Operação Policial em Amapá: Relatório da PF aponta indícios de vazamento e sumiço de celular de indicado de Davi Alcolumbre

Um relatório sigiloso da Polícia Federal (PF) enviado à Justiça Federal nesta semana levanta suspeitas sobre um possível vazamento de informações a alvos de uma operação que investiga aplicações financeiras da Amapá Previdência (Amprev) no Banco Master. No centro das investigações estaria Jocildo Silva Lemos, então diretor-presidente da autarquia e indicado ao cargo pelo presidente do Congresso, Davi Alcolumbre (União-AP).

Segundo o documento, Lemos teria deixado sua residência minutos antes da chegada dos policiais federais e, ao retornar, entregou um aparelho celular recém-habilitado e com poucos registros de uso. Ele justificou a entrega do novo aparelho alegando que seu telefone antigo estava com problemas na tela e que o havia entregue a um amigo na noite anterior. A PF já solicitou a entrega deste aparelho, mas ainda não há confirmação de que ele tenha sido apresentado à corporação.

O caso ganhou contornos ainda mais complexos com a descoberta de uma ligação telefônica realizada por um amigo de Lemos, também funcionário da Amprev, para o celular da esposa do ex-diretor-presidente, minutos antes da deflagração da operação. O celular da esposa de Lemos também foi apreendido, e investigadores alertam para o risco de conhecimento antecipado da medida judicial, o que poderia comprometer a coleta de provas e configurar obstrução de investigação. Conforme informações divulgadas pela Polícia Federal.

Jocildo Lemos pede exoneração e defende legalidade de sua gestão na Amprev

Em resposta às investigações, Jocildo Silva Lemos divulgou uma nota na manhã desta quarta-feira (11) anunciando seu pedido de exoneração do cargo de Diretor-Presidente da Amapá Previdência. Lemos declarou seu compromisso com a instituição, os segurados e a verdade dos fatos, buscando garantir a independência da Justiça para comprovar a legalidade de todos os procedimentos adotados durante sua gestão.

“Faço isso para que a Justiça atue com total independência e para que fique plenamente comprovado que todos os procedimentos adotados sob minha gestão observaram rigorosamente a legalidade, permitindo a identificação e a responsabilização dos verdadeiros culpados”, afirmou Lemos em seu comunicado. Ele também reiterou sua confiança na Justiça e destacou o crescimento de 41% no patrimônio da Amprev entre 2023 e 2025, sob sua administração.

A defesa de Lemos aponta que a Amprev, durante sua gestão, viu seu patrimônio crescer significativamente, o que, segundo ele, garante o pagamento de aposentadorias e pensões até 2059. A autarquia, por meio de notas oficiais, também tem se posicionado, afirmando que se sente “lesada pelos maus feitos do Banco Master” e que busca o ressarcimento dos valores aplicados.

Detalhes da Operação: Chegada da PF e a entrega do celular suspeito

De acordo com o relatório da PF, a equipe policial chegou à residência de Jocildo Lemos pouco depois das 6h da última sexta-feira (6). A entrada na residência foi autorizada por familiares, mas Lemos não se encontrava no local, tendo saído minutos antes sob a justificativa de realizar atividades físicas e levando consigo seu telefone pessoal. Ao retornar, ainda durante o cumprimento do mandado, Lemos demonstrou pouca surpresa com a presença dos agentes e entregou voluntariamente um celular com senha de acesso.

Uma análise preliminar realizada no local indicou que o aparelho era recém-habilitado, sem registros de chamadas, mensagens ou qualquer sinal de uso regular. Quando questionado sobre seu aparelho de uso contínuo, Lemos teria informado que o havia repassado a um amigo na noite anterior devido a um problema na tela. A PF requisitou a entrega deste aparelho, mas, até o momento, não há confirmação de que o celular tenha sido entregue à polícia.

Este episódio do celular é considerado um ponto crucial para os investigadores, que buscam determinar se houve uma tentativa de frustrar a coleta de provas mais sensíveis e possíveis interligações. A suspeita de que Lemos foi alertado previamente sobre a operação pode comprometer a eficácia das diligências e configurar obstrução de investigação, um crime grave que pode redefinir os rumos da apuração e ampliar o alcance das responsabilidades.

