Imagine um local de encontro social vibrante, onde pessoas se reúnem para relaxar, conversar e até fazer negócios, mas onde a higiene era uma preocupação secundária. Essa era a realidade dos primeiros banheiros públicos na Itália, antes da chegada do Império Romano.
Longe de serem os oásis de limpeza que poderíamos imaginar, esses espaços, apesar de sua importância social, operavam sob condições sanitárias que hoje seriam consideradas inaceitáveis. A água era escassa e a renovação, insuficiente, transformando o que deveria ser um banho em um caldo de contaminação.
Um estudo recente da Universidade de Mainz, na Alemanha, lançou luz sobre essa realidade chocante, revelando detalhes sobre a qualidade da água e os hábitos de higiene nos banhos de Pompeia, um dos berços desses complexos sociais.
A Origem e a Precariedade dos Banhos Antigos
A concepção de banheiros públicos surgiu cedo em algumas regiões da Itália, fortemente influenciada pela cultura grega. Contudo, esse sistema só se tornou verdadeiramente eficiente e higiênico após a consolidação do domínio romano na região.
Com o passar do tempo, esses banheiros ganharam popularidade, transcendendo sua função inicial de higiene pessoal. Eles se tornaram importantes pontos de encontro, integrando a vida social, cultural e até política das cidades antigas.
Pompeia, localizada a aproximadamente 250 quilômetros de Roma, destacou-se como uma das cidades pioneiras nesse modelo. Por um longo período, a cidade esteve sob o controle dos samnitas, um povo com cultura própria que construiu espaços de prestígio, como os Banhos Estábios e os Banhos Republicanos.
Essas estruturas eram notáveis e atraíam a população, oferecendo acesso gratuito ou mediante uma pequena taxa. Os complexos eram bem divididos, com ambientes que iam desde vestiários até piscinas de água fria e quente, uma inovação para a época.
A Chocante Realidade da Higiene em Pompeia
Apesar da proposta inovadora, a higiene ficava em segundo plano nesses antigos banheiros públicos. O estudo da Universidade de Mainz analisou os depósitos de carbonato para entender o funcionamento dos banhos em Pompeia, focando na qualidade da água utilizada.
A análise da água da piscina termal dos Banhos Republicanos revelou baixos valores de isótopos estáveis de carbono, um indicador claro da presença abundante de matéria orgânica. Isso sugeria uma contaminação significativa no ambiente.
Em muitos casos, a água provinha de poços, o que tornava o abastecimento um processo lento e laborioso. Os pesquisadores estimam que a água das piscinas era renovada apenas uma ou duas vezes por dia, uma frequência insuficiente para atender a toda a população da cidade, favorecendo a proliferação de impurezas.
Além da pouca renovação da água, a prática de limpeza corporal era bem diferente da atual. Não havia sabonetes, e a higiene era feita com a aplicação de óleo sobre a pele, seguida pela raspagem com um instrumento metálico para remover suor e sujeira. Esses resíduos iam diretamente para a água das piscinas.
Para agravar ainda mais o problema sanitário, era comum urinar nas piscinas, contribuindo significativamente para a contaminação. O cenário era, portanto, de um ambiente de banho onde óleo e xixi se misturavam em uma água raramente trocada.
A Revolução Romana: Aquedutos e Água Abundante
O panorama da higiene nos banheiros públicos começou a mudar drasticamente quando os romanos assumiram o controle de Pompeia. A solução encontrada foi um investimento massivo na construção de aquedutos, grandes obras de engenharia que transportavam água de fontes distantes.
A construção de um aqueduto não era apenas uma prioridade prática, mas também uma questão de prestígio para as cidades romanas. A posse de um aqueduto sinalizava o poder e a capacidade de engenharia de uma localidade, incentivando outras a seguir o exemplo.
Essa infraestrutura foi crucial para reduzir a insalubridade dos banheiros públicos. Estima-se que os aquedutos forneciam cerca de 167 mil litros de água por hora a Pompeia. Este volume era suficiente para evitar o reuso constante e garantir um abastecimento muito mais adequado para a higiene.
O novo sistema também ampliou o acesso à água potável na cidade. Anteriormente, muitos moradores dependiam da água da chuva, coletada em tanques ligados aos telhados das casas. Com os aquedutos, a água passou a circular pela cidade por meio de uma rede de canos.
O Legado Tóxico do Chumbo e a Evolução dos Materiais
Os canos utilizados pelos romanos para distribuir a água eram feitos de chumbo, um material que, para a engenharia da época, parecia ideal devido à sua maleabilidade e durabilidade. Contudo, o chumbo é altamente tóxico e podia contaminar a água, um problema que só seria plenamente compreendido e corrigido muitos séculos depois.
Segundo os pesquisadores, a população mais pobre, que dependia diretamente do sistema público de distribuição de água, foi a mais afetada pela contaminação. Já a elite tendia a sofrer menos, pois frequentemente utilizava a água da chuva armazenada em suas próprias residências.
A elite de Pompeia vivia em melhor situação, pois morava em casas com grandes átrios e telhados inclinados para dentro, que canalizavam a água da chuva para cisternas, garantindo uma fonte de água potencialmente menos contaminada.
A percepção dos riscos associados ao chumbo surgiu lentamente ao longo do tempo. Gradualmente, alternativas mais seguras começaram a ser adotadas, como o uso de tubos feitos de cerâmica, pedra e argamassa para o transporte de água.
Com a queda do Império Romano, muitos sistemas de abastecimento entraram em colapso. A população voltou a depender de poços, cisternas e fontes naturais, o que resultou em um abandono involuntário dos canos de chumbo.
Séculos depois, com o crescimento das cidades e o avanço do conhecimento científico, o problema da contaminação por chumbo passou a ser tratado com a seriedade que merecia. Surgiram, então, materiais muito mais seguros e eficientes, como PVC, cobre e ferro galvanizado, que continuam sendo usados nos sistemas de água atuais.