Rússia e a Nova Síria: Reunião de Cúpula Define Futuro da Presença Militar em Meio a Mudanças Regionais
O presidente da Rússia, Vladimir Putin, recebeu nesta quarta-feira (28) em Moscou o líder da Síria, Ahmed al-Sharaa, para um encontro crucial focado na delicada questão da continuidade da presença militar russa no país do Oriente Médio. A cúpula ocorre em um momento de transição significativa para a Síria, que viu a coalizão liderada por Sharaa derrubar o regime de Bashar al-Assad, um aliado de longa data de Moscou que permaneceu no poder por 24 anos. Desde então, o Kremlin tem trabalhado ativamente para estabelecer novas relações com o governo sírio recém-estabelecido e, acima de tudo, garantir a manutenção de seus importantes ativos militares na região.
A reunião representa um esforço da Rússia para consolidar sua influência estratégica na Síria, adaptando-se ao novo cenário político. O encontro não apenas sinaliza o reconhecimento de Moscou ao governo de Sharaa, mas também a complexidade de equilibrar interesses geopolíticos com as aspirações de soberania da Síria pós-guerra civil. A pauta incluiu desde a redefinição do status das bases militares russas até a cooperação econômica e a estabilidade regional.
Este diálogo direto entre os líderes é fundamental para os próximos passos da política externa russa no Oriente Médio e para a reconstrução da Síria sob nova liderança. As discussões visam traçar um caminho que permita à Rússia preservar suas posições estratégicas, enquanto o governo sírio busca reafirmar seu controle territorial e garantir sua segurança. As informações foram divulgadas pela agência de notícias Reuters.
A Estratégia Russa Pós-Assad: Manutenção de Influência e Ativos Militares
Após a queda do regime de Bashar al-Assad em 2024, a Rússia enfrentou o desafio de reajustar sua estratégia na Síria, onde mantinha uma forte aliança com o governo anterior. A presença militar russa, vital para a sobrevivência de Assad durante a guerra civil, tornou-se um ponto central nas negociações com o novo governo de Ahmed al-Sharaa. Moscou tem demonstrado pragmatismo, buscando construir laços com a nova liderança síria para assegurar que seus investimentos militares e geopolíticos no país não sejam perdidos.
A principal preocupação do Kremlin é a garantia de que suas duas bases estratégicas no território sírio – a base aérea de Hmeimim e a base naval de Tartus – permaneçam sob seu controle e com status legal definido. Essas instalações são cruciais para a projeção de poder russo no Mediterrâneo e no Oriente Médio, oferecendo uma plataforma para operações aéreas e navais. A estabilidade dessas bases é um pilar da doutrina de segurança russa na região, e a reunião entre Putin e Sharaa buscou formalizar e solidificar esse arranjo.
O processo de adaptação russa à nova realidade síria envolveu gestos diplomáticos e militares. A busca por um novo entendimento com Sharaa reflete a intenção de Moscou de manter um papel proeminente na segurança e na reconstrução da Síria, mesmo sem seu antigo aliado no poder. A Rússia, que desempenhou um papel decisivo no curso da guerra civil síria, agora se posiciona como um ator-chave na fase de estabilização e recuperação do país, buscando legitimar sua presença sob as novas condições políticas.
Bases Militares Russas na Síria: Hmeimim e Tartus como Pilares Estratégicos
A presença militar russa na Síria se concentra em dois pontos de extrema importância estratégica: a base aérea de Hmeimim e a base naval de Tartus. Localizada próxima à cidade de Latakia, no oeste da Síria, Hmeimim serve como o principal centro de operações aéreas da Rússia no país, permitindo-lhe projetar poder aéreo sobre vastas áreas do Oriente Médio. Sua capacidade de abrigar uma variedade de aeronaves de combate e apoio logístico a torna um ativo indispensável para a estratégia de Moscou na região.
Já a base naval de Tartus, situada na costa do Mediterrâneo, é a única instalação naval russa fora do território da antiga União Soviética e a única do país no Mar Mediterrâneo. Ela fornece um ponto de apoio crucial para a frota russa, permitindo o reabastecimento e a manutenção de navios, além de facilitar a projeção de poder naval. A importância de Tartus é amplificada pelo contexto geopolítico do Mediterrâneo, uma rota marítima vital e uma região de intensa disputa de influência entre diversas potências globais.
