O Reconhecimento Oficial dos Limites da COP 30 no Brasil

O presidente da Conferência das Partes (COP) 30, André Corrêa do Lago, reconheceu recentemente que os resultados da cúpula do clima, realizada em Belém, no Pará, em novembro do ano passado, ficaram aquém das expectativas de cientistas e da sociedade civil. Apesar de alguns avanços no campo diplomático, o embaixador afirmou que o desfecho da conferência seguiu um padrão observado em edições anteriores do evento, onde a ambição das decisões é frequentemente limitada por fatores externos.

A avaliação de Lago foi expressa em uma carta divulgada nesta semana, marcando a primeira comunicação oficial da COP de 2026 e a 12ª desde o início da preparação para a COP 30. O diplomata atribuiu o resultado insatisfatório ao complexo e volátil contexto geopolítico global, que impôs barreiras significativas para a tomada de decisões mais ousadas e para a construção de consensos considerados cruciais diante da escalada das mudanças climáticas.

A admissão sublinha a crescente dificuldade em unir nações em torno de compromissos ambiciosos, mesmo com a urgência da crise climática cada vez mais evidente. As declarações de André Corrêa do Lago, divulgadas em carta e em entrevista a jornalistas, conforme informações da fonte, trazem um panorama realista sobre os desafios inerentes às negociações climáticas multilaterais.

O Peso da Geopolítica no Consenso Climático Global

A afirmação de André Corrêa do Lago de que o contexto geopolítico mundial dificultou decisões mais ambiciosas na COP 30 em Belém ressoa com um desafio persistente nas negociações climáticas globais. A complexidade das relações internacionais, marcada por conflitos, tensões comerciais e disputas de poder, frequentemente se sobrepõe à necessidade de ação conjunta e rápida em prol do clima. Essa realidade impede que os países cheguem a consensos que refletiriam a urgência apontada pela comunidade científica.

O embaixador destacou que, assim como em cúpulas anteriores, a COP 30 obteve progresso diplomático, um feito notável dadas as circunstâncias globais. No entanto, ele enfatizou que esse avanço não foi suficiente para atender às demandas de cientistas e comunidades que já sofrem os impactos das mudanças climáticas. “Como as COPs anteriores, a COP30 conseguiu progresso diplomático, especialmente considerando o difícil contexto geopolítico. Mas, novamente, ficou abaixo do que os cientistas e as comunidades, já sob o impacto das mudanças climáticas, esperavam”, afirmou Lago, sublinhando a lacuna entre o que é diplomaticamente possível e o que é cientificamente necessário.

A influência da geopolítica se manifesta na relutância de algumas nações em comprometer-se com metas rigorosas que poderiam impactar suas economias, especialmente aquelas dependentes de combustíveis fósseis. As divergências sobre responsabilidades históricas, financiamento climático e transferência de tecnologia também criam impasses, transformando as negociações em um delicado equilíbrio de interesses nacionais, muitas vezes em detrimento da ação climática coletiva.

O Impasse dos Combustíveis Fósseis: Um Legado da COP 30

Um dos pontos mais sensíveis e controversos que ficaram de fora do texto final da COP 30 em Belém foi a questão do fim do uso de combustíveis fósseis. Este tema, central para a transição energética global e para o cumprimento das metas do Acordo de Paris, tem sido alvo de profundas divergências entre os países, especialmente aqueles cuja economia ainda está fortemente ligada à produção e consumo de petróleo, gás e carvão.

André Corrêa do Lago informou que ainda trabalha na elaboração de um documento sobre o fim dos combustíveis fósseis, mas sem um prazo definido para a conclusão das negociações. A ausência de um consenso claro sobre este tópico crucial na conferência brasileira é um indicativo da magnitude do desafio. A transição para energias limpas implica em reestruturações econômicas e sociais complexas, e muitos países temem os custos e as consequências de uma ruptura abrupta com as fontes de energia tradicionais.

O embaixador reiterou seu compromisso com essa agenda, afirmando: “Idealmente, nosso sistema coletivo deveria assumir a responsabilidade de desenvolver roteiros para a transição para fora dos combustíveis fósseis e para deter e reverter o desmatamento. Ainda assim, reafirmo meu forte compromisso em avançar essa missão dupla, ao mesmo tempo em que continuo o trabalho sobre o roteiro de US$ 1,3 trilhão, em conjunto com a Presidência da COP 29”. Essa declaração ressalta a importância de se criar um caminho claro e financiado para essa transição, que vai além das declarações de intenção e exige planos de ação concretos e investimentos significativos.

