Investigação da PF e MP-AP Aprofunda Ligações Políticas na Amprev
A Polícia Federal (PF) e o Ministério Público do Estado do Amapá (MP-AP) iniciaram uma investigação para apurar se a Amapá Previdência (Amprev), fundo que administra a previdência de servidores públicos do estado, ignorou alertas formais e pareceres contrários antes de investir cerca de R$ 400 milhões no Banco Master. A apuração surge como um desdobramento da Operação Compliance Zero, que investiga o escândalo do banco, liquidado extrajudicialmente em novembro de 2025.
No centro das suspeitas estão as conexões políticas da Amprev com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP). A autarquia é presidida por Jocildo Lemos, indicado ao cargo com apoio do senador, e conta com Alberto Alcolumbre, irmão de Davi, no Conselho Fiscal. Embora o senador e seu irmão não sejam formalmente investigados até o momento, a presença de figuras ligadas a ele em posições estratégicas do fundo levanta questionamentos sobre a governança e a tomada de decisões.
Os investimentos no Banco Master, hoje sob investigação por supostas irregularidades, foram realizados em Letras Financeiras sem a proteção do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), expondo o patrimônio dos servidores amapaenses a um risco significativo. A Amprev, que reúne cerca de 40 mil servidores, tornou-se um dos fundos previdenciários mais expostos à quebra do Master, atrás apenas do RioPrevidência. Essas informações foram apuradas pela reportagem, com base em documentos e declarações.
Alertas Ignorados e a Decisão Controversa de Investir no Banco Master
Documentos obtidos pela Gazeta do Povo revelam que, em uma reunião do Comitê de Investimentos da Amprev, realizada em 30 de julho de 2024, alertas substanciais sobre os riscos de investir no Banco Master foram apresentados e, aparentemente, desconsiderados. Na ocasião, o então diretor-presidente da Amprev, Jocildo Lemos, conduziu o debate sobre uma proposta de aplicação de R$ 100 milhões em letras financeiras do banco.
Dois conselheiros, Gláucio Bezerra e Alexandre Flávio Monteiro, manifestaram preocupação explícita. Bezerra propôs a suspensão do investimento até que diligências adicionais fossem realizadas junto a órgãos reguladores e ao Tribunal de Contas da União (TCU). Ele citou informações sobre problemas políticos e de governança do Banco Master com a Caixa Econômica Federal, além da existência de um procedimento instaurado pelo TCU. O conselheiro enfatizou a necessidade de resguardar a imagem e a segurança da Amprev, alertando para o risco institucional.
Alexandre Flávio Monteiro, por sua vez, confessou desconforto com a alta exposição e o volume concentrado no Master, embora tenha condicionado sua tranquilidade a uma maior diversificação e a uma diligência positiva sobre o emissor. Apesar dos alertas formais e das ressalvas levantadas pelos conselheiros, a proposta de investimento foi colocada em votação e, surpreendentemente, aprovada por unanimidade. A reportagem não encontrou registros de alertas semelhantes para os outros R$ 300 milhões investidos pela Amprev no Banco Master.
O Papel Estratégico da Amapá Previdência e a Exposição ao Risco
A Amapá Previdência (Amprev) é uma autarquia do Governo do Amapá, responsável por administrar a previdência dos servidores públicos estaduais. Ela gere aposentadorias, pensões e os recursos do regime próprio estadual (RPPS), atendendo a cerca de 40 mil servidores de órgãos como o Executivo, Tribunal de Justiça, Ministério Público, Tribunal de Contas, Assembleia Legislativa e Defensoria Pública do estado.
A decisão de investir aproximadamente R$ 400 milhões em letras financeiras do Banco Master, sem a proteção do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), é um ponto crítico da investigação. Esses papéis, por sua natureza, representam um risco maior para os fundos previdenciários. A Amprev se tornou o segundo fundo mais exposto à quebra do Master, superada apenas pelo RioPrevidência, que investiu R$ 970 milhões.
A alta concentração de recursos em um único emissor de alto risco levanta sérias questões sobre a política de investimentos da Amprev e a diligência de seus gestores. O caso pode indicar um modelo de ocupação política de estruturas previdenciárias que fragiliza os mecanismos de controle e expõe as aposentadorias dos servidores públicos a riscos desnecessários, gerando um potencial prejuízo a milhares de beneficiários.
Davi Alcolumbre no Centro do Debate Político e Institucional
Embora o nome do senador Davi Alcolumbre não apareça diretamente nas investigações conhecidas até o momento, sua ligação política com a Amprev e seu poder no Congresso o colocam no centro do debate. Jocildo Lemos, presidente da Amprev, já reconheceu publicamente que foi convidado por Alcolumbre para o cargo, agradecendo ao senador pela indicação em um discurso de fevereiro de 2024. Além disso, Alberto Alcolumbre, irmão do senador, ocupou posições de fiscalização na Amprev, sendo membro do Conselho Estadual de Previdência entre 2023 e 2024, e posteriormente integrando o Conselho Fiscal da autarquia em 2025.
A assessoria de Davi Alcolumbre nega qualquer envolvimento direto dele nas indicações ou nas decisões de investimento do fundo, classificando como