Rachel Reid, antes Rachelle Goguen, confessou em seu blog o desconforto em falar sobre seus romances queer sexualmente explícitos sobre jogadores de hóquei, afirmando: “Escrevo romances queer sexualmente explícitos sobre jogadores de hóquei. Você provavelmente sabe disso, mas estou dizendo porque não me sinto confortável para contar isso para todos.”

Contudo, o que ela considerava “inadaptável” transformou-se em um fenômeno global: a série Rivalidade Ardente (Heated Rivalry), baseada em seu livro de mesmo nome.

Com astros no Globo de Ouro e um fluxo interminável de fãs, a autora canadense não tem mais “por que ficar envergonhada”, conforme informou a BBC.

O Fenômeno de “Rivalidade Ardente”: Do Anonimato à Fama Global

A série, adaptada do segundo romance da série Game Changers de Reid, segue o intenso relacionamento entre dois astros rivais do hóquei sobre o gelo, Shane Hollander e Ilya Rozanov.

Publicados inicialmente de forma anônima na internet, como fan fiction, os livros eram vistos pela autora como “inadaptáveis”, uma confissão surpreendente dado o sucesso estrondoso.

A fidelidade da adaptação é notável. “Acho que nunca vi uma adaptação tão fiel”, declara Reid, ressaltando a proximidade entre a obra original e a tela.

Apesar de ser rotulada por alguns como “a série do hóquei gay”, Rachel Reid não se importa. Ela celebra a comunidade e a energia positiva gerada pela série.

“Eu me sinto muito bem quanto a isso”, afirma. “Se você gosta dela, provavelmente está do lado certo em muitas questões”, ela acrescenta, com um toque de humor e orgulho.

Intimidade e Emoção: Além do Sexo Explícito

Uma exibição em Londres ilustrou o impacto da série. Um bar lotado silenciou com a aparição do protagonista Shane Hollander, seguido de gritos e aplausos para Ilya Rozanov.

A cena dos dois homens nus nos chuveiros coletivos é explícita, mas os espectadores rapidamente perceberam que o sexo serve para ilustrar um relacionamento profundo e complexo.

Este relacionamento é construído lentamente, com encontros secretos e mensagens de texto ao longo de oito anos de rivalidade pública no esporte, mostrando a evolução dos sentimentos.

Joe Leonard, organizador do Projeto Queer do Oeste de Londres, admite: “Vim assistir esperando que fosse algo do tipo de Cinquenta Tons de Cinza”.

Ele confessa surpresa: “No final, você se senta com lenços para enxugar as lágrimas… é uma história muito, muito bonita”, destacando a profundidade emocional da trama.

Alana, uma fã de 21 anos, questiona o foco na intimidade. “Algumas pessoas estão focando apenas no aspecto íntimo… mas elas não dizem o mesmo sobre Bridgerton ou outras séries que mostram intimidade entre pessoas hétero. Qual a diferença?”, compara.

A popularidade entre mulheres, incluindo heterossexuais, gerou debates. Bethan Smith, de 26 anos, comenta: “Não acho novidade que as mulheres se interessem em ficção queer, mesmo mulheres heterossexuais”.

“Só porque se tornou tão popular, as pessoas se perguntam ‘por que as mulheres gostam disso?’ Onde será que elas estavam nos últimos tempos?'”, ela observa. Reid oferece uma explicação simples para a demografia inicial.

“Obviamente, os livros têm muitas mulheres leitoras porque são elas que leem romances, que leem ficção em geral”, explica a autora sobre o público original dos livros.

Com a série, no entanto, “ganhamos uma legião de fãs muito maior e mais diversificada. E, sim, muitos homens, o que é realmente estimulante”, comemora Rachel Reid.

O Crescimento do Romance Esportivo e o Nicho Queer

A combinação de esporte e romance pode parecer incomum, mas para leitores do gênero, faz todo o sentido. Kayleb, de 23 anos, já leu diversos “romances no esporte”.

“Li alguns romances passados na Fórmula 1”, ele exemplifica, mostrando que Rivalidade Ardente se insere em um subgênero em expansão e com grande aceitação.

Este subgênero, que abrange futebol, pugilismo e baseball, “disparou nos últimos quatro a cinco anos”, segundo a agente literária Saskia Leach, evidenciando seu crescimento.

“Certamente, é o subgênero de romance inovador dos anos 2020”, ela afirma, explicando que o sucesso de Heated Rivalry não é uma surpresa para o mercado editorial.

Aimee Cummings, da livraria Love Stories em Cardiff, confirma a “enorme demanda” por esses livros, mesmo sendo “um nicho dentro de um nicho”.

Desde o primeiro dia, sua livraria recebeu pedidos por Rivalidade Ardente e outros títulos do gênero, como “Binding 13: Marcação Cerrada no Amor”, de Chloe Walsh, mostrando a popularidade.

Representatividade e Impacto Fora das Páginas e Telas

O hóquei sobre o gelo, para Reid, é mais que um cenário. Ela escreveu seus livros “para trabalhar muitos dos meus sentimentos sobre a misoginia desenfreada, a homofobia e a violência” no esporte que tanto admira.

A série reacendeu discussões sobre representatividade. Não há jogadores abertamente gay em atividade na Liga Nacional de Hóquei norte-americana (NHL), segundo a rede CBC.

Reid revela que, embora a NHL não a tenha contatado, “muitas pessoas do mundo do hóquei fizeram contato… pessoas que amo e respeito e é tudo o que importa para mim”, demonstrando apoio.

O sucesso da série impulsionou as vendas dos livros de Rachel Reid. Nos EUA, Rivalidade Ardente e vários outros romances alcançaram a lista dos mais vendidos do The New York Times no início de dezembro.

A autora anunciou o novo romance Hollanov — com os mesmos personagens, Shane Hollander e Ilya Rozanov — chamado “Unrivaled” (Imbatíveis), para a alegria dos fãs.

No Reino Unido, os livros impressos, antes apenas e-books, chegaram às livrarias e entraram nas listas de mais vendidos da Amazon, ampliando seu alcance.

A maior cadeia de livrarias britânica, a Waterstones, registrou um aumento de “cerca de 700%, semana após semana” nos pedidos diários de pré-venda desde o início de janeiro, com Rivalidade Ardente liderando.

A editora HarperCollins precisou imprimir diversos lotes adicionais, além do originalmente planejado, para atender à demanda inesperada, um claro sinal do impacto cultural e comercial.

Para Reid, a esperança é que seus livros inspirem mais “histórias de amor LGBT positivas”, com “alegria queer”, mudando o panorama da representatividade.

“Talvez não precisemos matar um deles antes do fim”, ela brinca, propondo “uma ótima mudança” para o futuro da representatividade LGBTQIAP+ na ficção, buscando finais felizes.

A edição em português do livro Rivalidade Ardente tem lançamento previsto pela Editora Alt para 5 de fevereiro, prometendo conquistar o público brasileiro com essa história envolvente.

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