O Cardeal inglês Arthur Roche, prefeito do Dicastério para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos, está no centro de uma nova controvérsia no Vaticano. Seu recente relatório sobre liturgia, distribuído aos cardeais durante o consistório extraordinário, tem sido amplamente criticado.

O documento, de apenas duas páginas, gerou um debate intenso, especialmente porque o tema da liturgia não foi debatido no encontro, dando a Roche uma espécie de “vitória por WO”. Críticos apontam que o relatório reafirma as restrições à Missa Tridentina com argumentos considerados equivocados.

A vaticanista Diane Montagna divulgou o texto, revelando que a abordagem de Roche, embora utilize premissas aparentemente verdadeiras, chega a conclusões que muitos veem como prejudiciais à unidade e à tradição da Igreja, conforme a análise de diversos comentaristas.

Premissas Verdadeiras, Conclusões Questionáveis sobre a Missa Tridentina

O relatório do Cardeal Roche funciona como uma reafirmação das diretrizes do Papa Francisco em Desiderio desideravi e, principalmente, em Traditionis custodes, o motu proprio que impôs severas restrições à celebração da Missa Tridentina. A estratégia do texto parte de premissas inquestionáveis para justificar a proibição do uso do missal de 1962, o último antes da reforma litúrgica de 1969.

Roche cita, por exemplo, Bento XVI, afirmando que “a Tradição não é transmissão de coisas ou palavras, uma coleção de coisas mortas. A Tradição é o rio vivo que nos liga às origens, o rio vivo no qual as origens estão sempre presentes”. Ele também menciona a importância da unidade da Igreja e a necessidade de aceitar a reforma litúrgica do Concílio Vaticano II.

No entanto, a crítica central é que, a partir dessas verdades, Roche conclui que a solução é banir ou restringir a Missa Tridentina. Essa abordagem é vista como um salto lógico, pois, segundo os críticos, nada dessas premissas leva necessariamente à supressão de uma forma de culto tão antiga e reverenciada.

Unidade ou Uniformidade? O Debate sobre a Missa Tridentina

Um dos pontos mais controversos do relatório é a afirmação de Roche de que “o bem prioritário da unidade da Igreja não é atingido congelando-se divisões”. Contraditoriamente, o dicastério liderado por ele tem promovido ações contra a Missa Tridentina que, para muitos, apenas aprofundam as divisões na Igreja.

Um exemplo citado é o caso da diocese de Charlotte, nos EUA, onde fiéis tradicionalistas estavam integrados, mas foram alvo de proibições que, segundo a fonte, extrapolam os poderes do bispo local. A confusão entre unidade e uniformidade é destacada, lembrando que nem mesmo São Pio V ousou banir ritos tradicionalmente usados na Igreja Latina, como o ambrosiano e o bracarense.

Bento XVI e a Missa Tridentina: Uma Visão Ignorada

A citação seletiva de Bento XVI pelo Cardeal Roche é outro ponto de discórdia. Os críticos argumentam que Roche ignora o “conjunto da obra” do Papa Emérito, que sempre apontou em uma direção oposta à atual restrição da Missa Tridentina.

Foi Bento XVI quem publicou Summorum pontificum em 2007, liberando a celebração da Missa Tridentina para toda a Igreja sem necessidade de autorização episcopal. Em sua carta aos bispos que acompanhava o motu proprio, ele afirmou que “aquilo que para as gerações anteriores era sagrado permanece sagrado e grande também para nós, e não pode ser de improviso totalmente proibido ou mesmo prejudicial”, referindo-se à Missa Tridentina.

Além disso, o então Cardeal Joseph Ratzinger, em seu livro de memórias Lembranças da minha vida (1997), expressou uma visão crítica sobre a reforma litúrgica de 1969. Ele escreveu, em tradução da edição em inglês da Ignatius:

“Era correto e razoável por parte do Concílio ordenar uma revisão do Missal, como ocorrera frequentemente no passado, e que desta vez teria de ser ainda mais minuciosa, principalmente devido à introdução das línguas vernáculas. Mas o que aconteceu foi outra coisa: o edifício antigo foi demolido e construiu-se outro, mesmo que usando os materiais e até as plantas do primeiro. Não há dúvida de que o novo missal, em muitos aspectos, trazia autênticas melhorias e enriquecimento, mas apresentá-lo como um edifício novo, em oposição àquele que foi construído ao longo da história, proibindo o resultado dessa construção, faz com que a liturgia não seja mais um desenvolvimento vivo, mas um produto do trabalho de eruditos imposto por autoridade jurídica. Isso nos causou um grande dano. Surgiu a impressão de que a liturgia é algo ‘feito’, não algo que nos precede e nos foi ‘dado’, mas algo que só depende das nossas decisões.”