A manutenção dessas bases é um item-chave na agenda de discussões entre a Rússia e a nova liderança síria. Moscou espera redefinir e formalizar o status de sua presença militar em Hmeimim e Tartus para garantir a continuidade de seu controle sobre elas. Para a Rússia, essas bases representam não apenas um legado de sua intervenção na guerra civil, mas também plataformas essenciais para seus interesses de segurança de longo prazo e sua capacidade de influenciar os desenvolvimentos regionais.
A Retirada de Qamishli: Um Gesto Político e Suas Implicações Regionais
Um dos movimentos mais recentes e significativos da Rússia na Síria foi a retirada de suas tropas do aeroporto de Qamishli, localizado no nordeste do país. Esta cidade, controlada pelas Forças Democráticas da Síria (SDF), predominantemente curdas, tem sido alvo de avanços por parte das forças de Damasco sob a liderança de Ahmed al-Sharaa. A ação de Moscou foi interpretada por uma fonte do Ministério das Relações Exteriores da Síria como um gesto deliberado, sinalizando que a Rússia não intervirá nos combates entre Damasco e as SDF.
A presença russa em Qamishli há muito tempo era vista com irritação pelas autoridades sírias. Damasco enxergava as forças de Moscou na área como uma ameaça à sua soberania e, mais importante, como uma forma de reforçar o governo autônomo curdo, conferindo-lhes um grau de legitimidade. Essa relação era complexa, remontando à cooperação da Rússia com as forças curdas em determinados momentos, mesmo enquanto apoiava Assad contra outros grupos rebeldes.
A retirada, portanto, pode ser vista como uma tentativa da Rússia de apaziguar o novo governo sírio e demonstrar respeito pelas aspirações de Damasco de exercer controle total sobre seu território. Ao se abster de intervir no conflito entre as forças sírias e as SDF, Moscou parece estar priorizando sua relação com o governo central, que está empenhado em restaurar a integridade territorial da Síria após mais de uma década de guerra civil. Este movimento tem profundas implicações para a dinâmica de poder no nordeste da Síria e para o futuro das forças curdas.
A Questão Curda e as Relações Contraditórias da Rússia na Síria
A dinâmica entre a Rússia, o governo sírio e as forças curdas é um exemplo da complexidade da política regional. Historicamente, a Rússia manteve uma relação ambivalente com as forças curdas na Síria. Em certos momentos da guerra civil, Moscou cooperou com as SDF, especialmente em operações contra grupos extremistas, enquanto simultaneamente apoiava o regime de Bashar al-Assad, que era hostil à autonomia curda. Essa dualidade permitia à Rússia manter múltiplas linhas de comunicação e influência.
No entanto, para o novo governo de Ahmed al-Sharaa, a presença militar russa em áreas controladas pelos curdos, como Qamishli, era vista como um obstáculo à sua ambição de reunificar o país. A percepção de que a Rússia conferia legitimidade ao governo autônomo curdo através de sua presença militar gerava atrito. A retirada russa de Qamishli, nesse contexto, é um passo que Moscou parece ter dado para aliviar essa tensão e fortalecer sua relação com Damasco.
Este movimento sinaliza uma possível reorientação da política russa em relação aos curdos na Síria, priorizando os laços com o governo central sírio. Enquanto o processo de restauração da integridade territorial da Síria avança, conforme elogiado por Putin, o futuro do governo autônomo curdo e sua relação com Damasco, e por extensão com a Rússia, permanece incerto. A decisão de Moscou de não intervir nos combates entre Damasco e as SDF pode, a longo prazo, ter um impacto significativo na autonomia curda na região.
Redefinindo o Status da Presença Militar Russa: Formalização e Segurança
Um dos pontos cruciais da agenda entre os presidentes Putin e Sharaa foi a redefinição do status legal da presença militar russa nas bases de Hmeimim e Tartus. Atualmente, a Rússia opera nessas instalações sob acordos estabelecidos com o regime anterior de Bashar al-Assad. Com a mudança de governo, torna-se imperativo para Moscou formalizar sua presença sob a nova administração síria, garantindo a legitimidade e a continuidade de suas operações a longo prazo.
