A recente captura do ditador venezuelano Nicolás Maduro por tropas de elite americanas, em 3 de janeiro, gerou grande repercussão política global, mas surprisingly, não causou abalos imediatos no mercado internacional de petróleo. Apesar do anúncio do presidente Donald Trump sobre o retorno de empresas dos EUA para a Venezuela, os preços da commodity permanecem notavelmente estáveis.
Essa aparente calma se deve a uma combinação de fatores, incluindo incertezas sobre o futuro imediato da Venezuela, sua baixa relevância atual na produção mundial de petróleo e a necessidade de investimentos massivos para reativar uma indústria petrolífera sucateada. Este processo de recuperação pode levar de dois a dez anos, segundo especialistas.
Analistas ouvidos pela Gazeta do Povo avaliam que os acontecimentos recentes não trarão oscilações disruptivas na oferta e, consequentemente, no preço internacional do barril de petróleo no curto prazo, conforme informações divulgadas pelo veículo.
Venezuela: Reservas Gigantes, Produção Mínima
Apesar de possuir as maiores reservas mundiais de petróleo, que representam cerca de 17% do total global, a Venezuela atualmente contribui com apenas 1% da oferta global da commodity. Essa disparidade explica a falta de impacto imediato nos preços após a queda de Maduro.
A Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), em reunião no domingo, decidiu manter seus planos de produção inalterados até março deste ano, descartando grandes disrupções na oferta global. Isso reforça a percepção de estabilidade no curto prazo.
Além disso, a maior parte do petróleo venezuelano é do tipo pesado, com alta viscosidade e concentração de impurezas, exigindo refinarias especializadas para seu processamento, o que dificulta uma rápida inserção no mercado global sem adaptações significativas.
Mesmo com o controle americano sobre a Venezuela, a logística petrolífera se mantém ativa. A agência Reuters reportou que cerca de 12 petroleiros venezuelanos deixaram o país de forma clandestina nos últimos dias, furando o bloqueio dos EUA e mostrando a complexidade da situação.
Peso Simbólico Sem Impacto Imediato nos Preços
A operação americana na Venezuela teve um grande peso simbólico e político, provocando críticas da China, que exigiu a libertação imediata de Maduro. A reação chinesa é compreensível, já que cerca de 80% das exportações de petróleo venezuelano são destinadas ao país asiático.
No entanto, o presidente Trump sinalizou disposição para negociar, afirmando que a operação não afetaria as relações com Xi Jinping e que as vendas de petróleo para a China poderiam continuar, desde que sob condições favoráveis aos EUA. Essa postura indica uma busca por estabilidade, mesmo em meio à crise.
Lucas Sigu Souza, sócio-fundador da Ciano Investimentos, explica que as reservas de petróleo por si só não afetam o preço da commodity. Reservas grandes representam apenas um potencial de exploração no longo prazo, o que pode se tornar uma vantagem competitiva para os Estados Unidos se empresas americanas controlarem a extração e o refino na Venezuela.
Para Souza, o controle americano sobre a Venezuela não significa automaticamente a posse do petróleo no subsolo. Enquanto a situação política não se definir claramente, é impossível prever movimentos significativos nos preços do petróleo.
Infraestrutura Deteriorada e Falta de Mão de Obra Travam Recuperação
Os ataques americanos não afetaram diretamente a infraestrutura petrolífera venezuelana. O verdadeiro problema reside em anos de baixos investimentos e sucateamento da indústria, o que eleva consideravelmente os custos de uma eventual reativação. A produção do país caiu drasticamente, de 3,5 milhões de barris diários em 1999 para menos de um terço disso atualmente.
Diante deste cenário de instabilidade política e infraestrutura deteriorada, Frederico Nobre, gestor de investimentos da Warren, estima um prazo entre cinco e dez anos para que a Venezuela volte a ser relevante na oferta mundial de petróleo. Este período ressalta a complexidade da recuperação.
A falta de mão de obra qualificada é outro obstáculo significativo. David Goldwyn, presidente do Grupo Consultivo de Energia do think tank Atlantic Council, aponta que muitos trabalhadores especializados deixaram o país durante a crise econômica e política, criando um vazio técnico que dificulta imensamente a retomada imediata da produção.
Realinhamento Político Essencial para o Médio Prazo
Os analistas da Janus Henderson preveem um prazo mais curto para a recuperação da Venezuela, cerca de dois anos, mas apenas se houver um realinhamento político do país com o Ocidente. Um cenário político estável seria essencial para estimular o retorno das empresas ao mercado venezuelano e impulsionar a produção.
Goldwyn é categórico ao afirmar que poucas empresas americanas retornarão à Venezuela sem um regime legal e fiscal confiável e sem segurança estável. A atração de investimentos estrangeiros e a reconstrução da indústria dependem fundamentalmente de um ambiente de governança sólido.
Portanto, a queda de Maduro pode abrir caminho para mudanças políticas, mas os preços do petróleo só devem sentir o impacto de uma eventual recuperação da produção venezuelana no médio prazo, após a superação de desafios estruturais e a consolidação de um novo cenário político e econômico no país.