A Investigação da Polícia Federal e o Envolvimento de Nelson Tanure

A Polícia Federal (PF) está conduzindo uma investigação aprofundada sobre uma possível ligação entre o empresário Nelson Tanure e o Banco Master, instituição que foi liquidada extrajudicialmente pelo Banco Central (BC) em novembro do ano passado. A apuração busca determinar se fundos geridos ou influenciados por Tanure foram utilizados para capitalizar o Master ou para absorver créditos de difícil recuperação, o que poderia ter ocultado a verdadeira saúde financeira do banco. O caso ganhou destaque com a segunda fase da Operação Compliance Zero, da PF, que investiga um esquema de fraudes contábeis e financeiras envolvendo a instituição financeira.

No dia 14 do mês passado, Nelson Tanure foi abordado no Aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, antes de embarcar em um voo com destino a Curitiba, onde a Ligga Telecom, empresa que ele controla, está sediada. Durante a abordagem, seu celular foi apreendido, um indicativo da seriedade das investigações. Segundo uma das linhas de apuração da PF, o empresário poderia atuar como um “sócio oculto” do banco, que era de propriedade de Daniel Vorcaro, exercendo influência por meio de fundos e estruturas societárias complexas, conforme informações da investigação.

Paralelamente a essa investigação, a Ligga Telecom, operadora de fibra óptica com capital aberto e a maior do Paraná, realizou movimentações financeiras significativas que chamaram a atenção do mercado e das agências de classificação de risco. A empresa retirou cerca de R$ 350 milhões de seu caixa para alocar em aplicações financeiras sem liquidez diária, o que significa que o capital não estaria imediatamente disponível. Parte desse montante foi aplicada em Cédulas de Crédito Bancário (CCBs) do Banco Master, reforçando a conexão entre as entidades e levantando questionamentos sobre a gestão financeira da Ligga.

Movimentações Financeiras da Ligga Telecom Sob Escrutínio

Documentos internos da Ligga Telecom revelam que a empresa realizou uma mudança substancial em seu perfil financeiro entre 2021 e 2022. No primeiro ano sob o controle de Nelson Tanure, a companhia mantinha aproximadamente R$ 344 milhões em “caixa e equivalentes de caixa”, com liquidez diária, e não possuía saldo em aplicações financeiras. No entanto, em dezembro de 2022, o cenário havia se transformado drasticamente. O caixa da empresa havia diminuído para cerca de R$ 5,9 milhões, enquanto as aplicações financeiras sem liquidez diária somavam aproximadamente R$ 353 milhões.

As aplicações financeiras, ao contrário do caixa e equivalentes de caixa, são caracterizadas por sua iliquidez, representando alocações em “ativos financeiros e demais modalidades operacionais disponíveis nos mercados financeiro e de capitais” que, por sua natureza, envolvem “vários fatores de risco”. Embora os documentos não especifiquem a instituição financeira de todos os ativos, as aplicações ocorreram no mesmo mês em que a diretoria da Ligga deliberou sobre a contratação de Cédulas de Crédito Bancário (CCBs) com o Banco Master. Essa decisão, de grande impacto financeiro, foi tomada sem passar pelo Conselho de Administração da companhia, instância que, tipicamente, delibera sobre decisões financeiras estratégicas e de maior risco, o que levanta questões sobre a governança corporativa da empresa.

Um formulário de referência, exigência da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) para sociedades de capital aberto, detalha a época e a natureza dessas aplicações. Segundo o documento, “Em outubro de 2022 a companhia alterou sua aplicação financeira para um fundo de investimento com uma rentabilidade superior à praticada anteriormente. A recuperabilidade do investimento é inferior a 90 dias, mas sem liquidez diária. Diante desse cenário, este valor foi reclassificado da rubrica Caixa e Equivalentes de Caixa para a de Aplicações Financeiras, ainda no ativo circulante”. As demonstrações financeiras de 2022 indicam que essas aplicações eram remuneradas, em 31 de dezembro daquele ano, entre 101% e 146,221% da taxa de variação do Certificado de Depósito Interbancário (CDI), sugerindo uma busca por maior rentabilidade em detrimento da liquidez.