Desmatamento e Financiamento Climático: Desafios Persistentes

Além da questão dos combustíveis fósseis, a presidência da COP 30, liderada por André Corrêa do Lago, também busca avançar na elaboração de “mapas do caminho” para dois outros temas críticos: o fim do desmatamento ilegal e o cumprimento das metas de financiamento climático. Ambos os aspectos são pilares fundamentais para a mitigação das mudanças climáticas e a adaptação a seus impactos, especialmente para países em desenvolvimento.

O desmatamento ilegal, em particular, representa uma das maiores fontes de emissões de gases de efeito estufa, especialmente em biomas ricos como a Amazônia. A criação de um roteiro eficaz para erradicá-lo exige não apenas legislação e fiscalização robustas, mas também alternativas econômicas sustentáveis para as comunidades locais e o reconhecimento do valor da floresta em pé. Este é um tema de especial relevância para o Brasil, país-sede da COP 30 e detentor de vastas áreas florestais.

O financiamento climático, por sua vez, é a espinha dorsal de qualquer esforço global para combater as mudanças climáticas. As metas de financiamento definidas na COP 29, realizada em Baku, no Azerbaijão, em 2024, visam mobilizar US$ 1,3 trilhão para apoiar a transição energética e as ações de adaptação em países mais vulneráveis. O cumprimento dessas metas é essencial para construir confiança entre nações desenvolvidas e em desenvolvimento, e para garantir que os países com menos recursos possam implementar suas próprias estratégias climáticas.

A Reinvenção do Multilateralismo: Proposta Brasileira para Futuras COPs

Diante das crescentes dificuldades em alcançar decisões unânimes nas COPs, o presidente André Corrêa do Lago enfatizou que o multilateralismo, apesar de seus desafios, continua sendo a base das negociações climáticas. No entanto, a complexidade de obter aprovação de todos os países participantes frequentemente resulta em textos finais que são considerados pouco ambiciosos, diluindo o impacto das conferências.

Para tentar superar esse impasse, a presidência brasileira defende um modelo inovador de “multilateralismo em dois níveis”. Essa abordagem propõe que grupos de países, com interesses ou desafios semelhantes, formem coalizões em torno de propostas específicas. A ideia é que essas coalizões possam avançar em temas particulares, construindo consensos parciais que, em algum momento, poderiam se expandir para um consenso total. “Nós temos que ajudar a que mais países se juntem nas coalizões, que em algum momento se tornarão consensos”, explicou Lago, destacando a estratégia de construção gradual de acordos.

Essa proposta visa injetar dinamismo nas negociações, permitindo que ações mais rápidas e ambiciosas sejam tomadas por grupos de nações dispostas a ir além. Ao invés de esperar por um acordo universal que pode nunca chegar ou ser excessivamente diluído, o multilateralismo em dois níveis busca criar um caminho alternativo para o progresso, incentivando a liderança de grupos menores e a formação de alianças estratégicas em temas críticos, como a eliminação gradual de subsídios a combustíveis fósseis ou o estabelecimento de mercados de carbono mais robustos.

A Transição para a COP 31: Novas Dinâmicas e Esperanças

Apesar dos resultados abaixo do esperado na COP 30, o trabalho diplomático em torno do clima prossegue intensamente, com os olhos já voltados para a próxima grande conferência: a COP 31. Prevista para novembro deste ano em Antália, na Turquia, esta edição trará uma novidade significativa na dinâmica das negociações, com a introdução de uma divisão de responsabilidades entre o país-sede e um país encarregado das negociações.

Pela primeira vez, a Austrália assumirá o comando das negociações, compartilhando o fardo e a liderança com a Turquia, o país-sede. Essa mudança reflete o reconhecimento da crescente complexidade e do volume de trabalho envolvido na condução de uma COP, buscando otimizar os processos e garantir maior foco nas discussões substanciais. André Corrêa do Lago confirmou sua participação, ao lado da CEO da COP 30, Ana Toni, em uma reunião preparatória na Turquia em fevereiro, sinalizando a continuidade da coordenação e do esforço conjunto.