Ligação Telefônica e o celular da esposa: Elementos que reforçam suspeita de vazamento

Um outro elemento considerado de alta sensibilidade pela investigação policial é a identificação de uma ligação telefônica realizada pelo amigo de Jocildo Lemos, que também atua na Amapá Previdência, para o celular da esposa de Lemos. Esta ligação teria ocorrido minutos antes da deflagração da operação. O aparelho celular da esposa de Lemos foi apreendido pelas autoridades, e os investigadores consultados pela reportagem alertam para o grave risco que o conhecimento antecipado da medida judicial representa para o andamento das investigações.

Investigadores acreditam que o episódio envolvendo o sumiço do celular e a ligação para a esposa de Lemos pode ser decisivo para entender se houve uma tentativa deliberada de frustrar a coleta de provas mais robustas e possíveis interligações com outros envolvidos. A Polícia Federal está avaliando se outras pessoas ligadas, direta ou indiretamente ao caso, podem ter sido alertadas previamente sobre a operação. A eventual ciência antecipada de uma ação judicial como essa não apenas compromete a eficácia das diligências, mas também pode configurar crime de obstrução de investigação.

A conclusão desta etapa da investigação, focada em determinar a extensão do vazamento e a possível tentativa de ocultação de provas, pode redefinir os rumos da apuração e ampliar significativamente o alcance das responsabilidades. O Ministério Público do Amapá também acompanha o caso e poderá oferecer denúncia criminal caso identifique elementos suficientes para a responsabilização dos envolvidos.

Investigação apura R$ 400 milhões em aplicações da Amprev no Banco Master

A investigação da Polícia Federal se concentra em decisões tomadas em julho de 2024, quando a Amprev aprovou, em um intervalo de menos de 20 dias, aplicações que somaram aproximadamente R$ 400 milhões em letras financeiras do Banco Master. É importante notar que esses papéis não contam com a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC), o que aumenta o risco em caso de problemas com a instituição financeira.

Documentos analisados pela investigação e atas de reuniões obtidas pela reportagem indicam que parte dessas decisões foi tomada mesmo após alertas formais. Dois conselheiros da Amprev manifestaram preocupação com a concentração da exposição do fundo e sugeriram a realização de diligências adicionais, recomendando inclusive consulta ao Tribunal de Contas da União (TCU), diante de questionamentos já existentes sobre a idoneidade do Banco Master.

Apesar das ressalvas apresentadas, as propostas de investimento foram submetidas à votação e aprovadas. A PF apura se houve gestão temerária, negligência ou mesmo fraude na condução dessas aplicações. O jornal O Globo noticiou que, ao final de uma dessas reuniões em julho de 2024, Jocildo Lemos teria afirmado que a aprovação da aplicação dos primeiros R$ 200 milhões “havia tirado um peso das suas costas”, uma declaração que não consta em ata, mas que a PF busca entender se Lemos foi orientado ou coagido a defender os investimentos milionários.

Alertas ignorados e a pressão por investimentos milionários no Banco Master

Durante as reuniões da Amapá Previdência que debatiam os investimentos no Banco Master, alertas sobre os riscos das operações foram feitos. Em uma reunião onde se discutia o investimento de mais R$ 100 milhões no Master, elevando o total para R$ 300 milhões, Jocildo Lemos teria minimizado as preocupações, classificando-as como “histórias” ou “especulação de mercado”. Essa postura contrasta com as ressalvas apresentadas por alguns conselheiros.

Na última reunião, que definiu os investimentos de mais R$ 100 milhões, totalizando os R$ 400 milhões ao final de julho de 2024, um dos conselheiros alvo da operação, José Milton Gonçalves, teria manifestado que o investimento e a rentabilidade eram “bastante atrativos”. Essa manifestação foi acompanhada por Lemos e pelo terceiro conselheiro que aprovou a leva de aplicações, indicando uma possível convergência de interesses ou pressões.

Uma auditoria realizada pelo Ministério da Previdência Social no estado também teria analisado um possível comprometimento dos investimentos ou influência externa para a concretização dessas aplicações. A investigação busca esclarecer se houve direcionamento indevido dos recursos e se outros agentes públicos ou privados exerceram influência nas decisões de investimento da Amprev, especialmente considerando a natureza de risco dos ativos do Banco Master.

