Desigualdade no Acesso à Radioterapia: Norte do Brasil Enfrenta Barreira de 442 km
Pacientes com câncer na região Norte do Brasil precisam percorrer, em média, 442 quilômetros para ter acesso à radioterapia pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Essa distância é seis vezes maior do que a enfrentada por moradores da região Sul, que viajam cerca de 71 km para o mesmo tratamento. A disparidade no acesso a um dos pilares do tratamento oncológico foi destacada por um estudo multicêntrico internacional, publicado em fevereiro de 2026 na revista científica International Journal of Radiation Oncology.
A pesquisa analisou mais de 840 mil procedimentos realizados entre 2017 e 2022 em todo o país, evidenciando que mais de seis em cada dez pacientes precisaram se deslocar de seu município de residência para receber radioterapia. A distância média nacional para o tratamento foi de 120 km, mas os dados variam drasticamente entre as regiões, refletindo a concentração de serviços em centros urbanos maiores e a menor oferta em áreas extensas e com poucos recursos assistenciais.
Wilson José de Almeida Jr., presidente da Sociedade Brasileira de Radioterapia, ressalta a importância do estudo por ser nacional e publicado em uma revista de grande impacto, que evidencia a desigualdade no acesso à radioterapia no Brasil. Ele observa que, apesar do Brasil possuir o segundo maior parque radioterápico das Américas, a distribuição dos serviços é desigual, concentrando-se em grandes centros urbanos. As informações foram divulgadas em um estudo multicêntrico internacional publicado na revista International Journal of Radiation Oncology.
Disparidade Regional Chocante no Acesso à Radioterapia
A análise do estudo revela um panorama alarmante sobre a distribuição geográfica dos serviços de radioterapia no Brasil. Enquanto o Sul e o Sudeste apresentam médias de deslocamento de aproximadamente 71 km e 73,8 km, respectivamente, as regiões Nordeste (161,8 km), Centro-Oeste (238,9 km) e, de forma mais acentuada, o Norte (442,2 km) enfrentam distâncias significativamente maiores. Essa variação geográfica impacta diretamente o tempo, o custo e o desgaste físico e emocional dos pacientes e seus familiares.
Fábio Ynoe Moraes, médico radio-oncologista e um dos líderes da pesquisa, enfatiza que o local de residência do paciente se tornou um fator determinante para o acesso ao tratamento oncológico. “Esses números mostram que o CEP é um fator determinante para o acesso ao cuidado oncológico, impondo barreiras logísticas que impactam diretamente no tratamento e, consequentemente, nos desfechos clínicos”, afirma Moraes. A radioterapia, que geralmente exige sessões diárias por várias semanas, torna o deslocamento prolongado um fardo pesado.
O Impacto Logístico e Financeiro no Tratamento do Câncer
O deslocamento prolongado para realizar a radioterapia impõe desafios logísticos, financeiros e emocionais consideráveis aos pacientes. A necessidade de sessões diárias, que se estendem por semanas, força muitos a deixarem seus empregos, suas famílias e suas cidades de origem. Isso acarreta custos elevados com transporte, hospedagem e alimentação, além de um desgaste físico e psicológico significativo. Almeida Jr. destaca que essa dificuldade pode levar à interrupção do tratamento, impactando negativamente as chances de cura e a sobrevida dos pacientes.
A pesquisa aponta que mais de seis em cada dez pacientes precisaram sair de sua cidade para o tratamento, com a distância média nacional de 120 km. Essa realidade é ainda mais cruel para os moradores do Norte, que chegam a percorrer 442 km. O estudo também revela um déficit estimado de 300 aparelhos de radioterapia no país e que entre 40% a 50% dos aceleradores existentes estão obsoletos, com uma vida útil média de 15 anos, agravando o cenário de escassez e desigualdade.
Perfil Epidemiológico e Desigualdades Raciais no Acesso
O estudo também traçou um perfil detalhado dos pacientes que necessitam de radioterapia. Dos mais de 840 mil procedimentos analisados, 56% foram realizados em mulheres e 44% em homens. Em média, as mulheres viajaram 122,3 km, enquanto os homens percorreram 117,3 km. A análise por raça e cor revelou uma disparidade adicional: pacientes negros, pardos, indígenas e amarelos viajaram, em média, 145,6 km, enquanto pacientes brancos percorreram 97,3 km.
