Racionamento de água em São Paulo: Escassez hídrica no Morro da Lua eleva risco de dengue e gera alerta na saúde
Na comunidade Morro da Lua, localizada no Jardim Ingá, distrito de Campo Limpo, zona sul de São Paulo, o racionamento de água transformou a rotina dos moradores em um desafio diário. Há pelo menos três meses, a escassez força famílias a buscar alternativas para ter acesso ao recurso essencial.
A necessidade de armazenar água em baldes, tanques e garrafas, muitas vezes de forma inadequada, acende um grave alerta: o aumento significativo do risco de proliferação do mosquito Aedes aegypti, vetor da dengue, zika e chikungunya.
Essa situação precária de saneamento e saúde tem gerado preocupação entre os habitantes e especialistas, remetendo a crises hídricas passadas que potencializaram epidemias, conforme apurado em reportagem.
A Luta Diária contra a Falta de Água
Carol Gomes, 40 anos, é um exemplo da realidade vivida no Morro da Lua. Para garantir água para sua família de quatro pessoas, ela armazena o recurso em um tanque, baldes e garrafas. “Chegamos a ficar três, cinco dias direto sem água, e o único dinheiro que temos para a condução, para ir trabalhar, usamos para comprar. E armazenamos do jeito que dá”, relata.
O medo da dengue é constante, e Carol tenta cobrir seu tanque com um plástico, mas nem todos conseguem manter essa vigilância. A reportagem flagrou diversas casas com baldes cheios e sem vedação nas garagens e quintais da comunidade.
Jacinta Góes de Souza, 51 anos, aproveita as manhãs, quando há abastecimento, para encher baldes e lavar roupas. Para beber, ela precisa comprar água de um vizinho. Já Marlene Campos dos Santos, 63, dona de um restaurante, mantém três galões destampados para lavar louça, comprando a água para cozinhar.
Olga Próspero, líder da comunidade Morro da Lua, confirma que o problema da falta de água se arrasta há mais de dois meses. “A água está vindo um dia sim, outro não, quando tem, é só até 10h, 11h da manhã e acaba. E não vem para todo mundo”, afirma, destacando que as 6.600 famílias da região são afetadas. A Sabesp, procurada, informou que o abastecimento foi normalizado após reparo em equipamento, atribuindo as interrupções a altas temperaturas e consumo elevado na área elevada.
O Perigo Invisível: Água Parada e o Aedes aegypti
A necessidade de armazenar água, aliada à falta de informação ou recursos para fazê-lo corretamente, cria um cenário propício para a proliferação do Aedes aegypti. A reportagem identificou locais com pneus abandonados, lixo e caixas d’água destampadas, algumas delas cheias de larvas do mosquito.
Um morador explicou que ventos fortes teriam arrancado as tampas das caixas d’água, e muitos não perceberam o risco. Marlene Campos dos Santos, por exemplo, apesar de já ter contraído dengue com o filho, acredita que seus galões destampados não representam perigo por estarem em local fechado, ignorando que o mosquito pode entrar em qualquer ambiente.
Essa percepção equivocada é um dos maiores desafios no combate à doença. Armazenar água de forma inadequada potencializa o risco de formação de criadouros, transformando recipientes essenciais para a sobrevivência em focos de transmissão.
Alerta de Especialistas e Precedentes Históricos
Tamara Nunes de Lima-Camara, professora associada ao Departamento de Epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública da USP, alerta para a gravidade da situação. “Anos atrás, em 2014 e 2015, já vivemos essa situação de uma epidemia de dengue relacionada à situação hídrica”, relembra a especialista.
Em agosto de 2014, um em cada 20 paulistas enfrentava racionamento de água, com interrupções de até dois dias. A lição é clara: a falta d’água força as pessoas a armazenar, mas é crucial que essa prática seja feita com consciência e vedação correta dos recipientes.
Baldes, galões, bacias, tanques e cisternas devem permanecer totalmente fechados ou com tela. Quando vazios, o ideal é mantê-los virados para baixo, em local coberto. O ciclo de vida do mosquito leva de sete a dez dias, e a fêmea adulta, que se alimenta de sangue para produzir ovos, deposita em média 100 ovos a cada ciclo reprodutivo.
Para Tamara Nunes, combater o Aedes aegypti é uma responsabilidade compartilhada. “As políticas públicas são extremamente necessárias para o controle dar certo, mas a sociedade precisa se conscientizar de que faz parte disso e ajudar”, enfatiza, citando vasos de plantas, caixas d’água, pneus, latas e piscinas como potenciais criadouros.
Ações de Combate e Desafios Contínuos
A Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo afirma realizar ações contínuas de combate à dengue na região, que incluem orientação, controle do Aedes aegypti, visitas domiciliares, inspeção de recipientes, eliminação de criadouros e atividades educativas.
Segundo a pasta, as equipes de vigilância do território vão distribuir telas para caixas d’água como medida preventiva, conforme os protocolos oficiais de controle vetorial. Essas telas também podem ser usadas em outros recipientes de armazenamento de água, como baldes e galões, especialmente em contextos de racionamento hídrico.
A situação é crítica: de acordo com a Secretaria da Saúde, em 2025 foram confirmados 1.365 casos de dengue e uma morte pela doença no distrito do Campo Limpo, evidenciando a urgência de ações coordenadas e a conscientização da população para conter o avanço da doença.