Essa redefinição não é meramente uma questão burocrática; ela implica em um novo pacto de segurança e cooperação entre os dois países. Moscou busca um acordo que solidifique seu controle sobre as duas bases, assegurando que elas continuem a servir aos seus interesses estratégicos sem impedimentos. Para a Síria, a formalização pode significar um reconhecimento da soberania do novo governo, ao mesmo tempo em que estabelece os termos de uma parceria de segurança com uma potência global.
As discussões sobre o status das bases também podem abranger aspectos como a duração dos acordos, as condições de uso e o nível de autonomia operacional concedido às forças russas. O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, confirmou que os dois líderes discutiriam “todas as questões relacionadas à presença de nossas tropas na Síria”, o que sublinha a abrangência e a importância dessas negociações para a futura arquitetura de segurança na Síria e para a projeção de poder russa na região.
Segurança Regional e as Demandas Sírias: Golã e a Defesa contra Incursões Israelenses
Além da questão das bases russas, o líder sírio Ahmed al-Sharaa também buscou um maior envolvimento de Moscou em futuros arranjos de segurança, especialmente no sul da Síria. Uma das demandas específicas de Damasco foi a presença policial russa em Quneitra, localizada nas Colinas de Golã. O objetivo dessa solicitação é claro: servir como uma defesa contra as incursões israelenses, que são uma preocupação constante para a Síria.
As Colinas de Golã, uma região estrategicamente vital, foram ocupadas por Israel em 1967 e anexadas em 1981, um movimento não reconhecido pela maioria da comunidade internacional. A presença de forças russas na área de Quneitra, que faz fronteira com a parte controlada por Israel, poderia atuar como um fator de dissuasão, potencialmente limitando a liberdade de ação de Israel na região e oferecendo uma camada de segurança para a Síria. Este pedido sublinha a busca do novo governo sírio por estabilidade e proteção de suas fronteiras.
A disposição da Rússia em atender a essa demanda será um indicador da profundidade de seu compromisso com a segurança da Síria sob a nova liderança. Um envolvimento russo mais proeminente no sul da Síria pode alterar o equilíbrio de poder regional e introduzir uma nova dinâmica na relação já tensa entre Síria e Israel. A reunião em Moscou, portanto, não apenas tratou da presença militar russa, mas também de como essa presença pode ser utilizada para fortalecer a segurança e a soberania da Síria em um contexto regional volátil.
O Futuro de Assad e a Cooperação Ampliada: Desafios e Perspectivas
Embora não tenha sido um ponto formal da pauta, a questão do paradeiro e do futuro de Bashar al-Assad, que fugiu para Moscou e reside na capital russa desde sua deposição, pairou sobre as discussões. O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, foi questionado pela imprensa sobre a possibilidade de a Rússia concordar em extraditar Assad, mas não respondeu diretamente. Essa ausência de resposta sublinha a delicadeza do tema e a posição da Rússia como protetora de seu ex-aliado, mesmo enquanto constrói pontes com o novo governo.
Além das questões militares e de segurança, a reunião entre Putin e Sharaa também abordou uma cooperação mais ampla. Peskov indicou que os líderes discutiriam a cooperação econômica, um aspecto vital para a reconstrução da Síria devastada pela guerra. A Rússia, que já tem investimentos significativos no país, pode desempenhar um papel crucial na recuperação da infraestrutura, energia e outros setores. Essa cooperação econômica pode servir como um pilar adicional para a relação bilateral, solidificando a influência russa para além do âmbito militar.
A situação regional mais ampla também esteve em pauta, com os líderes avaliando os desafios e oportunidades no Oriente Médio. A estabilização da Síria é vista por Putin como um processo que está “ganhando impulso”, e a Rússia busca se posicionar como um facilitador dessa estabilidade. A visita de Sharaa, sua segunda à Rússia desde 2024, demonstra a importância que o novo governo sírio atribui à sua relação com Moscou. As discussões abrem caminho para um novo capítulo nas relações russo-sírias, com desafios complexos e perspectivas de cooperação em diversas frentes, moldando o futuro da Síria e a dinâmica geopolítica da região.