Nos últimos tempos, a China tem demonstrado uma súbita e intensa obsessão pela pobreza americana, transformando-a em um ponto central de sua comunicação oficial. Essa estratégia, que pode parecer peculiar à primeira vista, é na verdade um complexo movimento de propaganda com objetivos bem definidos.

O Partido Comunista Chinês apropriou-se de uma expressão da cultura dos videogames, a “linha fatal” (kill line, em inglês), para ilustrar o que eles descrevem como um ponto sem retorno na miséria econômica dos Estados Unidos. Essa metáfora poderosa serve para pintar um quadro sombrio da vida além do Pacífico.

A intenção é clara, oferecer alívio emocional à população chinesa e, ao mesmo tempo, desviar críticas internas, conforme informações divulgadas pela The New York Times Company.

A ‘Linha Fatal’ e a Propaganda Chinesa

A expressão “linha fatal”, originária dos videogames para indicar o ponto em que um jogador adversário está tão enfraquecido que pode ser facilmente eliminado, tornou-se uma poderosa metáfora na propaganda chinesa. Ela é usada para descrever um limiar fatal na pobreza americana, onde a recuperação para uma vida melhor se torna impossível.

Essa “linha fatal” engloba a falta de moradia, o endividamento, o vício e a insegurança econômica, pairando sobre a cabeça dos americanos, mas, segundo a narrativa oficial, é algo que os chineses não precisam temer. A força dessa metáfora reside na simplicidade de sua mensagem, um ponto abrupto onde a miséria começa e a felicidade se perde irreversivelmente.

Representar os Estados Unidos como um lugar de dificuldades econômicas profundas e disseminadas é um recurso antigo da comunicação oficial chinesa. No entanto, o uso da imagem da “linha fatal” é uma novidade que reforça essa mensagem com um impacto emocional ainda maior.

Desviando o Foco de Problemas Internos

Não é coincidência que essa enxurrada de mensagens sobre a pobreza americana esteja ocorrendo agora. A economia chinesa enfrenta desafios significativos, com o crescimento econômico pela metade do que já foi e o desemprego entre os jovens em níveis elevados.

Caminhos antes previsíveis para a segurança financeira, como empregos estáveis e valorização imobiliária, tornaram-se incertos. Para muitas famílias chinesas, a margem de erro parece mais estreita do que antes, gerando uma necessidade de alívio e distração.

Conforme o blogueiro jurídico Li Yuchen, em um ensaio que foi censurado, o apelo da “linha fatal” reside em sua conveniência. Ela permite que os chineses condenem um sistema distante enquanto evitam perguntas incômodas sobre suas próprias vidas, funcionando mais como um “intérprete emocional” do que uma ferramenta analítica.

A Realidade da Desigualdade na China e nos EUA

Apesar da intensa campanha chinesa, a desigualdade social é um problema complexo e real tanto na China quanto nos Estados Unidos. A economia americana, sem dúvida, deixa muitas pessoas em situações financeiras frágeis, com causas multifacetadas.

Na China, a percepção da pobreza é diferente, pois a mendicância de rua e a falta de moradia visível são rigidamente controladas, tornando-as menos presentes no cotidiano urbano. Muitos moradores entram em contato com essas cenas apenas através de reportagens estrangeiras retransmitidas pela mídia estatal chinesa.

A insegurança econômica é generalizada na China, com cerca de 600 milhões de pessoas, aproximadamente 40% da população, ganhando em torno de US$ 1.700 por ano. Aposentadorias rurais podem somar apenas US$ 20 ou US$ 30 por mês, e uma doença grave pode levar famílias à ruína, o que explica as altas taxas de poupança doméstica no país.

Como a Narrativa da Pobreza Americana se Espalhou

A metáfora da “linha fatal” ganhou tração na China em novembro, popularizada por um usuário chamado Squid King na plataforma de vídeos Bilibili. Em um vídeo de cinco horas, ele compilou relatos de suposta pobreza americana, mostrando crianças pedindo comida no Halloween e trabalhadores em situações precárias.

Essas cenas foram apresentadas não como casos isolados, mas como evidência de um sistema onde, abaixo da “linha fatal”, a sociedade deixa de tratar as pessoas como humanas. A narrativa se espalhou, com veículos como o site nacionalista Guancha e a plataforma WeChat descrevendo a “linha fatal” como a “lógica real de funcionamento” do capitalismo americano.

Artigos do jornal ocidental Financial Times sobre a disparidade de riqueza em Connecticut e até o livro “Hillbilly Elegy”, de JD Vance, foram citados para exemplificar a profundidade da pobreza americana. A história de Vance, que vendeu plasma para pagar dívidas estudantis, foi usada para questionar as chances de um americano comum.

A Oficialização da Metáfora e as Reações

No final de dezembro, a estrutura da “linha fatal” ganhou impulso oficial. Veículos estatais como Beijing Daily e Southern Daily lançaram “temas quentes” na plataforma Weibo, atraindo atenção. O Guancha publicou mais de uma dúzia de comentários aplicando a metáfora à pobreza, saúde e condições de trabalho nos EUA.

Em janeiro, a Qiushi, principal revista teórica do Partido Comunista Chinês, publicou um comentário abordando a “linha fatal” como uma característica estrutural do capitalismo americano, solidificando o termo na linguagem política sancionada. Relatos de crises financeiras abruptas nos EUA são frequentemente seguidos por comparações com a China.

A propaganda oficial destaca a assistência médica básica universal, garantias mínimas de subsistência e campanhas de erradicação da pobreza como provas de que a China não permite que ninguém caia em sofrimento repentino. “O sistema da China não permitirá que uma pessoa seja ‘morta’ por um único infortúnio”, afirma um comentário de um departamento provincial de propaganda.

Muitos leitores expressaram choque com a pobreza americana e gratidão pelo sistema chinês. No entanto, nem todos aceitaram a narrativa sem questionamentos. Alguns comentaristas aplicaram a linguagem da “linha fatal” a políticas domésticas, mostrando que a realidade, por vezes, é mais difícil de encarar do que as narrativas distantes.

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