Medicamentos desenvolvidos inicialmente para combater o diabetes tipo 2 e a obesidade estão redefinindo o tratamento de doenças metabólicas. Eles vêm demonstrando um impacto significativo que vai muito além de suas funções originais.
Estudos recentes apontam que fármacos como a tirzepatida e a semaglutida possuem a capacidade de atuar diretamente na proteção do coração, um benefício crucial para milhões de pessoas em todo o mundo.
Essa descoberta representa um avanço notável na medicina, oferecendo uma nova perspectiva para pacientes com alto risco cardiovascular, conforme informações divulgadas pela Gazeta do Povo.
Além do Açúcar e do Peso: O Mecanismo da Proteção Cardíaca
A doença cardiovascular permanece como a principal causa de morte entre indivíduos com diabetes tipo 2 e obesidade. Por essa razão, a comunidade científica tem investigado profundamente se essas medicações poderiam oferecer uma proteção direta ao coração e aos vasos sanguíneos.
Os resultados mais recentes confirmam que essa proteção existe e é consistente, ocorrendo por mecanismos que vão além da simples redução de peso. Essas medicações atuam em hormônios fundamentais relacionados à saciedade, ao metabolismo e à inflamação.
Essa ação multifacetada reflete diretamente na saúde dos vasos sanguíneos e de todo o sistema cardiovascular. A melhora da função do endotélio, a camada interna dos vasos, e a redução da inflamação sistêmica são exemplos desses mecanismos diretos.
A médica endocrinologista e pesquisadora Denise Franco explica que os efeitos protetores observados não podem ser explicados apenas pela perda de peso. “Logo nas primeiras semanas do estudo, quando ainda não havia uma redução expressiva de peso, já se observava melhora em marcadores inflamatórios e cardiovasculares. Isso mostra que existe um efeito metabólico e vascular direto dessas medicações”, afirma.
Tirzepatida: Evidências Robustas do Estudo SURPASS-CVOT
Os dados mais recentes sobre a tirzepatida provêm do estudo internacional SURPASS-CVOT. Este estudo acompanhou mais de 13 mil pacientes com diabetes tipo 2 e doença cardiovascular aterosclerótica estabelecida, que incluía histórico de infarto, AVC ou doença arterial periférica.
Os participantes foram divididos aleatoriamente para receber tirzepatida ou dulaglutida, uma medicação da mesma classe com benefício cardiovascular já comprovado. O estudo demonstrou que a tirzepatida foi não inferior à dulaglutida na prevenção de eventos cardiovasculares maiores.
Esses eventos, como morte cardiovascular, infarto do miocárdio e AVC, ocorreram em 12,2% dos pacientes do grupo da tirzepatida, contra 13,1% no grupo da dulaglutida. Além disso, a tirzepatida apresentou resultados adicionais relevantes.
Houve uma redução de 16% na mortalidade por todas as causas, além de maior perda de peso, melhor controle glicêmico e benefícios renais em comparação com a dulaglutida. Denise Franco, que participou do estudo promovido pela Eli Lilly no Brasil, ressalta a robustez dos achados.
“A tirzepatida foi comparada com uma medicação ativa que já tinha benefício cardiovascular comprovado. Isso torna os resultados ainda mais relevantes, porque não se trata de uma comparação com placebo”, explica a médica.
Semaglutida: Resultados Consistentes em Diversos Cenários
Para a semaglutida, os dados de proteção cardiovascular são sustentados por uma série de estudos clínicos de grande porte. O principal deles é o estudo SELECT, que monitorou mais de 17 mil adultos com sobrepeso ou obesidade e doença cardiovascular estabelecida, mas sem diabetes, por um período médio de cinco anos.
Os resultados do SELECT mostraram que o uso de semaglutida na dose de 2,4 mg reduziu em 20% o risco de eventos cardiovasculares graves, como infarto, AVC e morte cardiovascular. O estudo também indicou uma redução de 19% na mortalidade por todas as causas.
Outras pesquisas reforçam esses dados em pacientes com diabetes tipo 2. O estudo SUSTAIN-6, por exemplo, demonstrou uma redução de 26% nos eventos cardiovasculares maiores. Marília Fonseca, diretora médica da Novo Nordisk, destaca que a proteção do coração ocorre de forma relativamente precoce.
“Os estudos indicam que o benefício cardiovascular aparece antes mesmo de uma perda de peso mais expressiva, o que sugere mecanismos diretos, como a redução da inflamação sistêmica e a melhora da função vascular”, afirma Marília.
Importância e Cuidados no Uso dos Medicamentos
Apesar dos resultados promissores, as especialistas reforçam que a tirzepatida e a semaglutida devem ser utilizadas exclusivamente com prescrição e acompanhamento médico. Os maiores benefícios cardiovasculares são observados em pacientes com alto risco, como aqueles com diabetes tipo 2 de longa duração, obesidade e histórico de eventos cardiovasculares.
Além da proteção do coração, essas medicações demonstraram benefícios adicionais. Entre eles, estão a melhora da função renal, a redução da progressão de doença renal crônica e um impacto positivo em condições associadas à obesidade, como apneia do sono e doença hepática gordurosa.
Denise Franco enfatiza que esse conjunto de efeitos amplia o potencial dessas terapias. “Hoje, não estamos falando apenas de controle glicêmico ou perda de peso, mas de redução de múltiplos fatores de risco que afetam diretamente a longevidade e a qualidade de vida”, explica.
Contudo, existem contraindicações importantes. Incluem histórico pessoal ou familiar de carcinoma medular de tireoide, síndrome de neoplasia endócrina múltipla tipo 2 e quadros graves de gastroparesia. Os efeitos adversos mais comuns são gastrointestinais, como náusea, vômito e diarreia.
Esses efeitos geralmente duram poucos dias ou semanas e são controlados com ajuste gradual das doses. Marília Fonseca conclui que os dados recentes consolidam uma mudança no tratamento de doenças metabólicas. “Hoje, quando falamos em semaglutida, falamos também em proteção cardiovascular e em envelhecer com mais saúde. Não é apenas sobre emagrecer ou baixar a glicemia, mas sobre reduzir o risco das doenças que mais matam”, finaliza.