fala, mal ouve, mal vê”, ecoa com uma urgência surpreendente em nosso tempo hiperconectado. A leitura, um pilar fundamental para o desenvolvimento cognitivo e social, tem perdido espaço de forma alarmante no cotidiano das pessoas.

Em contrapartida, somos constantemente bombardeados por estímulos visuais, vídeos curtos e um fluxo incessante de informações fragmentadas. Essa mudança radical em nossos hábitos digitais está redesenhando não apenas a forma como consumimos conteúdo, mas a própria estrutura de nossa capacidade de atenção e compreensão.

Os efeitos desse cenário vão muito além do simples desinteresse por livros. Eles moldarão nossa realidade futura, impactando desde o desempenho educacional até a capacidade de interpretar o mundo, conforme dados recentes da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, por exemplo.

O Cenário da Leitura no Brasil: Dados Preocupantes

O Brasil enfrenta um declínio preocupante no hábito de leitura. A 6ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, lançada no final de 2024, revelou que o país perdeu quase 7 milhões de leitores entre 2021 e 2024. Isso representa uma inversão histórica, com 53% dos entrevistados afirmando não ter lido sequer parte de um livro nos três meses anteriores à pesquisa, marcando a primeira vez com mais não-leitores do que leitores.

Se considerarmos apenas livros inteiros lidos no mesmo período, o percentual de leitores cai para apenas 27% dos brasileiros, conforme detalhado pela pesquisa. Essa queda abrupta não ocorre isoladamente, mas em paralelo a uma transformação radical em nossos hábitos digitais nas últimas duas décadas.

Smartphones se tornaram uma extensão indispensável do corpo humano, redefinindo instantaneamente a comunicação, finanças, compras e entretenimento. A palavra “instantaneamente” se tornou um pilar do estilo de vida contemporâneo, caracterizado também por ser fugaz, efêmero e, por vezes, temerário.

A Ascensão da Instantaneidade e Seus Efeitos Cognitivos

O consumo de entretenimento reflete essa instantaneidade, onde a leitura de textos longos foi substituída por vídeos de poucos segundos, frases soltas e manchetes descontextualizadas. Plataformas digitais são projetadas para maximizar o engajamento imediato, não a compreensão profunda, bombardeando-nos com informações rápidas e superficiais.

Embora a instantaneidade dos hábitos digitais seja inegavelmente agradável, estudos recentes apontam que esse modelo de consumo afeta diretamente nossa capacidade de atenção sustentada. Vídeos curtos, consumidos em sequência, ativam mecanismos de gratificação rápida no cérebro, reforçando um padrão de estímulo-resposta que dificulta o engajamento prolongado com uma única ideia ou texto.

A psicóloga Andreia Vieira observa em seus atendimentos clínicos uma crescente necessidade de estímulos visuais entre os pacientes. Ela alerta que, em crianças e adolescentes, esse comportamento pode levar a um desenvolvimento cerebral com padrões que comprometem o controle da impulsividade, a regulação emocional e o planejamento. Esse quadro pode evoluir para a dependência de telas.

Os sintomas de dependência de telas, conforme explicado pela psicóloga em entrevista ao New in Town, incluem: “Falta de paciência para tarefas simples, dificuldade em ler textos mais extensos, ansiedade quando não se tem o celular por perto, sensação de estar sempre ocupado mas sem produtividade real, alterações no sono e mudanças na forma como nos relacionamos”. É crucial entender que a tecnologia não é o problema, mas sim como certos formatos treinam o cérebro para a dispersão contínua, tornando a leitura profunda uma atividade árdua.

Consequências Educacionais e Sociais do Declínio da Leitura

O impacto do excesso de telas e da diminuição da leitura é claramente visível nos indicadores educacionais. No Brasil, além da queda no hábito de leitura, textos longos são cada vez menos acessados, mesmo em ambientes escolares. Em 2023, um dado alarmante revelou que 66% dos alunos brasileiros de 15 e 16 anos nunca haviam lido um texto inteiro com mais de 10 páginas.

