Em 2019, a vice-ministra das Relações Exteriores de Cuba, Joana Tablada, negou veementemente a presença de militares cubanos na Venezuela. Ela classificou as alegações como caluniosas e ofensivas, afirmando que “Cuba não participa com pessoal em operações militares ou de segurança na Venezuela”.
Contudo, a realidade por trás dessa declaração veio à tona de forma inesperada. O governo de Havana decretou dois dias de luto oficial pelas mortes de mais de 30 membros de seus ministérios do Interior e das Forças Armadas, em um confronto em solo venezuelano.
Este reconhecimento, antes impensável, expõe a complexa teia de apoio que Cuba sustenta Maduro, uma aliança forjada com armas, silêncio e, crucialmente, petróleo barato, conforme informações divulgadas pela Aceprensa.
A Presença Cubana em Solo Venezuelano e Seus Custos
A presença militar cubana em solo estrangeiro tem um histórico. Em certos casos, como na guerra em Angola contra o apartheid, houve justificativas morais que levaram à queda do sistema segregacionista. No entanto, na Venezuela, a presença cubana serviu para sustentar um regime que, segundo a Aceprensa, extorquiu e roubou as liberdades de seus cidadãos, forçando mais de oito milhões ao exílio.
A tradicional propaganda oficial cubana retrata suas forças especiais de segurança como uma muralha impenetrável, capaz de frustrar centenas de tentativas de assassinato contra Fidel Castro e de realizar missões arriscadas no exterior. Tudo isso, normalmente, sem que a palavra “Cuba” apareça explicitamente.
Neste caso, porém, a carnificina desencadeada pela Força Delta dos Estados Unidos foi de tal magnitude que Havana optou por não se esquivar da responsabilidade. O governo cubano reconheceu a presença de seus agentes em Caracas, declarando que eles “estavam realizando missões (…) a pedido de agências congêneres no país sul-americano”.
O jornalista cubano Carlos Cabrera, que conversou com duas fontes com conhecimento do assunto na ilha, explicou à Aceprensa que o desastre de 3 de janeiro pode ter tido origem “em um relaxamento da vigilância lógica que uma força de segurança deve manter em quaisquer circunstâncias”.
Contrariamente ao que alguns meios de comunicação afirmam, os cubanos não faziam parte do círculo íntimo de segurança de Maduro “por prudência”. Eles atuavam como assessores de contraespionagem e inteligência, não como guarda-costas diretos, nos círculos secundários de segurança.
Segundo as fontes consultadas por Cabrera, o aparato de segurança que cercava o presidente venezuelano “interpretou mal” os sinais do que estava por vir. Eles depositaram toda a sua confiança no sistema fortificado, não alteraram substancialmente sua rotina e foram incapazes de detectar a aproximação dos helicópteros da Força Delta.
Há relatos extraoficiais, inclusive, da captura de prisioneiros cubanos feridos, que estariam sendo tratados e interrogados nos EUA neste momento. “Eles fizeram uma avaliação incorreta do teatro de operações, e o desastre foi completo”, conclui Cabrera.
O Petróleo como Motor da Aliança Estratégica
Diante da destruição e dos vestígios do confronto, o governo cubano retoma a antiga narrativa da prontidão de suas forças para retornar “com o escudo ou sobre o escudo”, como fizeram em Granada em 1983. Naquela época, os objetivos eram mais ideológicos, visando estabelecer um bastião do progressismo global no Caribe.
Na Venezuela, no entanto, desde a ascensão do chavismo no final da década de 1990, a presença de agentes cubanos tem se concentrado em manter um país que passou a ocupar o papel de fornecedor estável de combustível barato. Este petróleo venezuelano para Cuba é retribuído com serviços médicos, educacionais e, crucialmente, assessoria militar e de inteligência.
Os fortes laços políticos e econômicos entre Havana e Caracas foram estabelecidos no Acordo de Cooperação Abrangente, assinado por Fidel Castro e Hugo Chávez em outubro de 2000. O acordo previa um crescente intercâmbio de bens e serviços, com Cuba contribuindo com médicos e tecnologia, e a Venezuela fornecendo seu petróleo, inicialmente mais de 50 mil barris por dia, a preços vantajosos.
Essa colaboração expandiu-se ao longo dos anos, ajudando a ilha a sanar muitas lacunas e a mitigar os danos causados pelo embargo dos EUA. Conforme escreveu o economista cubano-americano Carmelo Mesa-Lago, a ajuda econômica e os subsídios de preços da Venezuela, estimados em US$ 100 bilhões entre 2005 e 2017, foram essenciais.
