A Fascinante Procissão dos Fogaréus: Uma Tradição Religiosa e Cultural no Brasil
A Procissão do Fogaréu, uma celebração religiosa de profunda importância cultural, especialmente reconhecida como patrimônio imaterial nos estados da Bahia e de Goiás, tem suas raízes fincadas em eventos bíblicos e em tradições que remontam ao século XVIII. Realizada tradicionalmente na Quinta-feira Santa, a procissão encena a prisão de Jesus Cristo no Jardim das Oliveiras, um momento crucial narrado nos Evangelhos.
A tradição, mantida viva em diversas cidades, como Serrinha, na Bahia, e a histórica cidade de Goiás, em Goiás, possui um capítulo particularmente documentado e dramático em Salvador, capital baiana. Na metrópole soteropolitana, a procissão foi organizada pela Irmandade da Santa Casa de Misericórdia até o ano de 1874, quando um conflito de proporções assustadoras levou ao seu fim, conforme relatado pelo renomado escritor e pesquisador Manoel Querino.
O relato de Manoel Querino, publicado em 1916 em sua obra “A Bahia de Outrora”, lança luz sobre os motivos que levaram à proibição da procissão em Salvador. O autor detalha a estrutura da celebração e os personagens envolvidos, explicando como a violência popular direcionada a um dos participantes culminou no encerramento dessa manifestação de fé. As informações sobre a procissão e seu fim em Salvador são baseadas no registro histórico de Manoel Querino.
Origens e Simbolismo da Procissão do Fogaréu
A Procissão do Fogaréu, em sua essência, busca recriar o drama da prisão de Jesus no Jardim das Oliveiras, um dos episódios mais significativos da Semana Santa. A encenação envolve a representação da traição de Judas Iscariotes, que, com um beijo, entrega o Mestre aos seus algozes. A escuridão da noite, o uso de tochas e fogaréus, e a atmosfera solene visam imergir os fiéis na dramaticidade do momento.
Essa tradição, surgida no século XVIII, espalhou-se por diferentes regiões do Brasil, adaptando-se aos contextos locais, mas mantendo o cerne da sua mensagem religiosa. Em locais como Serrinha (BA) e a cidade de Goiás (GO), a procissão continua sendo um evento de grande apelo popular e espiritual, atraindo multidões que acompanham o cortejo com devoção e respeito.
O simbolismo dos fogaréus, que iluminam a noite, pode ser interpretado de diversas maneiras: como a luz da fé que dissipa as trevas da perseguição, como um chamado à vigilância espiritual, ou como uma representação das chamas da paixão que envolvem o sacrifício de Cristo. A escuridão da noite, por sua vez, evoca o contexto da prisão, um ato realizado às escondidas e sob o manto da noite para facilitar a captura.
A Procissão em Salvador: Esplendor e Ordem da Misericórdia
Em Salvador, a Procissão do Fogaréu, organizada pela Irmandade da Santa Casa de Misericórdia, era um evento de grande magnitude e complexidade logística. A celebração ocorria na noite da Quinta-feira Santa, por volta das oito horas, com um desfile que se iniciava na igreja da Misericórdia.
O cortejo era cuidadosamente estruturado. À frente, um indivíduo ostentava o estandarte, conhecido popularmente como “Pendão”, com a inscrição “S. P. Q. R.” (Senatus Populusque Romanus), um aceno simbólico à solidariedade do povo romano com os atos que estavam prestes a ser cometidos contra Jesus Cristo. Essa inscrição, comum em estandartes romanos, adicionava um elemento histórico e dramático à procissão.
Seguiam-se os “sete passos da Paixão”, painéis que representavam as etapas do sofrimento de Cristo, cada um acompanhado por dois sacerdotes e dois irmãos da Misericórdia. Estes últimos, trajando balandraus — vestimentas com capuz e mangas largas —, conduziam tocheiros que iluminavam o percurso. A força e a imponência do ato eram reforçadas pela presença de “possantes etíopes” que carregavam pesadas lanternas de ferro, de cujas hastes pendiam estopa, breu e aguarás, elementos que produziam um clarão intenso, justificando o nome “fogaréus”. Os irmãos da Misericórdia também tinham a função de abrir caminho para as autoridades clericais e para os músicos da orquestra, que entoavam cânticos sacros.
Personagens Icônicos e a Tristeza do Fagote
A procissão soteropolitana contava com personagens singulares que adicionavam camadas de significado e, por vezes, de estranhamento à solenidade. O fagote, instrumento de madeira conhecido por seu timbre melancólico, era empregado para imprimir uma nota de tristeza e compaixão ao ato, acentuando o sofrimento de Cristo.
Duas figuras jocosas, no entanto, quebravam a solenidade imponente: o “enxota cães” ou “farricoco” e o “Gato da Misericórdia”. O farricoco, vestindo uma túnica roxa com capuz que ocultava o rosto, portava uma baliza reluzente, cuja função não é explicitada em detalhes, mas que certamente adicionava um elemento visual peculiar à procissão.
O “Gato da Misericórdia”, com um uniforme semelhante, desempenhava um papel crucial na condução do cortejo: era responsável por sinalizar, através de uma matraca, quando a procissão deveria parar ou prosseguir. Essa figura, apesar de sua função reguladora, era, de acordo com o relato de Querino, constantemente perseguida por populares, mesmo sob a proteção de policiais. Essa perseguição prenunciava os conflitos que levariam ao fim da procissão.
