Uma nova e preocupante tendência tem ganhado força nas redes sociais, onde a tecnologia de óculos smart se transforma em um instrumento para a criação de conteúdo viral questionável.
Vídeos que registram interações constrangedoras ou provocações, muitas vezes sem o conhecimento das pessoas filmadas, estão acumulando milhões de visualizações no TikTok e Instagram.
Esse fenômeno, que levanta sérias questões sobre consentimento e privacidade, ganhou destaque meses após o lançamento da segunda geração dos Ray-Ban Meta no Brasil, conforme levantamento da Mashable.
A Ascensão dos Conteúdos Virais e a Gravação Discreta
Os óculos smart, projetados para ampliar a experiência digital, estão sendo explorados por criadores de conteúdo de maneiras que desafiam a ética. A capacidade de gravação quase imperceptível desses dispositivos permite a captura de imagens em locais públicos sem que as pessoas percebam.
De acordo com a Mashable, essa funcionalidade tem sido usada para produzir vídeos de “pegadinhas”, abordagens forçadas e situações que geram desconforto, tudo para gerar reações espontâneas e virais nas redes sociais.
O grande problema reside na ausência de consentimento. Muitas das pessoas filmadas só descobrem que fizeram parte de um conteúdo viral após ele já ter sido publicado e atingido milhares de visualizações.
De Pegadinhas a Conteúdos Ofensivos: Os Limites da Ética
A situação se agrava com a natureza de alguns desses conteúdos. Há registros de assédio a mulheres, provocações a trabalhadores do setor de serviços e até encenações ofensivas, onde criadores fingem pertencer a grupos vulneráveis para gerar reações e monetizar a atenção.
A lógica é simples: criar uma situação propositalmente estranha em um espaço público para capturar reações. Contudo, essa prática ignora completamente o direito à imagem e à privacidade dos indivíduos.
Em casos mais graves, perfis têm registrado imagens com conotação sexual ou exploratória, frequentemente direcionadas a mulheres, e monetizado esse material em outras plataformas. A Meta, fabricante do Ray-Ban Meta, informou que já desativou algumas dessas contas por violação de suas políticas internas.
Legislação em Debate: Brasil e Estados Unidos
A legalidade dessas gravações varia significativamente entre os países. Nos Estados Unidos, onde muitos desses virais foram registrados, a legislação permite a gravação em espaços públicos, o que limita as possibilidades de responsabilização legal, mesmo quando o conteúdo gera constrangimento ou exploração.
No Brasil, a abordagem é mais rigorosa. O artigo 20 do Código Civil proíbe a exposição da imagem de uma pessoa sem autorização, especialmente se for para fins comerciais ou se afetar a “honra e a boa fama” do indivíduo.
Isso significa que, em território brasileiro, a conduta de gravar e expor pessoas sem consentimento pode resultar em processos por danos morais, oferecendo uma camada de proteção legal às vítimas desses conteúdos indesejados.