Em meio ao ritmo frenético da Câmara dos Deputados, discernir as posições ideológicas de cada parlamentar pode ser um desafio. No entanto, os registros de votações em plenário oferecem um panorama objetivo e revelador sobre o alinhamento de cada um.

Com propostas que vão da economia aos valores sociais, os votos ‘Sim’ ou ‘Não’ se tornam indicadores claros do posicionamento de cada deputado. É nesse cenário que um estudo detalhado surge para iluminar as tendências conservadoras no Congresso.

A reportagem da Gazeta do Povo realizou um levantamento minucioso, analisando dez projetos cruciais votados em 2025, para identificar quais parlamentares se destacam por um perfil mais conservador, conforme informações divulgadas pela própria Gazeta do Povo.

O Raio-X do Conservadorismo na Câmara

O estudo da Gazeta do Povo avaliou o comportamento dos parlamentares em dez votações importantes, atribuindo um ponto para cada voto alinhado com os princípios conservadores, que incluem liberdade econômica, liberdades individuais e valores tradicionais. Quem votou de forma oposta, se absteve ou faltou, recebeu zero ponto.

Para garantir a precisão, foram selecionados projetos que não deixavam margem para ambiguidades, como a proposta de suspensão do mandato do deputado Glauber Braga (PSOL-RJ), que gerou divisões até mesmo entre conservadores e foi descartada. A pesquisa considerou apenas deputados que participaram de pelo menos oito das dez votações.

Com mais de 5 mil votos individuais analisados, a média geral da Câmara dos Deputados em 2025 foi de 5,3 pontos em uma escala de 10, onde a pontuação máxima representa a posição mais conservadora possível. Surpreendentemente, 47 deputados alcançaram a nota máxima, votando de acordo com a pauta conservadora em todos os dez projetos.

Partidos e Estados: Onde a Direita se Consolida

Entre os partidos, o NOVO se destacou como a legenda mais conservadora, com uma média impressionante de 9,0 pontos. A bancada de cinco deputados do partido teve quatro membros com pontuação máxima, sendo a média puxada para baixo apenas por Ricardo Salles (SP), que obteve 5 pontos devido a ausências em votações.

Em segundo lugar, o PL registrou uma média de 8,2 pontos. Embora tenha uma clara inclinação à direita, a sigla apresenta uma bancada mais heterogênea, incluindo membros do ‘antigo’ PL que antecederam a filiação de Jair Bolsonaro e outras figuras conservadoras. No extremo oposto, PCdoB e PT registraram médias inferiores a 1,0, evidenciando a distância ideológica.

No cenário regional, as bancadas estaduais de Rondônia (8,5 pontos), Santa Catarina (7,9) e Tocantins (7,4) demonstraram o maior alinhamento com as pautas conservadoras. Por outro lado, Ceará (3,9), Bahia (3,3) e Piauí (2,7) apresentaram as menores médias, refletindo diferentes espectros políticos.

Os Projetos que Definiram o Alinhamento Ideológico

Os dez projetos selecionados pela Gazeta do Povo foram cruciais para mapear o posicionamento dos deputados mais conservadores. Entre eles, destacam-se temas como a sustentação de resolução do CFM sobre aborto (PDL 03/2025), onde o voto ‘Sim’ era a posição conservadora.

Outras votações importantes incluíram a dosimetria da pena para condenados pelo 8 de janeiro (PL 2162/23) e o endurecimento da progressão da pena para homicídios (PL 1112/2023), ambos com voto ‘Sim’ como postura conservadora. A criação de incentivos fiscais em programas de assistência estudantil (PL 3118/2024 – Destaque n° 1) pedia voto ‘Não’ para a posição conservadora.

A derrubada do decreto que aumentava o IOF (PDL 314/25) e a simplificação do licenciamento ambiental (PL 2159/2021) eram temas em que o voto ‘Sim’ se alinhava com o conservadorismo. Já a criação de cargos no STF (PL 769/2024) e o aumento do número de deputados federais (PLC 177/2023) exigiam voto ‘Não’ para uma postura conservadora.

Completando a lista, o parecer sobre a suspensão da ação penal contra o deputado Alexandre Ramagem no STF (Parecer CCJC – SAP 1/2025) e a facilitação do cancelamento da Contribuição Sindical (PL 1663/2023) também foram votações decisivas, onde o voto ‘Sim’ representava a posição conservadora.

A Análise dos Especialistas: Além dos Números

Para o cientista político Márcio Coimbra, presidente do Instituto Monitor da Democracia e CEO da consultoria Casa Polític, o levantamento revela nuances importantes. Ele aponta que a proximidade do PSD (5,6) e do MDB (6,0) da média geral (5,3) os posiciona como os ‘verdadeiros fiéis da balança‘ na Câmara.

Coimbra explica que essas legendas, embora não sejam de esquerda, flutuam conforme a conveniência do governo, mantendo um pé no conservadorismo institucional. Ele também ressalta o ‘abismo ideológico’ entre a esquerda e o restante da Câmara, com um salto abrupto do PDT (3,3) para o PSOL e PV (1,0), indicando a ausência de uma centro-esquerda orgânica alinhada com a direita em temas de valores.

O analista chama a atenção para a ‘média traiçoeira‘ de 5,3 da Câmara, que representa uma ‘centro-direita pragmática’. Segundo ele, muitos parlamentares votam com a direita em temas de costumes, mas negociam com o governo em questões econômicas e orçamentárias, caracterizando o fenômeno do ‘direita nos costumes, centrão na economia‘.

Márcio Coimbra ainda analisa a diferença entre NOVO e PL no ranking, explicando que o NOVO é programático e ideológico, sem ‘ala governista’ escondida, o que o consolida como a ‘única legenda purista em termos de liberalismo econômico somado ao combate ao inchaço estatal’. Já o PL, um ‘gigante heterogêneo’, abriga tanto o núcleo bolsonarista quanto uma ala de centrão pragmático, menos conservadora em votações que envolvem cargos e estrutura do Estado.

Com a proximidade das eleições de 2026, Coimbra projeta que essas posições ideológicas se tornarão ainda mais claras, forçando os parlamentares a uma identificação mais nítida com suas bases eleitorais, o que pode redefinir o cenário político para os deputados mais conservadores e todo o Congresso.

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