O Itinerário Sagrado e a Hospitalidade da Misericórdia
O percurso da Procissão dos Fogaréus em Salvador seguia um itinerário religioso bem definido, com paradas em importantes igrejas da cidade. O primeiro ponto de visita era a igreja de Nossa Senhora da Ajuda. Ali, a imagem de Cristo, conduzida pelo escrivão da irmandade, era posicionada em uma banqueta especialmente preparada.
Nesses locais sagrados, o capelão entoava três vezes o “Senhor Deus, Misericórdia”, um ato de súplica e devoção. Após a cerimônia, todos os participantes retiravam-se para repetir a mesma solenidade em todas as igrejas pertencentes ao Curato da Sé. Essa peregrinação pelas igrejas reforçava o caráter religioso da procissão e a interligação das comunidades eclesiásticas.
Ao final do percurso, ao retornar a procissão, era realizado um sermão, proferido por um dos mais renomados oradores sacros da época. Este momento visava a edificação espiritual dos presentes e a reflexão sobre os mistérios da Paixão de Cristo. Após o sermão, um momento de confraternização e hospitalidade era oferecido. Os irmãos da Misericórdia, convidados e pessoas de destaque eram encaminhados para a sala das sessões, onde o provedor da Santa Casa oferecia uma farta mesa, com iguarias como empadas, frigideiras, doces, pastéis e o tradicional vinho velho do Porto, celebrando a conclusão bem-sucedida da celebração.
O Conflito e o Fim da Procissão em Salvador no Século 19
A tradição da Procissão dos Fogaréus em Salvador, que por tantos anos marcou a Semana Santa na capital baiana, chegou a um abrupto fim em 1874. O encerramento foi motivado por um grave conflito que, segundo o relato de Manoel Querino, tomou “proporções assustadoras” e culminou na extinção da procissão.
O estopim para essa violência parece ter sido a perseguição popular ao “Gato da Misericórdia”. Embora o motivo exato dessa hostilidade direcionada a esta figura específica não seja detalhado, é possível inferir que a população, em um contexto de efervescência social ou descontentamento, canalizava sua revolta para os personagens que simbolizavam a ordem ou a representação religiosa.
A situação escalou a tal ponto que alguns irmãos da Misericórdia, que participavam da organização e segurança da procissão, foram atingidos por pedras arremessadas contra o “Gato da Misericórdia”. Essa violência indiscriminada tornou insustentável a continuidade da celebração, levando à sua proibição formal durante a provedoria do conselheiro Manuel Pinto de Souza Dantas. O fim da procissão em Salvador marcou o encerramento de um ciclo importante na história religiosa e cultural da cidade.
O Que Aconteceu Após o Fim da Procissão em Salvador
Com a extinção da Procissão dos Fogaréus em Salvador, a Irmandade da Santa Casa de Misericórdia buscou alternativas para manter o fervor religioso da Quinta-feira Santa, adaptando as celebrações às novas realidades e restrições.
Em substituição à procissão extinta, foi adotada uma nova cerimônia: a celebração do “Lavapés”, seguida por uma missa cantada e a procissão do Santíssimo Sacramento, realizada no claustro. O “Lavapés” é um rito que remete ao gesto de Jesus ao lavar os pés de seus discípulos, um ato de humildade e serviço, central na liturgia da Quinta-feira Santa.
A missa cantada e a procissão do Santíssimo Sacramento no claustro, um espaço mais reservado e controlado, buscavam oferecer uma alternativa mais segura e menos suscetível a conflitos externos, garantindo a continuidade da devoção pascal, ainda que de forma modificada. Essa transição demonstra a capacidade de adaptação das tradições religiosas frente a desafios sociais e históricos.
A Procissão do Fogaréu Hoje: Patrimônio Cultural e Fé Viva
Apesar do trágico fim da Procissão dos Fogaréus em Salvador no século XIX, a tradição sobrevive e floresce em outras partes do Brasil, consolidando-se como um importante patrimônio cultural imaterial.
Atualmente, a procissão é celebrada com grande devoção em cidades como Serrinha, na Bahia, e em Goiás, capital do estado de Goiás. Nesses locais, a celebração atrai milhares de fiéis e turistas, que testemunham a força da fé e a riqueza das tradições religiosas brasileiras. A organização em Goiás, por exemplo, é conhecida por sua grandiosidade e pela fidelidade aos elementos históricos e religiosos da procissão.
O reconhecimento como patrimônio cultural imaterial pela Bahia e por Goiás atesta a importância da Procissão do Fogaréu não apenas como um ato de fé, mas como uma manifestação viva da história, da cultura e da identidade de um povo. A celebração continua a ser um elo entre o passado e o presente, transmitindo de geração em geração os valores e os significados profundos da Semana Santa.
Legado Histórico e a Importância da Memória
O relato de Manoel Querino sobre a Procissão dos Fogaréus em Salvador é um testemunho valioso que nos permite compreender não apenas os rituais religiosos, mas também as dinâmicas sociais e os conflitos que marcaram o Brasil Imperial. A violência que levou ao fim da procissão na capital baiana serve como um lembrete de que mesmo as tradições mais sagradas podem ser afetadas por tensões sociais.
A preservação da memória, através de obras como “A Bahia de Outrora”, é fundamental para que possamos aprender com o passado e valorizar as manifestações culturais que resistiram ao tempo. A Procissão do Fogaréu, em suas formas atuais, representa a resiliência da fé e a capacidade de adaptação cultural.
Estudar a história dessa procissão nos permite refletir sobre a evolução das práticas religiosas, a relação entre o sagrado e o profano, e o papel da comunidade na manutenção e transformação de suas tradições. A Procissão do Fogaréu, com seu esplendor e sua história complexa, continua a ser um fascinante objeto de estudo e uma profunda experiência de fé para aqueles que a vivenciam.