Segundo os pesquisadores, essa diferença está parcialmente ligada à maior concentração de serviços de saúde nas regiões mais desenvolvidas do país. A desigualdade territorial, portanto, se soma a outros fatores, reforçando o peso do local de moradia na determinação do acesso ao tratamento oncológico. Essa constatação sublinha a necessidade de políticas públicas que visem a equidade no acesso à saúde, independentemente da raça, cor ou local de residência.
Tecnologias de Ponta Concentradas: Ampliando o Abismo
A pesquisa não se limitou a analisar as distâncias percorridas, mas também avaliou os tipos de tratamento. A maior parte dos procedimentos foi de radioterapia com intenção curativa (75,7%), seguida por tratamentos paliativos (14,6%). No entanto, procedimentos mais complexos e de ponta, como braquiterapia, radioterapia estereotáxica e irradiação de corpo inteiro, representaram 9,2% dos casos e exigiram deslocamentos médios ainda maiores, de 165,8 km.
“Isso indica que, além da falta de unidades, há uma concentração de tecnologias de ponta em poucos centros, o que amplia as desigualdades para pacientes que precisam de terapias mais sofisticadas para aumentar suas chances de controle da doença e sobrevida”, explica Moraes. Essa concentração de recursos tecnológicos em centros específicos agrava o problema, pois pacientes que necessitam de tratamentos mais avançados enfrentam barreiras geográficas ainda maiores.
Desafios Futuros: Aumento de Casos e Obsolescência Tecnológica
O cenário da radioterapia no Brasil é desafiador e tende a se agravar. O país espera um aumento de 50% nos casos de câncer até 2045, e estima-se que cerca de 60% desses pacientes necessitarão de radioterapia. Soma-se a isso o problema da obsolescência dos equipamentos. Almeida Jr. menciona que cerca de 40% a 50% dos aceleradores lineares existentes estão obsoletos, com uma vida útil média de 15 anos, e há um déficit de aproximadamente 300 aparelhos no país.
O desafio para o sistema de saúde é, portanto, duplo: vencer a obsolescência tecnológica e combater a desigualdade regional. A expansão e a modernização do parque radioterápico, com planejamento estratégico para distribuição equitativa dos serviços, são cruciais para garantir que todos os brasileiros tenham acesso a um tratamento oncológico de qualidade, independentemente de onde residam.
Soluções e a Necessidade de Planejamento em Saúde Pública
Para enfrentar a crise na radioterapia, são necessárias políticas públicas robustas e um planejamento mais equilibrado da infraestrutura de saúde. A expansão da oferta de serviços, especialmente nas regiões mais carentes como o Norte, é fundamental para encurtar as distâncias percorridas pelos pacientes. Além disso, a atualização tecnológica e a ampliação do número de equipamentos são medidas urgentes.
Almeida Jr. destaca ainda a questão do reembolso dos tratamentos pelo SUS, que é o menor da América Latina. Essa baixa remuneração pode pressionar a sustentabilidade dos centros de alta complexidade e levar a um “apagão de profissionais” se não houver uma remuneração adequada. A garantia de financiamento suficiente e justo é um pilar essencial para a manutenção e expansão dos serviços de radioterapia no país.
Tipos de Câncer Mais Tratados e o Papel da Radioterapia
Os tipos de câncer mais tratados no período analisado pelo estudo foram mama, próstata, cabeça e pescoço, sistema digestivo, metástases ósseas e tumores ginecológicos, acompanhando o perfil epidemiológico nacional. A radioterapia desempenha um papel crucial no tratamento de diversas neoplasias, tanto em intenção curativa quanto paliativa, e sua disponibilidade e acessibilidade impactam diretamente os desfechos clínicos e a qualidade de vida dos pacientes oncológicos.
A necessidade de radioterapia é expressiva, com cerca de 60% dos pacientes com câncer necessitando deste tratamento. Diante da previsão de aumento de casos, a urgência em resolver as questões de acesso e infraestrutura se torna ainda maior. Garantir que a radioterapia esteja ao alcance de todos é um passo fundamental para oferecer um tratamento oncológico mais justo e eficaz em todo o território nacional.