Presidente Gustavo Petro escapa de tentativa de assassinato em Córdoba
O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, revelou nesta terça-feira (10) ter escapado de uma tentativa de assassinato durante sua recente viagem ao departamento de Córdoba. A declaração, feita durante uma reunião do Conselho de Ministros em Montería, capital de Córdoba, e transmitida ao vivo, chocou o país e lançou luz sobre a contínua fragilidade da segurança política na nação andina.
Segundo o chefe de Estado, ele não conseguiu pousar no local inicialmente previsto na cidade, tanto na noite de segunda-feira (9) quanto na manhã de terça, por temer que o helicóptero em que estava fosse alvo de disparos. A situação se tornou ainda mais grave devido à presença de seus filhos a bordo, forçando a comitiva presidencial a adotar uma rota alternativa de aproximadamente quatro horas até alcançar um local seguro.
Petro atribuiu a ameaça a uma “nova junta do narcotráfico” e a grupos dissidentes armados, especificamente mencionando facções lideradas por “Iván Mordisco”, um dos mais proeminentes líderes de ex-guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) que se recusaram a aderir ao acordo de paz de 2016. A denúncia surge em um momento de crescente violência política e de desafios significativos à política de “Paz Total” do governo.
Os Dias de Tensão e a Rota de Evasão em Córdoba
Os detalhes narrados pelo presidente Gustavo Petro pintam um quadro de extrema tensão e risco. Ele descreveu a impossibilidade de realizar pousos programados em Montería, Córdoba, devido a informações de segurança que apontavam para uma ameaça iminente de ataques ao helicóptero presidencial. “Tenho que confessar que venho há dois dias escapando de que me matem. Por isso, ontem à noite não pude chegar (em Montería). Não consegui aterrissar onde deveria aterrissar. Nem sequer acenderam as luzes”, afirmou Petro, sublinhando a gravidade da situação.
A decisão de abortar o pouso e seguir uma rota alternativa foi motivada pelo receio de que a aeronave fosse atacada, um temor amplificado pela presença de seus filhos. “Temi que atirassem no helicóptero, com meus filhos também. Então fiz o que sei fazer: seguimos por mar aberto por quatro horas e chegamos onde não era para chegar, mas chegamos”, declarou o presidente. Embora a expressão “mar aberto” possa ser uma metáfora para uma rota não convencional e desprotegida, a essência da declaração aponta para uma manobra de evasão prolongada e perigosa, longe das rotas e protocolos de segurança habituais.
O departamento de Córdoba, onde o incidente ocorreu, é uma região com um histórico complexo de conflitos e presença de grupos armados ilegais, incluindo paramilitares, quadrilhas de narcotraficantes e, mais recentemente, dissidentes de grupos guerrilheiros. A escolha de uma rota alternativa de quatro horas, que implicou em desvios significativos, destaca a profundidade da ameaça percebida pela equipe de segurança presidencial e a capacidade de mobilização de grupos criminosos na região, tornando a segurança presidencial uma tarefa de alto risco em certas áreas do país.
A Acusação Direta à “Nova Junta do Narcotráfico” e Dissidentes das FARC
A gravidade da denúncia de Gustavo Petro é amplificada pela sua acusação direta a uma “nova junta do narcotráfico” e a dissidentes armados, notadamente aqueles liderados por “Iván Mordisco”. Esta alegação não é apenas um sinal de alarme sobre a segurança do presidente, mas também uma indicação preocupante sobre a evolução do crime organizado na Colômbia e os desafios que o governo enfrenta em sua estratégia de “Paz Total”.
A menção a uma “nova junta do narcotráfico” sugere uma reconfiguração ou fortalecimento de alianças entre grupos criminosos dedicados ao tráfico de drogas. Na Colômbia, o narcotráfico é um motor fundamental de muitos conflitos, financiando grupos armados e gerando violência em vastas regiões. Uma “nova junta” poderia indicar uma consolidação de poder ou uma nova estratégia por parte desses grupos para desafiar a autoridade estatal, especialmente em áreas rurais e de fronteira, onde a presença do Estado é historicamente fraca.
“Iván Mordisco” é o codinome de Néstor Gregorio Vera Fernández, líder do Estado-Maior Central (EMC), uma das maiores e mais poderosas dissidências das FARC que não aderiram ao acordo de paz de 2016. O EMC tem sido um ator central nos recentes esforços de diálogo do governo Petro no âmbito da “Paz Total”, com negociações que têm sido marcadas por avanços e retrocessos, além de confrontos militares. A acusação de Petro de que Mordisco e seus aliados estariam envolvidos em um complô para assassiná-lo, que supostamente começou em agosto de 2022, desde o início de seu mandato, eleva o nível de tensão e desconfiança nas relações entre o governo e esses grupos armados, colocando em xeque a viabilidade de futuros acordos.