Rebaixamento do Rating pela Moody’s: Opacidade e Risco de Refinanciamento

A “opacidade de informação” nos demonstrativos financeiros da Ligga Telecom foi um fator decisivo para a agência de classificação de risco Moody’s rebaixar, em dezembro de 2023, o rating da companhia. A nota foi alterada de BBB.br para BB-.br, com uma perspectiva negativa. Essa nova classificação indica que a qualidade de crédito da Ligga é agora considerada abaixo da média em comparação com outras entidades e operações nacionais, e a perspectiva negativa sinaliza um potencial de piora no indicador, o que pode impactar a capacidade da empresa de captar recursos no mercado no futuro.

A avaliação da Moody’s se baseou no baixo grau de visibilidade sobre a liquidez das aplicações financeiras da Ligga. O último demonstrativo financeiro da empresa, consolidado em setembro do ano passado, mostra que o caixa da empresa somava apenas R$ 2,3 milhões em conta corrente e R$ 16,9 milhões em CDBs e operações com liquidez diária. Enquanto isso, havia expressivos R$ 388,6 milhões sob a rubrica “aplicaçõe financeiras”, cuja disponibilidade imediata é questionável. Essa discrepância entre o caixa disponível e o montante aplicado em instrumentos de baixa liquidez gerou preocupações significativas na agência de rating.

O relatório da Moody’s, publicado recentemente, enfatiza que, ao avaliar o saldo de aplicações financeiras, a agência concluiu que este “não está totalmente disponível para cobrir a dívida, mesmo aplicando um forte haircut”. Diante desse cenário, o documento da Moody’s afirma que o “perfil de liquidez da companhia está sob intensa pressão” e que há um “risco elevado de refinanciamento”. A perspectiva negativa do rating, segundo a agência, “reflete as incertezas relacionadas à flexibilidade financeira da companhia, considerando o perfil de liquidez enfraquecido”. Essas conclusões da Moody’s destacam a gravidade da situação financeira da Ligga e os desafios que a empresa pode enfrentar para honrar seus compromissos financeiros.

O Papel das Cédulas de Crédito Bancário (CCBs) no Banco Master

As Cédulas de Crédito Bancário (CCBs) são títulos que funcionam como um contrato formal de crédito entre o adquirente e o emissor. No contexto da investigação da Polícia Federal, a negociação de CCBs fraudulentas é uma das principais suspeitas que recaem sobre Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master. Segundo as apurações da PF, esses títulos teriam sido utilizados para movimentar recursos de forma circular, com o objetivo de dissimular a real situação financeira do banco e, possivelmente, ocultar problemas de solvência.

A escolha das CCBs para as aplicações da Ligga Telecom é um ponto de atenção, especialmente considerando que, diferentemente dos Certificados de Depósito Bancário (CDBs), os valores aplicados em CCBs não são cobertos pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC). Isso significa que, em caso de liquidação ou falência da instituição emissora, os investidores das CCBs correm o risco de perder todo o capital investido, sem a proteção oferecida pelo FGC para outros tipos de aplicações financeiras. A decisão da Ligga de alocar uma parcela tão significativa de seu capital em um instrumento de maior risco, e sem a cobertura do FGC, em um banco que viria a ser liquidado, levanta sérios questionamentos sobre a prudência da gestão de seus recursos.

Chama a atenção o fato de que, em agosto de 2021, a Ligga havia emitido debêntures no valor total de R$ 300 milhões, indicando uma necessidade de captação de recursos junto ao mercado para financiar suas operações e investimentos. No ano seguinte, ao alocar mais de R$ 350 milhões em instrumentos financeiros não disponíveis imediatamente, a companhia, na prática, passou a atuar como credora. Essa inversão de papéis, de captadora de recursos para investidora de grande porte em aplicações ilíquidas, em um curto espaço de tempo, é um dos aspectos que a investigação da PF e o mercado financeiro observam com cautela, buscando entender a lógica e as motivações por trás dessas movimentações.