Essa perspectiva de Ratzinger demonstra que ele jamais teria endossado as conclusões restritivas de Roche sobre a Missa Tridentina, pois via o processo da reforma de 1969 como uma ruptura, e não como um desenvolvimento orgânico.

Prioridades do Dicastério: Caça aos Tradicionalistas vs. Dignidade Litúrgica

É notável, segundo a fonte, que o Dicastério para o Culto Divino tem sido muito mais enfático na perseguição à Missa Tridentina do que na promoção da celebração correta da Missa Nova. Roche menciona em seu relatório que a “aplicação da reforma litúrgica sofreu e continua a sofrer de uma deficiência formativa”, reconhecendo a urgência de uma solução.

O próprio Papa Francisco, em Desiderio desideravi, enfatizou a importância de cuidar de “todos os aspetos do celebrar” e de observar as rubricas para evitar subtrair “à assembleia aquilo que lhe é devido, isto é, o mistério pascal”. No entanto, o Cardeal Roche, em seu relatório, não dedicou a esse problema a mesma atenção que deu à “caça aos tradicionalistas”.

A experiência do bispo Athanasius Schneider, auxiliar em Astana, no Cazaquistão, ilustra essa disparidade. Em entrevista, ele relatou que há pouca demanda pela Missa Tridentina em sua diocese porque “a maioria das nossas liturgias, graças a Deus, é muito digna”. Ele detalhou práticas como a proibição da comunhão na mão, a obrigatoriedade de recebê-la de joelhos e na boca, e a ausência de meninas coroinhas ou ministros extraordinários da comunhão. A dignidade da Missa Nova, segundo Schneider, reduz a necessidade da Missa Tridentina.

A Abordagem de Leão XIV: Entre a Continuidade e a Abertura

Enquanto o Cardeal Roche argumenta pela supressão da Missa Tridentina em nome da “unidade da Igreja”, o Papa Leão XIV tem demonstrado uma abordagem diferente. Embora não tenha revogado formalmente Traditionis custodes, ele tem sinalizado a disposição de conceder extensões aos bispos que solicitarem a manutenção da Missa Tridentina em suas dioceses.

Leão XIV tem incentivado liturgias dignas e solenes, tanto em suas próprias celebrações quanto em discursos, pedindo “participação frutuosa do Povo de Deus, bem como uma liturgia digna, atenta às diferentes sensibilidades e sóbria em sua solenidade”. Ele também permitiu a celebração da Missa Tridentina na Basílica de São Pedro para encerrar uma peregrinação de fiéis tradicionalistas.

Em entrevista, o Papa Leão XIV reconheceu que “às vezes o, digamos, ‘abuso’ da liturgia no que chamamos de missa do Vaticano II não ajuda as pessoas que procuram uma experiência mais profunda de oração, de contato com o mistério da fé, que elas parecem encontrar na celebração da Missa Tridentina”. A forma como o Papa abordará a questão da Missa Tridentina em seu pontificado, seja por uma reversão formal, uma “revogação tácita” ou uma terceira via, ainda é incerta, mas sua disposição de ouvir e reconhecer os problemas sugere uma possível mudança de rumo.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Você também pode gostar

Banco Central e Polícia Federal Unem Forças Após Crítica de Toffoli e Avanço na Investigação Bilionária do Banco Master

O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, e o diretor-geral da Polícia…

Globo de Ouro: Kleber Mendonça e Wagner Moura disparam críticas a Bolsonaro, reacendendo polêmica política e cultural no Brasil

A vitória do filme “O Agente Secreto” no Globo de Ouro, com…

Fim do Impasse: Banco Central Retira Recurso e Permite Inspeção do TCU no Controverso Caso Banco Master Após Acordo Histórico

O Banco Central (BC) anunciou nesta terça-feira (13) a desistência do recurso…

Revelado: Como o Departamento de Estado dos EUA justificou as bases legais para a ação militar no Panamá na polêmica Operação Just Cause

A Operação Just Cause, intervenção militar dos Estados Unidos no Panamá em…