Pesquisadores da UFRGS revolucionam diagnóstico de Alzheimer com exames de sangue
Cientistas brasileiros alcançaram um marco significativo na detecção da Doença de Alzheimer, uma condição neurodegenerativa que afeta milhões de pessoas globalmente. Um estudo recente, liderado por pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), demonstrou que é possível identificar a doença precocemente com uma impressionante precisão de até 90%, utilizando apenas exames de sangue.
Este avanço representa uma esperança considerável para pacientes e familiares, pois oferece uma alternativa muito mais acessível e menos invasiva aos métodos de diagnóstico atuais. A descoberta tem o potencial de transformar a maneira como o Alzheimer é detectado no Brasil e em outras regiões do Sul Global, onde os recursos são frequentemente limitados.
A pesquisa focou na avaliação de **biomarcadores sanguíneos (BBMs)** como uma ferramenta eficaz, visando superar as barreiras de custo e acesso que hoje dificultam o diagnóstico preciso. Conforme o estudo, a democratização do diagnóstico precoce do Alzheimer pode mudar o curso da doença para muitos, permitindo intervenções mais céleres e eficazes.
Os desafios atuais no diagnóstico do Alzheimer no Brasil
Atualmente, o **diagnóstico de Alzheimer** é um processo complexo e, muitas vezes, oneroso. Os exames padrão incluem a punção lombar, um procedimento invasivo e doloroso que coleta líquido cefalorraquidiano, e a tomografia por emissão de pósitrons (PTE), que é bastante cara e de difícil acesso.
Esses métodos representam um obstáculo significativo para a população de baixa renda e para aqueles que vivem em regiões afastadas dos grandes centros urbanos. De acordo com a Federação Brasileira das Associações de Alzheimer (Febraz), cerca de 2 milhões de pessoas são afetadas pela doença no Brasil, e a falta de acesso a um diagnóstico preciso é uma preocupação constante.
O estudo da UFRGS ressalta uma disparidade global: embora dois terços dos casos de demência ocorram no Sul Global, a pesquisa sobre biomarcadores sanguíneos tem se concentrado principalmente em países desenvolvidos. Essa lacuna prejudica a compreensão da doença em indivíduos com baixa escolaridade e renda, fatores de risco conhecidos para enfermidades neurológicas.
Os pesquisadores apontam as limitações existentes: “É notável que clínicas de memória em países de alta renda, com amplos recursos, estimem que até um terço dos indivíduos com diagnóstico clínico de DA não apresentem características neuropatológicas da doença na autópsia”, o que sublinha a necessidade urgente de biomarcadores para melhorar a precisão diagnóstica em pacientes vivos.
Como o exame de sangue para Alzheimer foi testado pela UFRGS
A equipe da UFRGS conduziu um estudo meticuloso, analisando amostras de sangue de 59 participantes. O grupo incluía 20 indivíduos com comprometimento cognitivo, 22 com demência por Alzheimer e 17 com demência vascular, esta última causada por lesões vasculares cerebrais repetidas.
Todos os participantes passaram por avaliações clínicas detalhadas, incluindo entrevistas e revisão aprofundada de seu histórico médico. Os cientistas mediram diversos **biomarcadores no sangue** e no líquido cefalorraquidiano, como beta-amiloide (Aβ)40, Aβ42, tau fosforilada (p-tau217), cadeia leve de neurofilamento (NfL) e proteína fibrilar ácida glial (GFAP).
Entre os biomarcadores analisados, o **p-tau217** se destacou, apresentando o melhor desempenho na detecção da doença no grupo de controle. Este grupo tinha uma idade média de 70,7 anos e era predominantemente masculino, com 71,1% dos participantes.
O futuro do diagnóstico de Alzheimer no SUS
Embora o exame de sangue para **diagnóstico de Alzheimer** com biomarcadores ainda não tenha um custo tão baixo quanto um hemograma, os especialistas da UFRGS estão otimistas. Eles acreditam que a popularização e a expansão do uso desses testes poderão reduzir significativamente seus custos nos próximos anos, tornando-os mais acessíveis.
Com o objetivo de impulsionar essa inovação, os pesquisadores criaram a Iniciativa Brasileira de Biomarcadores para Doenças Neurodegenerativas. Este projeto é financiado por importantes órgãos governamentais, como o Ministério da Saúde e o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.
O próximo passo crucial é a realização de estudos mais aprofundados para comprovar a eficácia dos exames em larga escala. A meta final é obter a aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para que, no futuro, esses **exames de sangue** estejam disponíveis para toda a população brasileira por meio do **Sistema Único de Saúde (SUS)**.
Exemplo internacional: o avanço nos Estados Unidos
A relevância dos biomarcadores sanguíneos para o **diagnóstico de Alzheimer** é reforçada por desenvolvimentos internacionais. Nos Estados Unidos, uma agência federal do Departamento de Saúde e Serviços Humanos já aprovou um teste de biomarcadores sanguíneos semelhante ao desenvolvido no Brasil.
Este teste, desenvolvido pela empresa Roche e que analisa o biomarcador ptau-181, tornou-se o primeiro do gênero disponível para uso em ambientes de atenção primária. Ele auxilia na avaliação e no diagnóstico da doença de Alzheimer, demonstrando a tendência global de busca por métodos mais práticos e acessíveis de detecção da condição.