A Aquisição da Ligga Telecom e Sua Trajetória no Mercado

A história recente da Ligga Telecom é marcada por sua aquisição e entrada no mercado de capitais. A empresa, anteriormente conhecida como Copel Telecom, fazia parte da estatal Companhia Paranaense de Energia (Copel). Em novembro de 2020, a Copel Telecom foi levada a leilão na B3, a bolsa de valores brasileira. A operação de compra foi concretizada por Nelson Tanure, por meio do fundo Bordeaux Participações, do qual é controlador. O valor da aquisição foi de R$ 2,4 bilhões, representando um ágio expressivo de 70,94% sobre o valor inicial de R$ 1,4 bilhão. A venda foi oficialmente concluída em agosto de 2021, marcando o início da gestão de Tanure sobre a operadora.

Em fevereiro do ano seguinte à aquisição, a empresa deu um passo importante ao abrir seu capital, embora com um registro na categoria B da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Nesse enquadramento, a Ligga Telecom não está autorizada a negociar ações em bolsa, mas possui a prerrogativa de emitir títulos de dívida, como debêntures e notas comerciais, para captar recursos no mercado. No mês subsequente à abertura de capital, após um processo de consulta pública, a companhia alterou sua denominação social para a atual, Ligga Telecom, consolidando sua nova identidade no setor de telecomunicações.

Desde então, a Ligga tem sido um player relevante no mercado de fibra óptica do Paraná, buscando expandir sua atuação e fortalecer sua posição. No entanto, as recentes movimentações financeiras e a investigação da Polícia Federal adicionam uma camada de complexidade à sua trajetória. A capacidade da empresa de manter sua credibilidade no mercado e de gerenciar os riscos associados às suas aplicações financeiras será crucial para seu futuro, especialmente em um momento em que a transparência e a governança corporativa são cada vez mais valorizadas pelos investidores e órgãos reguladores.

Decisões Financeiras da Diretoria da Ligga e a Ausência do Conselho

Uma análise detalhada dos demonstrativos financeiros da Ligga Telecom e das atas de reuniões internas revela que a decisão de contratar as Cédulas de Crédito Bancário (CCBs) com o Banco Master foi deliberada pela diretoria da companhia. Este fato é relevante porque, em geral, decisões financeiras de natureza estratégica e que envolvem maiores riscos são tradicionalmente encaminhadas e aprovadas pelo Conselho de Administração. A ausência de uma deliberação do Conselho de Administração sobre a alocação de um montante tão significativo do caixa da empresa em aplicações de baixa liquidez com uma instituição que posteriormente seria liquidada, levanta questionamentos sobre os processos de governança e controle internos da Ligga na época.

O formulário de referência da CVM, um documento público que detalha informações sobre a companhia, menciona a época em que as aplicações foram efetuadas. Ele afirma que “Em outubro de 2022 a companhia alterou sua aplicação financeira para um fundo de investimento com uma rentabilidade superior à praticada anteriormente. A recuperabilidade do investimento é inferior a 90 dias, mas sem liquidez diária. Diante desse cenário, este valor foi reclassificado da rubrica Caixa e Equivalentes de Caixa para a de Aplicações Financeiras, ainda no ativo circulante”. Essa descrição confirma a mudança na estratégia de alocação de recursos e a priorização de rentabilidade sobre a liquidez, uma decisão que agora está sob intensa análise devido aos desdobramentos com o Banco Master.

As demonstrações financeiras de 2022 também detalham a remuneração dessas aplicações. Em 31 de dezembro daquele ano, os valores aplicados eram remunerados entre 101% e 146,221% da taxa de variação do Certificado de Depósito Interbancário (CDI). Essa busca por rendimentos acima da média do mercado, em conjunto com a falta de liquidez e a não cobertura pelo FGC, contrasta com a situação da empresa em agosto de 2021, quando emitiu debêntures para captar recursos. Essa transição de captadora para credora, com uma estratégia de investimento de maior risco, é um dos pontos-chave que a investigação da PF e o mercado financeiro estão tentando compreender para avaliar a licitude e a prudência das operações.

