O ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, reiterou seu interesse em adquirir a Groenlândia, gerando forte reação da primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, que pediu o fim das “ameaças” de anexar o território semiautônomo dinamarquês.
A insistência de Trump, que se intensificou após uma operação americana na Venezuela, levanta questionamentos sobre os motivos por trás de seu persistente desejo por esta vasta ilha no Círculo Polar Ártico.
A busca pela Groenlândia, que Trump considera vital para a segurança nacional dos EUA, envolve fatores geoestratégicos, econômicos e militares, conforme informações divulgadas pela The New York Times Company.
O que torna a Groenlândia um alvo tão cobiçado?
Trump afirma que a ilha é fundamental para a segurança nacional dos EUA, argumentando que a Dinamarca não investe o suficiente em sua proteção. A Groenlândia possui uma base militar americana especializada em defesa antimísseis, o que sublinha sua importância estratégica.
Sua localização é geoestrategicamente vital, com a maior parte do território dentro do Círculo Polar Ártico. Esta região é palco de uma crescente disputa por domínio militar e comercial entre as superpotências globais.
Controlar a ilha daria aos EUA um posto avançado em um corredor naval essencial. Este corredor conecta o Oceano Atlântico ao Ártico, uma área que, devido ao derretimento do gelo, está se tornando navegável e, consequentemente, um novo foco de competição.
Além de sua posição estratégica, a Groenlândia detém enormes reservas de minerais de terras raras. Estes minerais são cruciais para a fabricação de baterias, celulares, veículos elétricos e outros produtos de alta tecnologia, um mercado atualmente dominado pela China.
Cientistas também sugerem que partes da plataforma continental da Groenlândia podem abrigar algumas das maiores reservas de petróleo e gás ainda não descobertas no Ártico. Contudo, o governo groenlandês abandonou suas ambições petrolíferas em 2021, citando riscos ambientais e falta de viabilidade comercial.
A ilha também adotou medidas legais para restringir práticas mineradoras prejudiciais ao meio ambiente, incluindo a proibição da mineração de urânio em 2021. Essas decisões poderiam ser revertidas caso os Estados Unidos adquirissem o território.
A autonomia da Groenlândia e a soberania dinamarquesa
A Groenlândia é um território semiautônomo da Dinamarca, que a colonizou há mais de 300 anos. Por séculos, a Dinamarca manteve controle rigoroso, regulando o comércio e limitando o contato externo da ilha.
A ilha conquistou autonomia em 1979, passando a gerenciar a maioria de seus assuntos internos. Desde 2009, os groenlandeses têm o direito de realizar referendos sobre a independência total, um passo significativo em sua jornada.
Apesar da autonomia, a Dinamarca ainda controla a política externa, a defesa e outros aspectos da governança da Groenlândia. A ilha permanece economicamente dependente da Dinamarca, recebendo uma substancial subvenção anual que financia serviços essenciais, como escolas e gás.
As complexas implicações de uma possível anexação
A aquisição da Groenlândia pelos EUA não seria uma tarefa fácil. Em um discurso anterior ao Congresso, Trump afirmou: “Acho que vamos conseguir, de um jeito ou de outro.” No entanto, a forma como isso ocorreria permanece incerta.
Uma intervenção militar direta, por exemplo, destruiria o acordo central que sustenta a OTAN, da qual tanto a Dinamarca quanto os EUA são membros fundadores. Trump, contudo, não descartou completamente essa possibilidade.
“Há uma boa chance de fazermos isso sem força militar”, disse ele no ano passado, mas ressaltou: “não tiro nada da mesa”, indicando que todas as opções estão sendo consideradas para a Groenlândia.
Trump também tentou usar influência econômica para mudar a opinião pública. Durante seu primeiro mandato, ele cogitou a compra da ilha e, em uma postagem nas redes sociais, apelou diretamente aos groenlandeses.
Na ocasião, ele prometeu: “Estamos prontos para INVESTIR BILHÕES DE DÓLARES para criar novos empregos e ENRIQUECER VOCÊS”, em uma clara tentativa de seduzir a população local.
Contudo, o governo da Groenlândia reagiu proibindo financiamento político estrangeiro e anônimo, visando “proteger a integridade política da Groenlândia” contra influências externas.
Rejeição categórica e a balança militar
Os groenlandeses estão abertos a fazer negócios com os EUA, mas não desejam ser absorvidos. Pesquisas indicam que pelo menos 85% da população é contra a ideia de anexação, demonstrando uma forte oposição.
A Dinamarca possui um exército pequeno, contando com entre 7 mil e 9 mil militares profissionais, sem incluir recrutas, e está tentando aumentar sua capacidade de defesa. Sua segurança depende fortemente da OTAN.
Os EUA, por outro lado, possuem o exército mais poderoso do mundo, com mais de 1,3 milhão de militares ativos. Essa disparidade levanta questões sobre a capacidade de defesa da Dinamarca em caso de conflito direto.
Mikkel Runge Olesen, pesquisador sênior do Instituto Dinamarquês de Estudos Internacionais, afirmou: “Ninguém na Dinamarca tem a ilusão de que deveríamos tentar defender a Groenlândia contra os EUA. Seria impossível”, sublinhando a realidade militar.