A Política de “Paz Total” de Petro sob Fogo Cruzado
A denúncia de tentativa de assassinato contra o presidente Gustavo Petro ocorre em um momento crítico para sua política de “Paz Total”, a pedra angular de seu governo. Lançada com a promessa de encerrar décadas de conflito armado na Colômbia por meio de negociações simultâneas com diversos grupos armados – desde guerrilhas como o Exército de Libertação Nacional (ELN) e dissidentes das FARC, até gangues e organizações de narcotráfico –, a “Paz Total” tem enfrentado obstáculos substanciais e críticas crescentes.
O incidente em Córdoba, com a acusação direta a uma “nova junta do narcotráfico” e aos dissidentes das FARC de “Iván Mordisco”, expõe as profundas contradições e os perigos inerentes a essa ambiciosa estratégia. Se, por um lado, o governo busca o diálogo para desarmar e reintegrar esses grupos à sociedade, por outro, a persistência de atividades criminosas e a alegada intenção de assassinar o presidente demonstram a resistência e a capacidade de alguns desses atores em desafiar o Estado, mesmo em meio a processos de paz.
A política de “Paz Total” tem sido alvo de ceticismo devido à complexidade de negociar com tantos grupos distintos, muitos dos quais têm interesses conflitantes e não possuem uma estrutura de comando unificada. A acusação presidencial de um complô para sua morte sublinha a fragilidade dos cessar-fogos e dos diálogos exploratórios, sugerindo que alguns grupos podem estar usando as negociações como uma tática para se reorganizar ou fortalecer suas posições. Isso gera dúvidas sobre a real vontade de paz de certos atores e a eficácia das medidas de segurança e inteligência do governo para proteger seus líderes e garantir a estabilidade do país.
Histórico de Ameaças e a Persistência da Violência Política na Colômbia
A Colômbia possui um histórico doloroso e extenso de violência política, com assassinatos de líderes sociais, defensores de direitos humanos, políticos e até mesmo candidatos presidenciais. A denúncia de Gustavo Petro, embora chocante, não é um evento isolado, mas se insere em um padrão de ameaças e atentados que têm marcado a vida pública colombiana por décadas. O próprio Petro, em sua trajetória como ex-guerrilheiro do M-19 e, posteriormente, como político de esquerda, tem sido alvo de ameaças e planos de assassinato em diversas ocasiões ao longo de sua carreira.
Em 2024, o presidente já havia feito denúncias semelhantes, afirmando que um suposto plano para assassiná-lo o impediu de participar do desfile militar de 20 de julho daquele ano. Essa repetição de alegações de complôs contra sua vida destaca a percepção constante de risco que o presidente e sua equipe de segurança enfrentam, e a persistência de atores que buscam desestabilizar o governo por meios violentos. Tais incidentes reforçam a narrativa de um país onde a política e a violência estão intrinsecamente ligadas, apesar dos esforços para construir a paz.
O episódio também ocorre no mesmo contexto da recente denúncia do desaparecimento temporário da senadora indígena Aida Quilcué e de membros de sua equipe de segurança, que foram interceptados em uma rodovia no departamento de Cauca. A parlamentar foi localizada com vida horas depois, mas o incidente serviu como um lembrete vívido da vulnerabilidade de figuras públicas na Colômbia, especialmente aquelas que atuam em regiões de conflito ou defendem causas sensíveis. Esses eventos coletivos pintam um quadro sombrio da segurança no país, onde a ameaça de violência paira sobre muitos que ocupam posições de destaque ou representam comunidades marginalizadas.
Implicações para as Eleições e a Estabilidade Política Colombiana
A denúncia de tentativa de assassinato contra o presidente Gustavo Petro, a apenas três meses das eleições presidenciais, adiciona uma camada de complexidade e volatilidade ao cenário político colombiano. Embora Petro não possa disputar a reeleição, conforme prevê a legislação do país, o incidente tem o potencial de influenciar significativamente o debate eleitoral, as plataformas dos candidatos e a percepção pública sobre a segurança e a governabilidade.
