Saxofonista Roberto Sion narra a importância das históricas jam sessions da Folha em sua trajetória musical
O renomado saxofonista Roberto Sion, figura ímpar na música instrumental brasileira, compartilhou memórias preciosas sobre sua participação nas icônicas Jam Sessions das Folhas, eventos que marcaram época na década de 1960. Em entrevista à coluna Música em Letras, Sion relembrou como essas audições musicais, realizadas no auditório do jornal, foram fundamentais para sua formação artística e para o desenvolvimento do jazz no país.
As Jam Sessions das Folhas, que completaram 65 anos em dezembro de 2025, não foram apenas um palco para grandes nomes da música, mas um verdadeiro celeiro de talentos e um ponto de encontro para entusiastas do jazz. Sion, que frequentou esses eventos ainda na adolescência, descreve a atmosfera vibrante e o impacto emocional que essas apresentações tiveram em sua jovem carreira.
A Folha, que celebrou seus 105 anos em 2023, tem um legado que transcende o jornalismo, abrangendo também a cultura e as artes. As entrevistas com músicos que participaram das jam sessions são um resgate histórico valioso, oferecendo um olhar íntimo sobre um período crucial para a música brasileira. As informações foram divulgadas pela coluna Música em Letras, em celebração ao aniversário do jornal.
O início de tudo: O Jazz Clube de Santos e a paixão pelo saxofone
Nascido em Santos, litoral de São Paulo, Roberto Sion teve seu primeiro contato com o universo do jazz através do Jazz Clube de Santos, fundado por seu pai e amigos. Sem um local fixo, o clube servia como um ponto de encontro para trocar informações e, principalmente, para ouvir discos de artistas que já encantavam o jovem Sion. Sua formação musical começou com o piano no conservatório, mas a paixão pelo trompete surgiu com a chegada de seu primo, o também músico Claudio Roditi, que passou a morar em Santos.
A influência de seu primo, juntamente com a admiração por saxofonistas como Ferreira Godinho Filho (Casé) e Hector Costita, um dos artistas que também se apresentaram nas Jam Sessions das Folhas, o levaram a explorar o clarinete antes de finalmente se dedicar ao saxofone, instrumento que se tornaria sua marca registrada. Sion recorda-se de ouvir intensamente discos de nomes como Dick Farney, Paulo Moura e Moacir Peixoto, tentando improvisar de maneira intuitiva.
“A gente tinha um grupinho lá em Santos, que era o Flávio Clemente, de piano, e eu não lembro quem era o baterista. Naquela época, os músicos de jazz eram poucos no Brasil, jazz era uma coisa muito localizada, muito pontual, nas residências mais da classe média, quase ninguém tocava. Então nos convidaram, não sei como, a participar de umas das jam sessions das Folhas”, relatou Sion, evidenciando a raridade e o caráter exclusivo do jazz no cenário musical da época.
A estreia nas Jam Sessions das Folhas e o encontro com Booker Pittman
Aos 14 anos, Roberto Sion teve a oportunidade de participar de uma das Jam Sessions das Folhas, um momento que ele descreve como um divisor de águas em sua carreira. Foi nesse contexto que ele conheceu Booker Pittman, renomado saxofonista norte-americano e pai da cantora Eliana Pittman, que também era uma das atrações do evento. A conexão entre as famílias Sion e Pittman foi um catalisador para a participação do jovem músico.
“Meu pai conheceu o Booker Pittman e levou ele lá em casa. A gente ficou superfeliz de ter tocado na Folha, né? Eu tenho uma foto do jornal guardada até hoje”, conta Sion, com emoção. Ele se recorda vividamente da magnitude das máquinas de impressão do jornal, ali presentes na entrada, e da experiência de tocar jazz ao vivo pela primeira vez, antes de um grupo profissional. Na ocasião, o repertório era estritamente americano, com standards como “There Will Never Be Another You”, pois a ideia de improvisar com música brasileira ainda era distante.
