Peter Navarro Acusa JBS de Integrar ‘Cartel da Carne’ nos EUA

Peter Navarro, ex-conselheiro sênior de Comércio e Manufatura da Casa Branca durante a administração Trump e conhecido como o arquiteto da guerra tarifária, acusou publicamente a brasileira JBS de integrar um que ele chamou de “cartel da carne” nos Estados Unidos.

A denúncia, feita nesta segunda-feira (26) e reiterada em diversas publicações e artigos, acompanha a determinação do ex-presidente Donald Trump ao Departamento de Justiça americano para abrir uma investigação antitruste sobre a alta concentração no setor de processamento de carne bovina, que poderia envolver diretamente a empresa brasileira.

Navarro argumenta que quatro grandes empresas dominam mais de 80% do fornecimento de carne bovina no país, criando um cenário de concorrência reduzida e manipulação de preços que prejudica tanto pecuaristas quanto consumidores americanos, conforme informações divulgadas pela imprensa.

A Estrutura do Alegado “Cartel da Carne” Segundo Navarro: Concentração e Impacto no Mercado

As afirmações de Peter Navarro são baseadas em uma análise da estrutura do mercado de carne bovina nos Estados Unidos, onde, segundo ele, a concentração atinge níveis alarmantes. Navarro aponta que quatro gigantes do setor – Cargill, JBS, Tyson Foods e National Beef – controlam mais de 80% do fornecimento de carne bovina no país.

Essa alta concentração, conforme o ex-conselheiro, não apenas reduz a concorrência de forma drástica, mas também cria condições ideais para a formação e manipulação de preços. Em sua visão, essa dinâmica de mercado acaba por prejudicar duplamente: os pecuaristas americanos, que recebem menos por seus animais, e os consumidores, que pagam mais caro pela carne nos supermercados.

A JBS e a National Beef, em particular, são destacadas por Navarro como empresas “efetivamente administradas a partir do Brasil”. Essa gestão estrangeira, segundo sua análise, adiciona uma camada de complexidade à dinâmica de preços, especialmente quando se considera a influência das exportações brasileiras para outros mercados globais.

O conselheiro reforça que a atuação dessas poucas empresas cria um verdadeiro “gargalo” no mercado, onde a etapa de abate e processamento, crucial na cadeia produtiva, está concentrada em poucas mãos. Essa centralização, na visão de Navarro, permite que os preços sejam definidos não nas fazendas, mas sim nos abatedouros, controlados por esse grupo seleto de companhias.

A Conexão Brasil-EUA: Influência da Gestão Estrangeira e Exportações para a China

Um dos pontos centrais da argumentação de Peter Navarro é a influência da gestão estrangeira sobre o mercado americano de carne bovina. Ele especificamente menciona que a JBS e a National Beef, duas das quatro maiores processadoras de carne nos EUA, são “efetivamente administradas a partir do Brasil”. Essa conexão transnacional é vista como um fator que contribui para a dinâmica do alegado “cartel da carne”.

Navarro detalha como as exportações brasileiras de carne para a China, que é a maior importadora mundial de carne bovina, desempenham um papel crucial na formação de preços. Segundo ele, esses volumes direcionados ao mercado chinês ajudam a estabelecer um piso de preços no mercado americano, o que, por sua vez, limita a competição interna e pressiona os valores pagos pelo consumidor final nos Estados Unidos.

Em um artigo publicado no jornal conservador Washington Examiner, Navarro aprofundou essa tese, explicando que as tensões comerciais registradas no ano passado teriam levado exportadores brasileiros a redirecionar grandes volumes de carne para o mercado chinês. Esse movimento, de acordo com o conselheiro, resultou em uma redução da oferta nos Estados Unidos, o que, consequentemente, impulsionou os preços nos supermercados americanos semanas depois.

A percepção de que a demanda externa, especialmente da China, pode influenciar diretamente o preço pago pelo consumidor americano, devido à concentração do processamento nas mãos de poucas empresas, é um dos pilares da crítica de Navarro. Ele argumenta que essa estrutura permite que as dinâmicas de mercado internacionais se reflitam diretamente nos custos internos, sem a devida concorrência para amortecer esses impactos.