A expectativa é que essa nova estrutura possa trazer mais eficiência e agilidade às discussões, permitindo que os desafios sejam abordados de maneira mais focada. A experiência da presidência brasileira na COP 30, marcada pela busca por um novo modelo de multilateralismo, pode influenciar as abordagens na COP 31, com a Turquia e a Austrália buscando formas inovadoras de construir consensos e avançar na agenda climática global, superando os impasses que limitaram o progresso em Belém.

As Expectativas da Sociedade e o Caminho a Seguir

O reconhecimento de que os resultados da COP 30 ficaram abaixo do esperado por cientistas e pela sociedade civil reflete uma crescente frustração com a lentidão da ação climática global. Enquanto os impactos das mudanças climáticas se tornam cada vez mais evidentes – com ondas de calor extremas, eventos climáticos severos e alterações nos ecossistemas –, a resposta política em nível internacional parece não acompanhar a urgência da crise.

As comunidades que já estão sob o impacto direto das mudanças climáticas, muitas delas em países em desenvolvimento, esperam que as COPs resultem em compromissos concretos e ambiciosos, capazes de proteger vidas, meios de subsistência e o meio ambiente. A lacuna entre o que é prometido e o que é efetivamente entregue nas conferências gera um ceticismo que pode minar a confiança no processo multilateral e na capacidade dos governos de enfrentar o desafio climático.

O caminho a seguir exige não apenas a continuidade dos esforços diplomáticos, mas também uma pressão renovada da sociedade civil, da comunidade científica e do setor privado para que os líderes mundiais elevem suas ambições e traduzam as intenções em políticas e investimentos reais. A presidência brasileira da COP 30, ao reconhecer abertamente as limitações, abre espaço para uma reflexão honesta sobre como tornar as futuras COPs mais eficazes e responsivas às demandas do planeta e de seus habitantes.

O Papel do Brasil na Liderança Climática Global

Apesar do reconhecimento dos resultados aquém do esperado para a COP 30, o Brasil, como anfitrião e presidente da conferência, continua a desempenhar um papel central na liderança climática global. A escolha de Belém como sede da cúpula já havia sinalizado o compromisso do país com a agenda ambiental, especialmente em relação à proteção da Amazônia e à promoção de um desenvolvimento sustentável.

A manutenção de André Corrêa do Lago na presidência até a COP 31 demonstra uma continuidade nos esforços brasileiros para influenciar as negociações e buscar soluções inovadoras. A proposta de “multilateralismo em dois níveis” é um exemplo da tentativa do Brasil de adaptar o processo de tomada de decisão às realidades geopolíticas, buscando formas de avançar em temas críticos mesmo sem um consenso total imediato.

O engajamento contínuo do Brasil em pautas como o fim do desmatamento ilegal e a mobilização de financiamento climático, conforme indicado pelos “mapas do caminho” em elaboração, reforça a posição do país como um ator fundamental na diplomacia do clima. A capacidade de construir pontes, articular coalizões e propor mecanismos mais flexíveis de negociação será crucial para que o Brasil possa catalisar progressos significativos nas futuras conferências e contribuir para que os resultados das COPs se alinhem, de fato, com a urgência da crise climática e as expectativas da sociedade global.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Você também pode gostar

PGR defende arquivamento de ação contra jornalistas da ‘Vaza Toga’ e ex-assessor Tagliaferro no STF, entenda a decisão impactante!

Procuradoria-Geral da República recomenda que denúncias de Letícia Sallorenzo de Freitas contra…

Portugal Vota em Eleição Histórica que Pode Consolidar Avanço da Direita e Levar Chega de André Ventura ao Poder

Portugal vai às urnas neste domingo, 18 de fevereiro, para uma eleição…

Morre Raul Jungmann, ex-ministro de FHC e Temer, aos 77 anos, após anos de luta contra o câncer

O cenário político brasileiro se despede de uma de suas figuras mais…

Governo Lula Aposta em Consenso no Congresso para Acelerar Acordo Mercosul União Europeia e Impulsionar Comércio Exterior Brasileiro

O governo brasileiro, sob o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, intensifica…