A importância de ter músicos americanos tocando jazz ao vivo foi um choque emocional para o jovem Sion. “Lembro que fiquei sem ar, porque foi uma coisa tão forte. São alguns momentos que a gente toma uma pancada emocional, né? E isso é muito importante. Sempre lembro, com muito carinho das jams, porque foi uma tremenda força, né? Eu era muito novo, recebi alguns elogios e isso me motivou muito a estudar sax. Foi graças a essa possibilidade da Folha, né?”, desabafa o músico, ressaltando o poder motivacional da experiência.
O impacto do Cool Jazz e a influência americana na música brasileira
Naquela época, Roberto Sion era um ávido apreciador do cool jazz, especialmente das composições de Dave Brubeck, com o som melódico do sax alto de Paul Desmond, a bateria precisa de Joe Morello e a condução firme do contrabaixo de Eugene Wright. Ele reconhece que, naqueles anos 1960, o jazz brasileiro ainda estava em formação, fortemente influenciado pelo modelo americano.
“O jazz era puramente americano. Nos discos de jazz do Dick Farney e do Casé, ainda não existia essa concepção de jazz. Sabe quando começou isso? Nos anos 1970, com o Hermeto [Pascoal]”, afirma Sion. Ele aponta Hermeto Pascoal, Egberto Gismonti e Victor Assis Brasil como pioneiros na concepção de um jazz genuinamente brasileiro, que começou a ganhar forma a partir da década de 1970, após a experiência desses músicos nos Estados Unidos.
Ainda sobre as Jam Sessions das Folhas, Sion recorda-se de ter assistido a apresentações de outros talentos notáveis, como o pianista Pedrinho Mattar e o saxofonista Paul Winter. Esses encontros musicais não eram apenas oportunidades de se apresentar, mas também de absorver a arte e a técnica de músicos experientes, consolidando a importância desses eventos para a cena cultural da época.
A formação da banda e os bastidores das Jam Sessions
Roberto Sion detalha a formação da banda com a qual se apresentou nas Jam Sessions da Folha. Ele menciona Flávio Clemente nos teclados e Elton na bateria, mas a identidade do contrabaixista na ocasião permanece incerta, podendo ter sido Luiz Chaves ou seu irmão, Sebastião Oliveira da Paz (Sabá). A presença do contrabaixo era fundamental para preencher o som e dar sustentação à performance.
“Foi um dos dois, porque precisava ter um baixo, para não ficar aquela coisa vazia, né? E um deles nos deu uma força. O baterista era o Elton e o pianista, o Flávio Clemente”, explica Sion. A memória desses detalhes, mesmo após tantos anos, demonstra a relevância que esses momentos tiveram em sua trajetória, servindo como um marco de sua entrada no cenário profissional da música.
A experiência de tocar em um ambiente como o das Jam Sessions da Folha, em um jornal de grande circulação, proporcionava uma visibilidade ímpar. Para um jovem músico como Sion, receber elogios e o reconhecimento de seus pares e do público foi um combustível poderoso para aprofundar seus estudos e sua dedicação ao saxofone.
A carreira multifacetada de Roberto Sion: Psicologia, arranjos e composições
A trajetória de Roberto Sion vai além de sua carreira como saxofonista. Aos 14 anos, ele já demonstrava seu talento nas Jam Sessions da Folha, e desde então, trilhou um caminho repleto de realizações. Ele cursou faculdade de psicologia, participou de inúmeras formações musicais, gravou diversos discos, incluindo trabalhos autorais, e assinou arranjos para grandes nomes da música brasileira.
Além de maestro e arranjador, Sion regeu diversas orquestras e big bands, demonstrando sua versatilidade e profundo conhecimento musical. Sua dedicação à arte de “amealhar os sons”, como ele mesmo descreve, o manteve ativo e relevante no cenário musical por décadas. A capacidade de transitar entre diferentes estilos e formações é um testemunho de seu talento e paixão pela música.