A segurança, que já é um tema central nas campanhas eleitorais na Colômbia, ganha um peso ainda maior após a revelação do presidente. Os candidatos à presidência serão pressionados a apresentar planos robustos para combater o crime organizado, o narcotráfico e os grupos armados ilegais, bem como para garantir a segurança dos cidadãos e das instituições democráticas. A capacidade do Estado de proteger seu próprio chefe será questionada, e isso pode levar a um endurecimento do discurso de segurança por parte de alguns candidatos, enquanto outros podem reforçar a necessidade de continuar os esforços de paz, mesmo diante dos desafios.
Além disso, o incidente pode gerar um ambiente de maior polarização política. A oposição pode usar a denúncia para criticar a gestão da segurança do governo Petro e a eficácia da política de “Paz Total”, argumentando que ela falhou em conter a violência e, em alguns casos, até a exacerbou. Por outro lado, os apoiadores do governo podem enxergar a tentativa como uma prova da resistência de forças obscuras que se opõem às transformações propostas por Petro e à construção de uma paz duradoura, buscando, assim, solidificar sua base eleitoral em torno de uma narrativa de defesa da democracia e do progresso social. A estabilidade política do país, já testada por divisões sociais e econômicas, pode ser ainda mais abalada por tais eventos, criando um clima de incerteza para o próximo ciclo eleitoral.
Repercussões Nacionais e Internacionais do Incidente
A notícia de que o presidente Gustavo Petro escapou de uma tentativa de assassinato reverberará tanto no cenário político interno da Colômbia quanto na arena internacional, gerando uma onda de reações e análises sobre a situação do país. Internamente, a denúncia pode aprofundar as divisões existentes, com diferentes setores políticos e sociais interpretando o evento à luz de suas próprias agendas e visões sobre o governo e a segurança nacional.
No âmbito nacional, o incidente pode fortalecer a posição do governo na sua luta contra o narcotráfico e os grupos armados, justificando medidas mais duras ou reforçando a necessidade de apoio popular à política de “Paz Total”, apesar dos seus percalços. No entanto, também pode ser utilizado pela oposição para questionar a capacidade do governo de garantir a segurança, não apenas do presidente, mas de toda a população, e para criticar a abordagem do governo em relação aos grupos armados. A confiança nas instituições de segurança e inteligência pode ser posta à prova, exigindo investigações transparentes e respostas eficazes para restaurar a credibilidade.
Internacionalmente, a tentativa de assassinato de um chefe de Estado é sempre motivo de grande preocupação. A Colômbia, um país estratégico na América Latina e parceiro chave dos Estados Unidos e da União Europeia em temas como combate ao narcotráfico e segurança regional, pode ver sua imagem afetada. Governos estrangeiros e organismos internacionais estarão atentos às investigações e às respostas do governo colombiano, e o incidente pode levar a um aumento da pressão internacional para que a Colômbia reforce suas instituições democráticas e seus esforços de paz, bem como para que intensifique a cooperação no combate ao crime transnacional. A segurança do presidente e a estabilidade política são vistas como indicadores da saúde democrática de um país, e este evento certamente colocará a Colômbia sob um escrutínio ainda maior.
O Futuro da Segurança Presidencial e da Luta Contra o Crime Organizado
A denúncia de tentativa de assassinato contra o presidente Gustavo Petro não é apenas um alerta sobre a vulnerabilidade do líder colombiano, mas também um espelho das profundas e complexas ameaças representadas pelo crime organizado no país. O incidente em Córdoba deve provocar uma reavaliação imediata e rigorosa dos protocolos de segurança presidencial, buscando identificar falhas e implementar medidas mais robustas para proteger o chefe de Estado e sua família, especialmente em regiões de alto risco.
Além das medidas de proteção imediata, o episódio impõe um desafio crucial à estratégia de segurança nacional e à luta contra o narcotráfico. A acusação de Petro sobre uma “nova junta do narcotráfico” e a participação de dissidentes das FARC sinaliza que as estruturas criminosas estão ativas e, possivelmente, se reorganizando para enfrentar o Estado. Isso exigirá uma resposta coordenada e multifacetada, que combine inteligência, operações militares e policiais mais eficazes, e uma abordagem mais assertiva contra as redes de financiamento e logística desses grupos.
A longo prazo, a capacidade do Estado colombiano de desmantelar essas redes criminosas e de garantir a segurança em todo o seu território é fundamental para a consolidação da paz e da democracia. O incidente em Córdoba, portanto, não é apenas um evento isolado, mas um sintoma de um desafio sistêmico que a Colômbia enfrenta. A resposta do governo Petro a essa ameaça, tanto na proteção de seu líder quanto na intensificação do combate ao crime organizado, será crucial para determinar o futuro da segurança e da estabilidade política do país, e para a credibilidade de sua política de “Paz Total” no cenário nacional e internacional.