Paraguai intensifica laços com EUA em busca de novo patamar econômico e segurança estratégica
O Paraguai tem intensificado sua aproximação com os Estados Unidos, aproveitando um cenário de maior presença americana na América Latina, impulsionado por sinalizações do ex-presidente Donald Trump. O país sul-americano busca capitalizar essa conjuntura para elevar seu já notável crescimento econômico a um novo patamar, com especial foco em áreas como minerais críticos, defesa e energia.
Essa renovada parceria entre o governo conservador do presidente Santiago Peña e a administração de Donald Trump, com ênfase em defesa e minerais estratégicos, tem o potencial de aumentar a visibilidade internacional do Paraguai e solidificar ainda mais seu desenvolvimento econômico, segundo especialistas. A estratégia paraguaia alinha-se a um plano mais amplo dos EUA de diversificar cadeias de suprimentos e reduzir a dependência da China.
A cooperação se estende à segurança, com acordos militares que permitem a presença de pessoal americano no país e um maior monitoramento de regiões sensíveis. O Paraguai também sinaliza alinhamento com os EUA ao designar facções brasileiras, como o PCC, como grupos terroristas, um passo que o governo brasileiro tem resistido em adotar. Essas ações refletem uma estratégia bilateral que visa fortalecer ambos os países em um contexto geopolítico e econômico em transformação, conforme informações divulgadas pelo Ministério das Relações Exteriores do Paraguai e outras fontes oficiais.
Parceria estratégica em minerais críticos: O plano para blindar a indústria americana
Um dos pilares da aproximação entre Paraguai e Estados Unidos reside na exploração de minerais críticos. O Paraguai aderiu a um plano estratégico da Casa Branca focado na extração de terras raras e outros minerais essenciais para a fabricação de tecnologias avançadas e equipamentos de defesa. O objetivo primordial dessa iniciativa americana é diminuir a dependência da China, principal fornecedora global desses materiais, e proteger a indústria dos EUA contra eventuais choques nas cadeias de suprimentos globais.
O Ministério das Relações Exteriores do Paraguai, em fevereiro, destacou o compromisso mútuo em intensificar a cooperação para garantir o fornecimento seguro desses minerais. A declaração oficial ressalta a importância desses elementos para o avanço tecnológico e o fortalecimento das bases industriais de ambas as nações. Essa colaboração posiciona o Paraguai como um parceiro estratégico fundamental para os Estados Unidos nesse setor vital.
Para viabilizar e atrair investimentos privados para a exploração desses recursos, o governo paraguaio está em processo de atualização de seu código de mineração. A descoberta de “indícios” da existência de elementos de terras raras no país, anunciada em janeiro pelo vice-ministro de Minas e Energia, Mauricio Bejarano, reforça o potencial paraguaio nesse mercado. A iniciativa visa criar um ambiente regulatório favorável e competitivo para investidores interessados no setor de mineração.
Acordo de Estatuto das Forças (SOFA): Cooperação militar e segurança na Tríplice Fronteira
No âmbito da segurança e defesa, o presidente Santiago Peña sancionou em março uma parceria militar estratégica com os Estados Unidos. Este acordo, conhecido como Acordo do Estatuto das Forças (SOFA, na sigla em inglês), permite o destacamento de militares americanos em missão no território paraguaio. A cooperação visa fortalecer a capacidade de ambos os países em lidar com desafios de segurança regional.
O SOFA estabelece que militares e funcionários civis do Departamento de Guerra dos EUA em missão no Paraguai permanecerão sob a jurisdição da justiça americana. O acordo também autoriza a circulação de tropas, equipamentos e aeronaves militares dos EUA no país, mediante notificação às autoridades paraguaias. Essa medida reforça a colaboração em treinamento, operações conjuntas e intercâmbio de informações.
Um dos objetivos centrais dessa nova parceria militar é intensificar a vigilância na região da Tríplice Fronteira, uma área conhecida pela atuação de grupos do crime organizado. A maior presença e capacidade de resposta conjunta podem ser cruciais para combater atividades ilícitas e garantir a segurança regional. Nesse contexto, o Paraguai deu outro passo em direção aos EUA ao designar facções brasileiras, como o Primeiro Comando da Capital (PCC), como grupos terroristas, um movimento que reflete um alinhamento nas políticas de combate ao terrorismo e crime organizado.
Expansão da parceria: Energia, agricultura e tecnologia como novos horizontes
A colaboração entre Paraguai e Estados Unidos não se limita aos setores de minerais e defesa, podendo se estender a outras áreas estratégicas. Especialistas apontam para potenciais acordos em energia, tecnologia e agricultura, que podem impulsionar ainda mais a economia paraguaia e fortalecer os laços bilaterais.