Rumores de Venda da Ligga e a Alienação do Espectro 5G

Em meio às investigações e às preocupações com a situação financeira, rumores sobre a possível venda da Ligga Telecom começaram a circular no mercado na semana passada. De acordo com uma reportagem do portal Pipeline, do jornal Valor Econômico, as conversas estariam mais avançadas com a operadora Brasil Tecpar, controlada pelo empresário Gustavo Stock. A notícia gerou expectativa sobre o futuro da Ligga e uma possível reestruturação de seu controle acionário, em um momento delicado para a companhia.

Na última segunda-feira (26), a Brasil Tecpar emitiu um comunicado ao mercado confirmando que mantém “tratativas preliminares, de caráter exploratório e não vinculante, com a Ligga Telecom sobre uma potencial transação e, quando aplicável, com partes interessadas relevantes, com vistas à avaliação de alternativas de estruturação”. O comunicado, no entanto, ressaltou que a administração da companhia ainda não havia deliberado sobre a realização de qualquer operação, e que “preço, estrutura, cronograma, ou quaisquer outras condições” ainda não haviam sido definidos. A Ligga Telecom, por sua vez, também confirmou à Gazeta do Povo que mantém tratativas “de caráter exploratório e não vinculante” com a Brasil Tecpar, mantendo a cautela e a discrição sobre o andamento das negociações.

Em um movimento que pode estar alinhado a uma reestruturação ou à preparação para uma eventual venda, a Ligga anunciou na quarta-feira (28) a alienação de sua autorização de uso do espectro 5G no Paraná. Esse espectro havia sido arrematado em 2018, em leilão da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), em conjunto com a Unifique Telecomunicações, por meio do Consórcio 5G Sul. A Unifique adquiriu a parte da Ligga por R$ 20 milhões. Segundo a Ligga, a venda desse ativo está alinhada à sua estratégia de alocação de capital, permitindo o redirecionamento de recursos para outras frentes de crescimento. Essa decisão, embora apresentada como estratégica, pode também ser interpretada como uma forma de otimizar os ativos da empresa em um período de incertezas e de negociações para uma potencial transação.

A Defesa de Nelson Tanure e o Posicionamento da Ligga Telecom

Diante das graves acusações e da investigação da Polícia Federal, a defesa de Nelson Tanure foi procurada pela Gazeta do Povo, mas optou por não se manifestar sobre os detalhes do caso. Contudo, em nota divulgada anteriormente, o empresário fez questão de afirmar que jamais enfrentou qualquer processo criminal no contexto das empresas em que é ou foi acionista. Ele também negou veementemente ter qualquer relação de natureza societária com o Banco Master, enfatizando que sua interação com a instituição se deu apenas na condição de cliente, da mesma forma que é atendido por outras instituições financeiras do mercado.

No comunicado, Tanure expressou sua confiança na seriedade das investigações, declarando: “Tenho fé e plena confiança na seriedade das investigações, de que todos os fatos relacionados a mim serão devidamente esclarecidos e de que ficará comprovado que minhas relações com o extinto banco foram integralmente lícitas”. Essa declaração busca reafirmar a inocência do empresário e a legalidade de suas operações financeiras e de suas relações com o Banco Master, em contraste com as suspeitas levantadas pela Polícia Federal sobre uma possível atuação como “sócio oculto” e o uso de fundos para capitalizar o banco.

A Ligga Telecom, por sua vez, também emitiu uma nota oficial para esclarecer sua posição. A empresa infirmou que “cumpre integralmente suas obrigações regulatórias, acompanha de forma contínua seus indicadores financeiros e seus níveis de transparência, bem como mantém diálogo permanente com agências de rating”. A Ligga também fez uma declaração importante ao afirmar que “não possui, atualmente, qualquer aplicação financeira no Banco Master, direta ou indiretamente”, buscando desvincular-se das aplicações que foram feitas anteriormente com a instituição liquidada. Em relação aos seus processos decisórios, a empresa garantiu que segue rigorosamente as práticas de mercado e diretrizes de governança, e que a ata publicada em 2022, referente às aplicações, “seguiu o plano de alçadas vigente na época”, indicando que as decisões foram tomadas conforme as normas internas então estabelecidas. Essas manifestações das partes envolvidas buscam oferecer uma contrapartida às informações divulgadas pela investigação e pelas agências de rating, em um esforço para preservar suas reputações e a confiança do mercado.

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