A ambição de abrir portas para pesquisadores brasileiros em renomadas universidades estrangeiras, antes uma tarefa de orgulho e sucesso, transformou-se em um desafio complexo e muitas vezes frustrante. Cientistas de instituições sólidas, com currículos robustos e bolsas garantidas pelo Estado, agora se deparam com um cenário de recusas e silêncio.
O que antes era um roteiro previsível, com entusiasmo inicial e colaborações frutíferas, agora culmina em mensagens curtas como “infelizmente não vamos poder ajudar”, seguidas de um corte seco. Essa mudança não se trata de burocracia, mas sim de um padrão inquietante que se repete em diversas frentes de cooperação internacional.
Este isolamento silencioso da ciência brasileira é um preço caríssimo por uma política externa ambígua, conforme análise de Filipe Augusto da Luz Lemos, doutor em Engenharia Elétrica e Informática Industrial e professor na Syracuse University.
O Silêncio das Portas Fechadas na Ciência Brasileira
A experiência de Filipe Augusto da Luz Lemos é um exemplo contundente dessa nova realidade. Ele relata ter lidado com 12 casos de pesquisadores que, apesar de seus talentos e financiamento garantido, tiveram suas portas fechadas nos Estados Unidos. Colegas na Europa ecoam essa preocupação, vendo parcerias históricas serem subitamente “pausadas”.
Por décadas, o Brasil manteve uma cooperação científica ativa e confiável com países como os EUA, incluindo até exercícios militares conjuntos e troca de inteligência cibernética. Havia uma confiança mútua que mantinha as portas abertas, um cenário que hoje contrasta drasticamente com a desconfiança que se instalou.
A ciência brasileira, que deveria atuar como uma ponte baseada em valores compartilhados, está sendo minada por escolhas políticas que afastam o país das democracias liberais, gerando um ambiente de cautela e restrição para nossos pesquisadores.
Áreas Sensíveis e o Risco Geopolítico
O problema é particularmente agudo em áreas estratégicas, como cibersegurança, infraestrutura crítica e ciência forense. Para muitos, a cibersegurança pode parecer apenas “TI”, mas, na realidade, é a proteção de setores vitais como energia, água, finanças e hospitais, sendo considerada questão de segurança nacional nos EUA e na Europa.
Quando um pesquisador brasileiro busca colaboração nessas áreas, a intenção é trazer excelência para proteger o próprio Brasil. Contudo, a nacionalidade brasileira passou a tocar um nervo exposto no tabuleiro geopolítico, gerando uma desconfiança que antes não existia.
O Ocidente, em resposta, apertou o cerco. Universidades e departamentos de compliance passaram a aplicar ao Brasil a mesma cautela reservada a rivais estratégicos. Em conversas reservadas, colegas americanos indicaram que o “risco geopolítico” brasileiro aumentou consideravelmente, impactando a ciência brasileira.
O Preço da Ambiguidade Política Externa
A razão para esse aumento de desconfiança é clara e direta, segundo Lemos. Quando o Brasil se aproxima de países vistos como beligerantes, como a Rússia, envolvida em uma guerra sangrenta contra a Ucrânia, o Irã, que atacou diretamente Israel, e a China, que ameaça invadir Taiwan, o respingo é inevitável.
A inclusão do Irã no Brics, por exemplo, enviou um sinal inequívoco. O gestor de risco internacional captou a mensagem: “melhor não apertar essa mão”. Essa aproximação com regimes autoritários e a ambiguidade na política externa resultam em um isolamento crescente para a ciência brasileira e seus profissionais.
As escolhas geopolíticas do Brasil estão, portanto, diretamente ligadas à capacidade de seus cientistas de colaborar e inovar em escala global, criando barreiras onde antes havia portas abertas para o avanço do conhecimento.
A Fuga de Talentos e o Futuro da Segurança Nacional
O resultado é trágico para a ciência brasileira. Muitos pesquisadores, incluindo o próprio Filipe Augusto da Luz Lemos, estão reposicionando suas agendas de pesquisa para áreas consideradas “inofensivas”, como aplicações em saúde. Essa é uma escolha de sobrevivência, mas desastrosa para o país.
Nossos especialistas em defesa e infraestrutura estão se afastando de temas vitais por medo de barreiras, o que enfraquece o Brasil justamente onde ele mais precisa ser forte. A distorção é dolorosa para quem, como Lemos, busca servir ao bem comum e à proteção da vida através da ciência.
Para manter parcerias com os líderes mundiais em ciência, tecnologia e resiliência, o Brasil precisa reconhecer que a confiança é a moeda mais valiosa. É fundamental que o país debata esses trade-offs com honestidade, pois a fronteira de defesa de 2026 passa, decisivamente, por dentro do laboratório de ciência.