Um exemplo concreto é a possibilidade de acordos na área de energia. O secretário de Estado americano, Marco Rubio, já manifestou interesse da Casa Branca em adquirir energia paraguaia proveniente da hidrelétrica de Itaipu. O objetivo seria abastecer projetos de inteligência artificial (IA) a serem instalados no Paraguai. A energia hidrelétrica, proveniente de usinas como Itaipu, uma das maiores do mundo, representa uma fonte significativa de receita e desenvolvimento para o Paraguai.
Se um acordo energético se concretizar, ele poderá influenciar as negociações do Paraguai com o Brasil sobre a revisão do tratado binacional que administra Itaipu. A participação americana pode adicionar uma nova dinâmica a essas discussões. Na agricultura, a parceria pode impulsionar as exportações paraguaias para os Estados Unidos. Recentemente, as vendas de carne bovina paraguaia para os EUA dobraram, consolidando os americanos como o segundo maior comprador, atrás apenas do Chile, demonstrando o potencial de crescimento nesse setor.
O “Tigre Guarani”: Paraguai atrai investimentos e consolida seu crescimento econômico
O Paraguai tem se destacado como um polo de atração de investimentos estrangeiros, o que lhe rendeu o apelido de “tigre guarani”, em alusão ao rápido crescimento econômico dos “tigres asiáticos”. Esse fenômeno é impulsionado por um ambiente de negócios favorável, com carga tributária reduzida e menor burocracia, características que atraem investidores em busca de eficiência e rentabilidade.
O Produto Interno Bruto (PIB) paraguaio tem projeções de crescimento expressivas, impulsionado pelos setores de serviços, indústria e construção. O país também se orgulha de manter uma das menores taxas de inflação da América Latina, fruto de uma estabilidade cambial e de políticas econômicas prudentes. Essa combinação de crescimento e estabilidade econômica torna o Paraguai um destino atraente para negócios.
Marcos Freitas, CEO de uma consultoria empresarial, ressalta que o Paraguai se tornou um “sonho” para investidores devido à clareza operacional e aos custos competitivos. Ele observa que o país deixou de ser um “coadjuvante” na região para se tornar uma alternativa estratégica para empresas que buscam atender o mercado sul-americano com eficiência, sem enfrentar barreiras excessivas. A migração de empresas e investimentos para o Paraguai reflete a eficácia de suas políticas de atração e retenção de capital.
Crescimento econômico impulsiona turismo e atrai residência de estrangeiros
O vigor econômico do Paraguai também se reflete no aumento da entrada de estrangeiros e no crescimento do setor de turismo. Em 2025, o país registrou um aumento significativo nos pedidos de residência, com brasileiros liderando a lista de nacionalidades que buscam se estabelecer no Paraguai, representando mais da metade das autorizações concedidas. Esse fluxo migratório evidencia a atratividade do país como destino de moradia e trabalho.
O turismo paraguaio também experimentou um salto expressivo, com um aumento substancial no número de visitantes internacionais no último ano. A maior parte desses turistas provém de países vizinhos, como Argentina e Brasil, atraídos pelas oportunidades econômicas, pela estabilidade e pelo potencial turístico do país. A diversificação das atrações e a melhoria da infraestrutura turística contribuem para esse crescimento.
Para capitalizar esse momento e celebrar marcos históricos, o governo paraguaio está desenvolvendo um plano ambicioso para comemorar os 500 anos de Assunção. O projeto, focado na revitalização da capital, envolve a articulação entre o governo federal, a municipalidade de Assunção e o setor privado. A meta de entrega para a revitalização da capital é 2037, ano em que a cidade completa cinco séculos de fundação, demonstrando uma visão de longo prazo para o desenvolvimento urbano e cultural do país.
A importância estratégica da aproximação EUA-Paraguai no cenário global
A intensificação da relação entre Paraguai e Estados Unidos transcende os interesses bilaterais imediatos, posicionando-se como um movimento estratégico no contexto geopolítico sul-americano e global. A aliança estratégica em minerais críticos, por exemplo, insere o Paraguai em uma cadeia de suprimentos global vital para as economias desenvolvidas, ao mesmo tempo em que lhe confere maior peso nas negociações internacionais.
A cooperação em defesa, especialmente com foco na Tríplice Fronteira, contribui para a estabilidade regional e para o combate a ameaças transnacionais, como o crime organizado e o terrorismo. Essa colaboração alinha o Paraguai a uma política externa americana mais assertiva na América Latina, buscando fortalecer democracias e conter influências de atores que Washington considera desestabilizadores.
A potencial expansão da parceria para áreas como energia e tecnologia pode reconfigurar o papel do Paraguai na economia global. A possibilidade de se tornar um hub para projetos de inteligência artificial, abastecido por energia limpa e abundante, como a de Itaipu, demonstra a visão de futuro do país. Essa aproximação estratégica, combinada com um ambiente de negócios propício, posiciona o Paraguai como um “tigre guarani” com potencial para um crescimento sustentado e uma influência crescente na região e no mundo.