Mulheres tomam as ruas de Brasília exigindo fim da violência e por direitos básicos
Centenas de mulheres ocuparam o centro de Brasília neste domingo (8 de março) em um protesto contundente que ecoou o grito “Parem de nos matar”. A manifestação, que marcou o Dia Internacional da Mulher, teve como principal foco a denúncia dos alarmantes índices de feminicídio no Brasil, mas ampliou suas pautas para incluir a crítica à escala de trabalho 6×1, a gestão do Governo do Distrito Federal (GDF) e o repúdio ao imperialismo. O ato, que reuniu diversos coletivos feministas, partidos políticos e grupos culturais, celebrou também uma década de Marcha Unificada na capital federal, destacando avanços e os desafios persistentes na luta por igualdade e segurança.
A data foi palco para que vozes de diferentes segmentos da sociedade civil se unissem em um coro uníssono contra as diversas formas de opressão e violência que afetam as mulheres. Cartazes com mensagens diretas como “Parem de Nos Matar” e representações artísticas impactantes ilustraram o sentimento de urgência e a necessidade de ações concretas para garantir a integridade e os direitos das mulheres no Distrito Federal e em todo o país. A mobilização, que ocorreu próximo à Torre de TV, demonstrou a força e a organização do movimento feminista na região.
Além da violência letal, a manifestação abordou questões relacionadas às condições de trabalho, à gestão pública e a políticas internacionais, evidenciando a interconexão das lutas feministas com outras pautas sociais e políticas. A presença de artistas, ativistas históricas e representantes de movimentos sociais enriqueceu o debate e fortaleceu o chamado por mudanças significativas. As informações foram divulgadas por veículos de comunicação locais e agências de notícias.
O grito contra o feminicídio ressoa em Brasília
O feminicídio, a forma mais extrema de violência contra a mulher, foi o tema central que impulsionou a manifestação. Dados recentes do Fórum Brasileiro de Segurança Pública revelam um cenário preocupante, com 1.568 mulheres vítimas de feminicídio no Brasil em 2023, um aumento de 4,7% em relação ao ano anterior. Essa estatística alarmante foi o pano de fundo para que as participantes expressassem seu medo e indignação.
A artista plástica Daniela Iguizzi, de 55 anos, apresentou sua obra “Medo”, um revólver apontado para uma mulher, simbolizando a constante ameaça que as mulheres enfrentam. “A mulher não tem um minuto de paz. Ela não tem sossego no seu lar. Ela não tem sossego no seu trabalho. Em todos os lugares nós podemos ser assediadas, podemos ser assassinadas. Por isso, o nome dessa obra é medo. Medo é o que toda mulher brasileira sente”, declarou à Agência Brasil, ressaltando a necessidade de um ambiente seguro para todas.
Raquel Braga Rodrígez, coordenadora do grupo de maracatu Baque Mulher Brasília, enfatizou a preocupação coletiva com os feminicídios e a importância do ato como forma de protesto. “O governo lançou esse Pacto Nacional contra o Feminicídio e a gente gostaria muito que essa política pública fosse realmente colocada em prática, que a gente visse resultado na redução desses números”, expressou, demonstrando a expectativa por ações efetivas que vão além das promessas.
Pacto Nacional contra o Feminicídio: Entre a esperança e a cobrança
Em resposta à crescente onda de violência, o governo federal firmou, no início de fevereiro, um pacto com os Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário para a adoção de medidas de combate à violência de gênero. A iniciativa visa fortalecer as políticas públicas e a atuação das instituições na proteção das mulheres e na punição dos agressores.
No entanto, para ativistas e representantes de movimentos feministas, a efetivação desse pacto é crucial. A cobrança é para que as ações se traduzam em resultados concretos, com uma redução significativa nos índices de feminicídio e outras formas de violência. A demanda é por políticas públicas robustas, com orçamento adequado e fiscalização rigorosa, para que o pacto não se torne apenas um documento formal, mas uma ferramenta transformadora na vida das mulheres.
A participação de figuras históricas, como Lydia Garcia, militante do movimento de mulheres negras do Distrito Federal há décadas, reforça a importância da luta contínua. Aos 88 anos, Lydia Garcia, pioneira da capital federal, esteve presente, demonstrando sua força e resiliência. “Nós mulheres, principalmente as mulheres negras, estamos impondo a este mundo e a este Brasil a nossa força, as nossas lutas e vitórias por dias melhores contra a violência dos jovens negros, contra o feminicídio”, afirmou, conectando a luta contra o feminicídio com outras batalhas por justiça social.
Críticas ao Governo do DF: Escândalo financeiro e falta de políticas públicas
O Governo do Distrito Federal (GDF), liderado por Ibaneis Rocha e sua vice, Celina Leão, também foi alvo de críticas durante a manifestação. Uma das principais queixas foi a alegada falta de recursos destinados a políticas públicas de proteção às mulheres, contrastando com escândalos financeiros envolvendo o Banco de Brasília (BRB).
