O Irã é visto como um aliado importante por grandes potências como China e Rússia, que buscam equilibrar a influência dos Estados Unidos no cenário global. No entanto, essa parceria estratégica não se traduz necessariamente em cooperação militar direta caso o Irã enfrente um ataque americano.
Pequim, por exemplo, maior comprador de petróleo iraniano, tem mantido uma postura discreta diante da recente onda de protestos no Irã. Sua intervenção limitou-se a apelos diplomáticos para que Washington não interfira em assuntos internos de outras nações.
Enquanto isso, Moscou adotou um tom mais alarmista, alertando que as consequências de uma ação militar dos EUA no Oriente Médio poderiam ser ‘desastrosas’ não só para o Irã, mas para o mundo todo. Contudo, esses discursos não indicam uma disposição para uma intervenção militar direta, conforme informações da AFP.
Ellie Geranmayeh, especialista sênior em políticas públicas do Conselho Europeu de Relações Exteriores, afirmou à AFP que, num cenário de guerra entre EUA e Irã, ‘tanto os chineses quanto os russos priorizarão seu relacionamento bilateral com Washington’. Segundo a analista, ambos os países possuem ‘prioridades muito maiores’ do que simplesmente apoiar militarmente um aliado como o Irã.
A Cautela da Rússia em Meio à Crise Ucraniana
A Rússia permaneceu em grande parte em silêncio durante as semanas que se seguiram aos protestos em massa no Irã. O regime de Vladimir Putin está intensamente focado em manter sua guerra contra a Ucrânia, o que exige altos gastos com defesa.
Essa situação limita significativamente sua capacidade de mobilização para ajudar aliados, como o Irã ou a Venezuela. Moscou e Teerã estreitaram laços após a invasão russa da Ucrânia em 2022, quando o Irã passou a fornecer drones Shahed para ataques em Kiev.
Alexander Gabuev, diretor do Centro Carnegie Rússia-Eurásia, disse à AFP que, embora o regime russo fizesse tudo ao seu alcance ‘para manter o regime à tona’, suas ‘opções são muito limitadas’ diante de outras prioridades. Nikita Smagin, especialista em relações Rússia-Irã, destacou à agência francesa que ‘a crise ucraniana é muito mais importante para a Rússia do que a crise iraniana’.
Os Interesses Estratégicos da China no Oriente Médio
A aliança com o Irã é um dos pilares da presença chinesa no Oriente Médio. O gigante asiático tem procurado consolidar sua influência na região, aproveitando o distanciamento dos EUA e da Rússia em certos aspectos.
A China demonstrou a importância que atribui à região ao mediar o restabelecimento das relações diplomáticas entre Irã e Arábia Saudita em 2023. Um ano depois, Pequim sediou negociações entre facções políticas palestinas, resultando em um acordo de unidade.
No entanto, em caso de ataque dos EUA ao Irã, a postura chinesa será de cautela. Wen Shaobiao, especialista em Oriente Médio da Universidade de Estudos Internacionais de Xangai, citado pelo South China Morning Post, afirmou que ‘Pequim manterá uma postura calma e observadora e não se envolverá em nenhuma circunstância’.
A maior preocupação da China com a escalada das tensões é que um conflito iraniano se alastre, causando, por exemplo, uma crise de refugiados. Isso desestabilizaria ainda mais uma região onde Pequim tem importantes interesses econômicos e comerciais, fundamentais para a Nova Rota da Seda e para seus interesses energéticos, já que a China é o maior comprador de petróleo do mundo.
Para Theo Nencini, pesquisador das relações Irã-China no Sciences Po Grenoble, um Irã enfraquecido pode até ser benéfico para Pequim. Ele avalia que ‘a China está se beneficiando de um Irã enfraquecido, o que lhe permite garantir petróleo a baixo custo e adquirir um parceiro geopolítico de porte considerável’.