A Investigação Antitruste do Departamento de Justiça: Próximos Passos e Potenciais Desdobramentos

Diante do cenário de alta concentração e das acusações de manipulação de preços, o então presidente Donald Trump determinou ao Departamento de Justiça (DOJ) americano a abertura de uma investigação antitruste contra os frigoríficos que atuam nos EUA e estão sob controle estrangeiro. Essa apuração foi anunciada em novembro do ano passado.

A Casa Branca, à época, afirmou que a investigação buscava identificar práticas de conluio e manipulação de preços por parte das empresas que detêm a maior parte do processamento de carne bovina nos Estados Unidos. O objetivo era restaurar a concorrência no setor, garantindo um mercado mais justo para pecuaristas e consumidores.

Apesar da determinação presidencial e da relevância do tema, a investigação do Departamento de Justiça ainda não teve novos desdobramentos públicos significativos. A ausência de anúncios recentes mantém um véu de incerteza sobre o progresso da apuração e sobre quais empresas, além das já mencionadas por Navarro, poderiam ser alvo de medidas regulatórias.

No entanto, as declarações de Navarro, que insiste na existência de um “cartel da carne”, servem como um lembrete contínuo da pressão política para que o DOJ avance com a investigação. O desfecho dessa apuração pode ter implicações profundas para a estrutura do mercado de carne bovina nos EUA, potencialmente afetando gigantes como a JBS, caso as acusações de práticas anticompetitivas sejam comprovadas.

Desvendando os Preços: Inflação vs. Manipulação de Mercado no Setor Cárneo

Um dos pontos mais contundentes da argumentação de Peter Navarro é a distinção entre a alta de preços da carne decorrente da inflação geral e o que ele classifica como manipulação de mercado. Em seu artigo no Washington Examiner, o ex-conselheiro refutou a ideia de que o aumento nos preços da carne dentro dos EUA estaria meramente relacionado à inflação.

Para Navarro, a verdadeira causa reside na atuação de um “cartel” estrangeiro que detém o controle dos frigoríficos. Ele argumenta que os preços da carne não são definidos nas fazendas, onde os pecuaristas vendem seus animais, mas sim nos abatedouros, a etapa da cadeia de produção que estaria concentrada nas mãos de poucas empresas.

Essa concentração, com cerca de 85% do processamento de carne bovina nos Estados Unidos passando por apenas quatro companhias, cria um “gargalo” no mercado. Tal estrutura, segundo Navarro, permite que essas empresas exerçam um poder desproporcional sobre os preços, independentemente das condições macroeconômicas de inflação.

A consequência direta, conforme a análise de Navarro, é que os consumidores americanos acabam pagando preços artificialmente elevados, enquanto os pecuaristas recebem valores aquém do justo. Essa disparidade, na visão do ex-conselheiro, é uma prova da falha de mercado e da necessidade de intervenção antitruste para restaurar a concorrência e garantir preços mais equitativos.

Segurança Alimentar como Questão de Segurança Nacional: A Visão da Casa Branca de Trump

A administração Trump, por meio de Peter Navarro, elevou a questão da segurança alimentar a um patamar de segurança nacional. Essa perspectiva robusta fundamenta a necessidade de uma intervenção governamental enérgica no mercado de carne bovina, especialmente diante das acusações de formação de “cartel da carne” e manipulação de preços.

Navarro, em seu artigo, enfatiza que a Casa Branca considera a capacidade de um país de alimentar sua população como um pilar essencial de sua segurança e soberania. Portanto, qualquer ameaça à cadeia de suprimentos de alimentos, como a alegada concentração de poder e práticas anticompetitivas no setor de carne, é vista como um risco direto à segurança nacional.

Diante desse cenário, a defesa do uso da legislação antitruste para restaurar a concorrência no setor torna-se uma prioridade. O ex-conselheiro não hesita em mencionar a possibilidade de medidas drásticas, como desinvestimentos ou a divisão de empresas, caso seja necessário para fragmentar o poder das grandes corporações e garantir um mercado mais equilibrado e competitivo.