A ligação de Jocildo Lemos com Davi Alcolumbre e o cenário político

O avanço da operação na Amapá Previdência, que é o segundo fundo de previdência com maior aporte no Banco Master, atrás apenas da Rioprevidência (com mais de R$ 900 milhões), aproxima o escândalo do núcleo político ligado ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre. É importante ressaltar que Davi Alcolumbre não é investigado e não foi alvo de medidas judiciais.

A assessoria de Alcolumbre afirma que ele não participou da indicação de Lemos nem interferiu nas decisões de investimento da Amprev, classificando como “falsa e irresponsável” qualquer tentativa de vinculá-lo aos atos da autarquia. Em comunicado divulgado na semana passada, Alcolumbre declarou que o episódio deve ser rigorosamente investigado, com total transparência e observância ao devido processo legal, defendendo que eventuais responsáveis sejam responsabilizados conforme a legislação.

No entanto, a presença de Alberto Alcolumbre, irmão do senador, no Conselho Fiscal da Amprev desde agosto do ano passado, intensifica o debate político em torno do caso. Alberto Alcolumbre também não é investigado e não se pronunciou sobre o assunto. Jocildo Silva Lemos presidiu a Amapá Previdência de 2023 até esta quarta-feira (11), tendo sido nomeado pelo governador Clécio Luíz (União Brasil) e declarado publicamente ter sido indicado ao cargo por Davi Alcolumbre. Antes de comandar a autarquia, Lemos atuou como tesoureiro em campanhas eleitorais de Alcolumbre.

Outros alvos da operação e a situação do Banco Master

Na última semana, a PF cumpriu mandados de busca e apreensão contra Jocildo Lemos e outros dois integrantes do comitê de investimentos da Amprev ligados à aprovação do fundo previdenciário estadual no Banco Master: Jackson Oliveira e José Milton Gonçalves. Oliveira e Gonçalves foram procurados para se manifestar, mas não retornaram o contato até o fechamento da matéria.

Apenas dois conselheiros da Amprev demonstraram receio com as aplicações e registraram ressalvas sobre os riscos das operações não cobertas pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC) nas atas das reuniões. Contudo, ambos foram votos vencidos nas decisões de investimento. A Amprev é responsável pela gestão do regime próprio de previdência dos servidores públicos do Amapá, administrando recursos destinados ao pagamento de aposentadorias e pensões para cerca de 40 mil segurados.

A operação “Zona Cinzenta”, batizada assim, é um desdobramento da investigação mais ampla sobre o colapso do Banco Master, a “Compliance Zero”, que apura emissão irregular de títulos e supostas fraudes. O Banco Central liquidou extrajudicialmente a instituição. A Amprev, em nota, afirmou que se sente “lesada” e busca ser ressarcida, tendo inclusive conseguido o bloqueio de pagamentos ao banco. A autarquia reafirma que os investimentos realizados no Master representam 4,7% do total de sua carteira e que adota todas as medidas judiciais cabíveis para proteger o patrimônio dos segurados.

Pressão por CPMI e o futuro das investigações

Enquanto as investigações policiais e judiciais avançam no Amapá, no Congresso Nacional a oposição pressiona pela instalação de uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) para apurar o caso Banco Master. O requerimento para a criação da CPMI já reúne assinaturas suficientes, mas depende da leitura em sessão do Congresso, uma prerrogativa do presidente da Casa, Davi Alcolumbre. Até o momento, Alcolumbre não se pronunciou se é favorável à implantação de uma CPMI para aprofundar as investigações legislativas sobre o caso.

A investigação da PF busca determinar não apenas a responsabilidade de Jocildo Lemos e outros envolvidos na Amprev, mas também a extensão do possível vazamento de informações e a possível tentativa de obstrução da justiça. A análise detalhada do celular de Lemos e de outros dispositivos apreendidos será crucial para elucidar essas questões.

A conclusão desta fase da investigação pode ter implicações significativas, não apenas para os envolvidos diretamente nas aplicações financeiras da Amprev, mas também para o cenário político, dada a ligação de Lemos com figuras proeminentes da política nacional. A sociedade aguarda os desdobramentos para entender a totalidade dos fatos e garantir a responsabilização dos culpados.

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