Jolúzia Batista, representante da Articulação de Mulheres Brasileiras (AMB), denunciou a situação: “Estamos vivendo um escândalo financeiro no Brasil com o banco do GDF [o BRB] sendo rifado e faltando dinheiro para a política pública.” A crítica se refere à investigação da Polícia Federal sobre a tentativa de compra do Banco Master pelo BRB, que envolveria o uso de imóveis públicos como garantia para empréstimos, após perdas estimadas em R$ 2,6 bilhões. Essa situação levanta questionamentos sobre a priorização de recursos e a gestão financeira do GDF.
A ativista defendeu que a luta das mulheres deve ir além da denúncia do feminicídio, englobando a demanda por um orçamento que financie políticas públicas eficazes. Ela destacou que emendas parlamentares e outras fontes de financiamento têm desviado recursos essenciais para áreas como capacitação de profissionais, campanhas educativas e a melhoria na qualidade dos serviços oferecidos às mulheres, impactando diretamente o atendimento e a proteção.
A luta contra a escala 6×1 e a busca por tempo para as mulheres
Outra pauta de grande relevância levantada na manifestação foi o fim da escala de trabalho 6×1, que prevê seis dias de trabalho para um de descanso. Essa modalidade é considerada especialmente prejudicial para as mulheres, que frequentemente acumulam responsabilidades domésticas e de cuidado com filhos e familiares, além de suas jornadas de trabalho.
Thammy Frisselly, uma das organizadoras do ato, explicou a importância dessa reivindicação: “As mulheres precisam de tempo para tratar da sua saúde mental, para o lazer, para fazer outras coisas, para estudar.” A jornada dupla ou tripla imposta pela sociedade e pelas condições de trabalho precárias limita o tempo disponível para que as mulheres se dediquem a si mesmas, aprimorem suas qualificações e participem ativamente da vida social e política.
A exigência pelo fim da escala 6×1 reflete a necessidade de repensar as estruturas de trabalho para que sejam mais justas e equitativas, reconhecendo as particularidades e as demandas das mulheres. A conquista de mais tempo livre é vista como fundamental para o bem-estar, o desenvolvimento pessoal e a luta por uma sociedade mais igualitária.
Imperialismo e outras bandeiras de luta no 8 de Março
A manifestação em Brasília transcendeu as pautas locais e estaduais, incorporando uma forte crítica ao imperialismo e às ações de potências estrangeiras em outras nações. As intervenções e os cartazes denunciaram as políticas dos Estados Unidos em relação a países como Irã, Cuba e Venezuela, além de condenarem a ação israelense na Palestina.
Essa ampliação das pautas demonstra a compreensão de que a luta feminista está intrinsecamente ligada a outras batalhas por justiça social e autodeterminação dos povos. A solidariedade internacional e a denúncia de injustiças globais reforçam o caráter progressista e combativo do movimento.
A articulação de diferentes frentes de luta é uma característica marcante do movimento feminista contemporâneo, que busca construir pontes com outras causas e movimentos sociais, fortalecendo a rede de resistência e a busca por um mundo mais justo e pacífico para todas e todos.
Avanços e desafios: Uma década de Marcha Unificada em Brasília
A Marcha Unificada do 8 de Março em Brasília celebrou sua décima edição, um marco que permitiu à organizadora Thammy Frisselly destacar os avanços conquistados pelo movimento de mulheres na capital federal. “O 8M [8 de março] é o maior ato político feminista da capital federal. A gente teve muitos avanços, não só nas leis, mas também no aumento no número de delegacias para mulheres”, pontuou.
A maior visibilidade e o debate público sobre a violência contra a mulher são frutos da pressão constante dos movimentos ao longo dos anos. “Podemos falar hoje abertamente que é violência o seu ‘psiu’ no meio da rua, que é violência você falar da minha roupa. Essa é uma educação bem na base que é resultado da luta das mulheres”, completou Thammy, ressaltando a importância da conscientização e da desconstrução de comportamentos machistas desde a base.
Apesar dos progressos, a manifestação deixou claro que os desafios persistem. A luta por um orçamento público que garanta a continuidade e a expansão das políticas de proteção e promoção dos direitos das mulheres é um dos principais focos para os próximos anos. A ocupação do espaço público e a mobilização contínua são ferramentas essenciais para pressionar o poder público e garantir que as conquistas se solidifiquem e alcancem todas as mulheres.
O papel da sociedade civil na luta contra a violência de gênero
A manifestação do 8 de março em Brasília reforçou o papel crucial da sociedade civil organizada na denúncia da violência de gênero e na cobrança por políticas públicas eficazes. A união de diferentes coletivos, partidos e grupos culturais demonstrou a força da mobilização feminina e sua capacidade de pautar debates importantes na agenda pública.
A presença de mulheres de diferentes idades, etnias e classes sociais evidencia a abrangência da luta e a diversidade de experiências que compõem o movimento feminista. A troca de saberes e a solidariedade entre as participantes fortalecem a resiliência e a capacidade de articulação para enfrentar os desafios.
A continuidade das manifestações e a participação ativa em espaços de debate e decisão são fundamentais para que as demandas das mulheres sejam ouvidas e atendidas. A luta por um futuro livre de violência e com igualdade de direitos é um processo contínuo que exige o engajamento de toda a sociedade.