Com o tempo, porém, os embarques de petróleo bruto venezuelano começaram a diminuir. A indústria petrolífera se deteriorava sob má gestão e sofria os impactos das sanções de Washington contra Caracas.
O economista cubano Omar Everleny Pérez Villanueva, ex-diretor do Centro de Estudos da Economia Cubana da Universidade de Havana, afirmou à Aceprensa que as importações de combustível “têm diminuído nos últimos anos”.
“Não estamos falando da era Chávez, quando o país era abastecido com cerca de 98 mil barris por dia”, explicou Everleny. “Em 2024, esse número já havia caído para cerca de 38 mil barris, e, em 2025, a média nunca ultrapassou 30 mil. Houve meses em que chegou a ser de apenas 18 mil barris por dia.”
Comparado aos volumes de duas décadas atrás, o número mais recente é quase insignificante para Havana, mas ainda é vital para Cuba sustentar Maduro e evitar uma crise ainda mais profunda. “Os 32 cubanos que acabaram de morrer morreram por causa do petróleo”, disse Everleny à CNN, destacando o verdadeiro custo do apoio de Cuba à Venezuela.
O “Modelo Delcy” e o Futuro Incerto de Cuba
Com a decisão de Donald Trump de assumir o governo venezuelano pós-Maduro, a situação se torna ainda mais complicada para Havana. A Casa Branca já deixou claro para a “presidente interina”, Delcy Rodríguez, que ela deve cortar o fluxo de ajuda a Cuba.
Quando questionado se Cuba seria o próximo alvo do Pentágono, o presidente Trump respondeu que, com a remoção de Maduro, o sistema cubano entraria em colapso sem a necessidade de intervenção militar.
A questão que se coloca é se os EUA, que preferiram não decapitar abruptamente a liderança chavista para evitar o caos na Venezuela, se beneficiariam de um colapso repentino do governo do Partido Comunista Cubano. Apesar de Cuba ser um espinho no flanco de Washington desde 1959, os EUA mantêm o controle das fronteiras marítimas, impedindo grandes ondas migratórias em direção à Flórida, que está a apenas 145 quilômetros de distância.
Em uma Cuba em turbulência, sem lei nem ordem, o êxodo de embarcações de todos os tipos rumo ao norte seria imparável, mesmo para a Força Delta. Isso representa um desafio significativo para a segurança regional.
O advogado e cientista político cubano Roberto Veiga, membro do Diálogo Interamericano, observa que o entendimento entre Trump e os setores linha-dura do chavismo “sugere um possível padrão de ação dos EUA no Hemisfério Ocidental e um modelo de resposta que Washington poderia esperar dos governos latino-americanos”.
Em sua opinião, sob a nova realidade, é possível que Havana seja forçada a fazer mudanças significativas, mas essas transformações não levariam automaticamente a uma abertura democrática. “Nada garante que essas transformações resultarão no estabelecimento do Estado de Direito, na centralidade dos direitos humanos e na democracia política”, afirma Veiga.
As hegemonias que estão sendo reconfiguradas hoje parecem ser guiadas por “três prioridades fundamentais: a economia, o controle e o poder”. Se essas lógicas já permitem a cooperação entre setores linha-dura do chavismo e o governo Trump, também não é implausível que possa se estender a setores do castrismo sob certas condições.
Por ora, o novo governo venezuelano não falou em romper relações com a ilha nem em reduzir ainda mais o já escasso fluxo de petróleo bruto, o que mergulharia Cuba em uma catástrofe total.
Omar Everleny destaca que “teoricamente, as relações deveriam ser mantidas, porque é um governo que vem de Chávez, e Delcy é 100% chavista”. No entanto, ele alerta que os EUA “vão exercer uma pressão muito intensa: vão exigir uma certa quantidade de petróleo e a interrupção do fornecimento a Cuba. E isso seria fatal”.
Ainda não há indícios claros de uma ruptura nas relações entre Caracas e Havana, mas, se elas se romperem, Cuba não terá muitas alternativas para receber petróleo. Além disso, a interrupção do fornecimento de serviços médicos cubanos à Venezuela seria muito difícil de substituir por outro país. O tabuleiro foi embaralhado, e Havana ainda não sabe bem como reorganizar suas peças.