A formação acadêmica em psicologia, embora pareça distante da música, pode ter contribuído para sua compreensão da dinâmica humana e da expressão artística, enriquecendo sua percepção musical e sua capacidade de comunicação através da arte. Essa combinação de saberes o tornou um artista completo e multifacetado.
O presente e o futuro: Aguardando novos projetos e a paixão pela música
Atualmente, Roberto Sion encontra-se em um período de espera por novas oportunidades para expressar sua arte em larga escala, como a formação de uma orquestra. Ele expressa sua frustração com a demora e a incerteza de novos projetos, mas não deixa de lado sua paixão e dedicação à música.
“Estou aguardando um convite para formar uma orquestra, mas está muito demorado. Não sei se vai dar certo, né? E aí, estou na espera. É ruim isso. O que eu faço então?”, questiona o músico. Ele revela que mantém um duo com o contrabaixista Itamar Colaço e que, ocasionalmente, realizam apresentações. No entanto, a maior parte de seu tempo é dedicada a estudos e ao envio de projetos para aprovação.
“Na verdade, tenho estudado muito, né? Além de enviar sempre projetos para serem aprovados, não estou fazendo nenhuma atividade fora dessas quatro paredes. Então eu tô esperando… Assim, eu estou esperando, não um milagre, espero que o destino faça pintar alguma coisa fixa, para que eu possa me realizar nessa área orquestral, de arranjador, compositor, e ao mesmo tempo não perder meu papel de solista. Enfim, hoje, eu estudo barroco, bebop, choro, e muito piano”, conclui Sion, demonstrando a vitalidade e a curiosidade intelectual que o mantêm ativo e em constante aprendizado em seu estúdio no bairro do Sumaré, em São Paulo.
O legado das Jam Sessions e a influência duradoura na música brasileira
As Jam Sessions das Folhas, realizadas nos anos 1960, representaram um marco na história da música brasileira, especialmente para o desenvolvimento do jazz e da improvisação. Eventos como esses foram cruciais para a formação de músicos como Roberto Sion, proporcionando um ambiente de aprendizado, intercâmbio e inspiração.
A participação de artistas de renome nacional e internacional, como Booker Pittman, Dick Farney e Rita Lee, consolidou as Jam Sessions como um espaço de excelência musical. A gravação ao vivo do primeiro álbum, “Jam-Session das Folhas”, em 1961, imortalizou a energia e a qualidade sonora desses encontros, tornando-se um registro valioso para futuras gerações.
O impacto dessas sessões se estende até os dias de hoje, influenciando novos músicos e consolidando a importância da música instrumental na cultura brasileira. A memória dessas jam sessions, preservada por depoimentos como o de Roberto Sion, é um testemunho do poder da música em conectar pessoas, inspirar carreiras e moldar o futuro da arte.
A importância da Folha na promoção cultural e artística
A celebração dos 105 anos da Folha não se limita ao seu papel como veículo de informação. A história do jornal se confunde com a própria história cultural do Brasil, especialmente por meio de iniciativas como as Jam Sessions. Ao sediar e promover eventos musicais de tamanha relevância, a Folha demonstrou seu compromisso com a arte e com a formação de novos talentos.
A página especial “Folha, 105 anos” oferece um portal para explorar o rico acervo histórico do jornal, com textos, vídeos e debates que abordam o passado, presente e futuro do jornalismo e da sociedade. As entrevistas com os músicos que participaram das jam sessions são um exemplo de como o conteúdo jornalístico pode se expandir para abranger outras áreas, enriquecendo a experiência do leitor.
O legado das Jam Sessions das Folhas, revivido através das memórias de Roberto Sion e outros artistas, reforça a importância de instituições como a Folha na promoção da cultura e na disseminação de conhecimento. Esses eventos não apenas entretiveram, mas também educaram e inspiraram, deixando uma marca indelével na trajetória de muitos músicos e na paisagem musical brasileira.