Essa abordagem reflete uma filosofia que prioriza a proteção dos interesses nacionais e dos cidadãos americanos, tanto pecuaristas quanto consumidores, contra o que é percebido como uma exploração por parte de empresas dominantes, muitas delas com controle estrangeiro. A visão é que a intervenção do estado é justificável e necessária para corrigir as distorções do mercado e salvaguardar a segurança alimentar do país.

O Impacto para Pecuaristas e Consumidores Americanos: Um Cenário de Prejuízos

A atuação do que Peter Navarro chama de “cartel da carne” gera um cenário de prejuízos significativos para dois grupos essenciais na economia americana: os pecuaristas e os consumidores. A concentração de poder nas mãos de poucas empresas processadoras cria um desequilíbrio que afeta toda a cadeia de valor da carne bovina.

Para os pecuaristas americanos, a falta de concorrência significa menos opções para vender seus animais. Com um número reduzido de compradores dominando o mercado, os frigoríficos adquirem um poder de barganha excessivo, podendo ditar os preços pagos pelo gado. Isso resulta em margens de lucro cada vez menores para os produtores rurais, comprometendo a sustentabilidade de suas operações e, em muitos casos, forçando-os a sair do negócio. A dependência de poucos compradores os deixa vulneráveis a práticas que podem ser consideradas injustas ou manipuladoras.

No outro extremo da cadeia, os consumidores americanos também sofrem o impacto direto dessa concentração. Com a capacidade de controlar a oferta e os preços de processamento, as grandes empresas podem repassar custos inflacionados ou simplesmente impor preços mais altos nas prateleiras dos supermercados. Navarro argumenta que o preço que o consumidor paga pela carne não reflete a realidade da produção nas fazendas, mas sim a margem de lucro e a estratégia de precificação dos poucos frigoríficos dominantes.

Essa situação gera um custo de vida mais elevado para as famílias e reduz o poder de compra, especialmente para um produto básico como a carne. Em essência, o modelo descrito por Navarro transfere riqueza dos produtores e dos consumidores para as mãos de um pequeno grupo de corporações, distorcendo o livre mercado e minando a confiança no sistema.

O Futuro do Mercado da Carne nos EUA: Possíveis Medidas e Cenários

As declarações de Peter Navarro e a subsequente investigação do Departamento de Justiça dos EUA lançam um olhar sobre o futuro do mercado da carne no país e as possíveis ramificações para as empresas envolvidas, incluindo a JBS. O cenário que se desenha pode envolver desde multas pesadas até reestruturações societárias compulsórias.

Se a investigação antitruste do DOJ encontrar evidências concretas de conluio e manipulação de preços, as empresas acusadas podem enfrentar sanções severas. Isso poderia incluir penalidades financeiras vultosas, destinadas a desestimular futuras práticas anticompetitivas. Além disso, o Departamento de Justiça tem o poder de exigir medidas corretivas que visem restaurar a concorrência, como a venda de ativos ou a divisão de operações de grandes companhias.

A possibilidade de desinvestimentos ou divisão de empresas, conforme mencionado por Navarro, é uma medida extrema, mas que reflete a seriedade com que a Casa Branca de Trump encarava a questão da segurança alimentar e a necessidade de proteger o mercado. Tal ação visaria quebrar o “gargalo” de processamento e criar um ambiente mais competitivo, com mais players no setor.

Para a JBS, especificamente, as acusações e a investigação representam um desafio significativo. A empresa, que não se manifestou publicamente sobre as declarações de Navarro até a publicação desta matéria, precisará acompanhar de perto os desdobramentos da apuração e estar preparada para defender suas práticas de mercado. O espaço permanece aberto para manifestação da empresa.

Independentemente do desfecho da investigação, o debate em torno da concentração no setor de carne bovina e suas implicações para pecuaristas e consumidores provavelmente continuará. A pressão por maior transparência e regulação pode levar a mudanças duradouras na forma como o mercado opera nos Estados Unidos, buscando um equilíbrio mais justo para todos os envolvidos na cadeia produtiva.

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