Nos Estados Unidos, avaliações nacionais indicam que estudantes do ensino médio apresentam os piores níveis de compreensão leitora em três décadas. Segundo a equipe do The Learning Network, do The New York Times, os próprios estudantes apontaram a “perda de aprendizagem durante a pandemia, a carga de trabalho esmagadora do ensino médio moderno, a queda dos padrões acadêmicos e, acima de tudo, o puxão implacável das telas, que, nas palavras deles, dizimou a capacidade de atenção” como fatores para esse desempenho.

A dificuldade em acompanhar argumentos complexos, interpretar textos densos ou manter a atenção durante leituras prolongadas é uma realidade. Ler pouco não significa apenas conhecer menos palavras, mas desenvolver menos habilidades cognitivas fundamentais, como interpretação, inferência, comparação de ideias e abstração. A leitura profunda é um exercício intelectual completo que fortalece o aprendizado como um todo.

Uma pesquisa da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) reforça a gravidade da situação, mostrando que 67% dos estudantes brasileiros não conseguem diferenciar fatos de opiniões em textos. A organização atribui parte dessa dificuldade ao excesso de informações em rede e à sua fragmentação excessiva, que impacta diretamente a capacidade de leitura crítica.

O Valor Inegável da Leitura Profunda em um Mundo Digital

Uma sociedade que lê pouco tende a pensar de forma mais fragmentada, trocando argumentos complexos por slogans e análises aprofundadas por opiniões instantâneas. A realidade é consumida em pedaços, frequentemente emocionais e incompletos, em vez de ser interpretada de forma holística.

Isso tem implicações diretas na vida pública. A política contemporânea, por exemplo, é cada vez mais moldada por vídeos virais e frases de impacto, e menos por debates estruturados. Cidadãos com baixa capacidade de leitura crítica tornam-se mais vulneráveis à desinformação, manipulação emocional e a explicações simplistas para problemas complexos, levando a decisões superficiais.

No mercado de trabalho, a exigência por aprendizado contínuo, interpretação de informações e adaptação a cenários complexos é constante. Profissionais que não conseguem ler criticamente relatórios, contratos ou dados técnicos encontram maiores dificuldades para se qualificar e progredir, comprometendo não apenas a formação cultural, mas a autonomia intelectual do indivíduo.

Não se trata de demonizar a tecnologia ou desejar um retorno a um passado analógico. A questão fundamental é reconhecer a necessidade de preservar hábitos cognitivos essenciais, como a leitura profunda. Sem ela, nossa capacidade de interpretar a realidade se empobrece, e a falha na interpretação, inevitavelmente, leva à falha na ação. A sabedoria de Monteiro Lobato permanece atual: quem mal lê, de fato, mal fala, mal ouve, mal vê, tornando a boa leitura uma condição para compreender e transformar o mundo que nos cerca.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Você também pode gostar

Michelle Bolsonaro Revela Tonturas de Jair e Alerta para Risco Real de Nova Queda, Cobrando Assistência Médica Urgente em Cela da PF

Ex-primeira-dama Expressa Preocupação com Saúde de Bolsonaro A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro utilizou…

Prisão de Nicolás Maduro por Donald Trump: Relação de Lula com o Ditador Vem à Tona e Agita Cenário Político Brasileiro

A recente prisão do ditador venezuelano Nicolás Maduro, por ordem do ex-presidente…

Petróleo, Espionagem e o Escudo Cubano: Como Havana Mantém Maduro no Poder na Venezuela e Sua Estratégia Oculta

A Profunda Ligação entre Cuba e a Venezuela: Petróleo, Espionagem e a…

Reforma Tributária: Como Estados e Municípios Reconfiguram seu Papel e a Autonomia Fiscal com o Novo IBS

A Nova Reforma Tributária Brasileira e o Impacto Direto em Estados e…